Quando fui a Buenos Aires

Fui a Buenos Aires duas vezes. Uma em 2006 e outra em 2010.

Na primeira vez, poucos de meus amigos conheciam a cidade porteña. Hoje, muitas vezes é mais barato ir para lá do que visitar o nordeste brasileiro. Por isso, é comum quando andamos por ruas como a Calle Florida e encontramos mais gente falando português do que espanhol.

Mas é inegável, a cidade é encantadora. É encantadora de dar dois suspiros! Lembro-me de passear com a Raquel por suas pequenas ruas, observar os pequenos prédios, aquelas casas tão antigas com um ar nostálgico e as pessoas com a velocidade de uma metrópole. É claro que nos perdemos algumas vezes. Mas era fácil olhar naqueles pequenos guias de bolso e encontrar onde estávamos. E lá seguíamos nós. Cinema na Corrientes, curiosidade no Barrio Chino, feria de San Telmo e Recoleta, as faculdades tão altas e majestosas (Por fora. Por dentro elas tinham problemas tão próximos aos das universidades brasileiras).

Ah e o tango… Além do Café Tortoni, lindo e suntuoso, cheio de turistas como yo… Como era lindo ouvir o tango nas ruas! Durante a feira de San Telmo, a orquestra típica El Afronte faz suas apresentações de tango. É lindo, tem bandoneon, violoncelo, piano, vocalista estiloso e tudo mais. Tudo isso na frente da igreja de San Pedro Telmo. Raquel e eu adentramos para uma visita guiada na igreja jesuítica, ao som da orquestra que tocava lá fora. Juro, era lindo. Encantador.

E em outros pontos da feira e em outras ruas também havia tanguistas, uns menos equipados, na verdade. Sabe, houve momentos em que comparamos nossos ambulantes que tocam forró com os tocaderes de tango das ruas de Buenos Aires. Eles ficam lá, com aquele olhar de nostalgia e dor, que só tango proporciona, fazendo música no meio da rua enquanto pedem dinheiro aos passantes… e os brasileiros, tocados por aquela cena, contribuem… ah, como somo empáticos com nossos hermanos argentinos!

E teve o dia em que procuramos um boteco. Sim, boteco com mesinha pra tomar cerveja, sabe? Não, não era um café que procurávamos. Era um boteco. Até bife de soja encontramos fácil, mas o tal do boteco foi difícil. E quando achamos, fomos tratadas a pão de ló e media luna. Éramos “gringas”, nas palavras do garçom rs.

Teve também o dia que quis descobrir o que era um pomelo. Não havia suco de laranja, só pomelos. Foi um custo só achar um pomelo. E foi o professor de espanhol da Raquel que explicou que “pomelo” não é lá palavra de se ficar falando assim. Algum argentino poderia achar que eu queria ver os seios de alguém. Claro, vexames a gente vê por aqui.

Foi também o professor da Raquel que nos explicou o drama imobiliário de Buenos Aires. Antes, ali naquele centro, viviam milhares de famílias, a maioria de baixa ou média renda. Mas ai teve uma reestruturação. Todo mundo sabe que a Argentina já passou bocados de crises, e é claro, a galera precisava arrumar uma grana. Inclusive com turismo. Passaram a cotar os aluguéis e imóveis em dólar (e muitos dólares), e aquela gente toda foi expulsa de lá. Só mora no centro agora quem tem dinheiro! E pra combinar com o visual, acabaram com os mendigos. No centro. Porque a cidade é para todos, então tem que ter opção pra todo mundo. Se quiser mendigar, que vá para o outro lado da cidade! Os únicos pobres que não foram expulsos de suas moradas foram os do Caminito. Mas é claro, aquelas casas exóticas (e distantes do centro) atraem curiosos. E tem tango! Como turista gosta de tango!

Mesmo com todas essas coisas, voltei a Buenos Aires em 2010, só pra desmistificar. Infelizmente, a pobreza não foi erradicada, mas também ninguém conseguiu segurar os pobres nos entornos. Já havia mendigos no centro, junto com os milhares de brasileiros, os alfajores, os shoppings e o tango.

O tango, dessa vez, eu vi no La Viruta, uma casa onde os porteños e alguns turistas ousados vão aprender a bailar. Distante do centro, sem fachada bonita, mas com muita gente. La Viruta é incrível, como toda manifestação autêntica. Manifestação, não, me desculpe. Como a vida do dia a dia. Lá conheci pessoas ótimas, dei risada, pisei no pé de alguém, aprendi a bailar. Despedia-me e voltava no outro dia. Estavam todos lá. Dos amigos que fiz, peguei carona duas vezes. O carro era antigo, como aqueles que vemos por suas ruas. Mas contrastando com o charme dos carros antigos, assustei-me com a trava de segurança. Não me lembro de ter visto algo daquele jeito nem quando eu era criança. Talvez o carro fosse mesmo da época que eu era criança, época que eu nem reparava em sistemas de segurança de automóveis, pobreza e riqueza, exploração de turismo, tangos e pomelos.

Em 2010 eu caminhei diferente por Buenos Aires. É claro que as ruas ainda são lindas, os prédios são lindos, a música é linda, os livros são baratos, as ruas são planas e tudo isso favorece a flanerie… Mas eu não podia deixar de pensar que os antigos moradores daquelas casas tiveram que sair de lá pra eu chegar.

E, ao invés de dois suspiros, dei um suspiro e meio.

 Sandra Oliveira

Ensaio sobre o muro

Diversas funções são atribuídas aos muros. Além de demarcar fronteiras entre o público e o privado, serve também como um lugar de expressões e sentimentos que, podem estar “reprimidos” ou não são expressos nas conversas do cotidiano.  Nos muros pichados podemos observar declarações de amor, palavras de ordem, xenófobas e de marcação de território.

É claro que o ato de pichar é comum na maioria das culturas urbanas nas grandes cidades do mundo. O que difere é a forma, a mensagem, o modo como esse ato é construído. Tudo depende de um contexto que vai além da latinha de spray e da coragem de consumir o fato. Cada lugar possui suas particularidades socioculturais e econômicas (por que não?!).

Diferentemente de São Paulo, onde a pichação tem uma cultura própria com suas gangs, modos de pichar, códigos, etc., ou seja, uma estrutura organizada, em Braga [Portugal] o ato de pichar significa usar o muro para exprimir um desejo, tornar público aquilo que é apenas da pessoa que picha.

 

O uso do grafite, como expressão de “arte” urbana, é muito pouco utilizado ou conhecido na cidade de Braga. Podem-se encontrar algumas obras que poderiam ser classificadas como proto-grafite, mas com os dizeres meramente pessoais, ou seja, são declarações de amor.

 

Outra função interessante dos muros em Braga é de servir como um lugar de preces e orações. Em diversas ruas, A fé é um caminho de mão dupla.geralmente próximas de igrejas católicas, existem muros no qual há uma espécie de santuário de um determinado santo católico, que mede aproximadamente um metro e meio de largura por dois de altura, onde as pessoas acendem velas e oram.

Braga é uma cidade extremamente católica com diversas igrejas em torno da cidade. Faço uma brincadeira (com todo respeito a Deus, ou seja lá o que for) sobre as igrejas de Braga. Se na música de Zeca Afonso – Grândola, Vila Morena – encontramos a frase “Em cada esquina um amigo”, na cidade de Braga encontramos em cada esquina uma igreja. Não bastasse as igrejas, ainda temos os altares nos muros da cidade. Cidade abençoada e super protegida. Diria até que as igrejas da cidade de Braga servem como um grande panóptico, no mesmo sentido usado por Jeremy Bentham e Michel Foucault. Mas essa já é outra história…

Ao andar pelas ruas de Braga, senti que estava sendo vigiado pelos santos católicos diante desses altares murais. Era também uma espécie de aviso sobre as opiniões de conformismo e resistência perante os imigrantes residentes em Portugal, a solidão, a dolência e a melancolia presentes nos corações bracarenses.

G.Stoner

Sobre nosso vizinho: 

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Ciudad Enrejada

Hace ya unos 4 años llegué a vivir a la ciudad de Santiago. Prejuicios y en realidad una visión muy lejana de este lugar, una ciudad en la que crecen las construcciones de la noche a la mañana y en la que personalmente no me agrada la ausencia del mar. Pero no todo es tan malo, el lugar está lleno de vida, por un lado un ajetreo urbano en que siempre hay algo que hacer a nivel laboral y por otra parte una cantidad inmensa de actividades a nivel artístico-cultural de las que se puede disfrutar en el día a día.

Vivo particularmente en el centro de la ciudad, en Avenida Portugal con calle Diagonal Paraguay, en una torre construida a finales de los años 60, aún no comprendo como aún no se ha caído. El sector es amable, a excepto por la posta central frente a mi ventana, de donde van y vienen ambulancias alardeando con sus sirenas ante cualquier emergencia… finalmente uno se acostumbra.

A una cuadra de este lugar hay un parque, el “Parque San Borja”, solía ir a jugar basquetbol en los veranos, ahí mismo las jóvenes se juntan a ensayar coreografías y los amantes de los perros se reúnen en grupos con sus mascotas. A otra cuadra de ese lugar está el “Parque Bustamante”, un poco menos popular que el Borja, pero igualmente amable, también a otras pocas cuadras está el “Parque Forestal”, por otro lado el “Parque Alamgro” y así muchas plazas y sectores de esparcimiento como en toda ciudad.

Era por ahí marzo del 2011 y la revuelta estudiantil revivió, energía renovada de jóvenes ignorados por el gobierno en los años 2007 y 2008. Santiago comenzó a inundar sus calles de gentes semana a semana. Iba por ahí Junio y las calles ya no eran sólo de la escolares y universitarios, los distintos sectores de la comunidad comenzaron a unirse, trabajadores, profesores, abuelos y todo quién deseaba una mejora para la sociedad.

Pasaron los meses y la revuelta no cesó, marchas, manifestaciones de todo tipo, intervenciones artísticas, videoclips, conferencias, trabajo de oficina y el ingenio de todos apostando por un mejor país. Pero no hay propuesta social sin contrapropuesta de gobierno, a medida que los meses avanzaban y el asunto se distendía en las oficinas gubernamentales, las calles comenzaron a teñirse de verde, un verde oscuro y agresivo, las fuerzas especiales de los carabineros de Chile, fueron soltadas como perros de cacería en una búsqueda incesante de su presa. De pronto las vías en los días anteriores y posteriores a cualquier manifestación se prestaron para esconder a los efectivos del gobierno que guardan el “bien y el orden” social, llegando al punto de reprimir a la gente antes de que se reunieran en cualquier punto o alineados como un ejercito que va a la guerra con todo su arsenal antes de que alguna manifestación tuviera lugar.

De los golpes… ni hablar… si sueltas a un perro hambriento es fácil saber las consecuencias…

Entonces seguimos en Santiago, ¿recuerda los parques y plazas de los que hablé antes?, los meses han pasado y los lugares siguen ahí. Y como mala hierba en un lindo jardín, las vallas papales han ido creciendo por todos lados y el enrejado enturbia la vista y denota el miedo de las autoridades. Un paisaje de rejas, como una cárcel al aire libre debe ser sorteada por los transeúntes en muchas vías, locales comerciales y bancos que son protegidos por la autoridad como si ahí se guardase el santo grial.

Recuerdo la primera vez que fui al “Paseo Bulnes” y a pesar de estar lleno de edificios del gobierno, era un lugar ameno… hoy camino y sentarme en el césped es imposible, veo un hombre de verde, veo la cerca, y adelante una bandera gigante flameando junto al palacio de la moneda, como si nos dijesen, “que bella patria tenemos”… claramente no es un lugar en el que

quiero estar y vuelven a mi cabeza las ideas que comenté en mi primer párrafo, con eso vuelve la rabia y la impotencia, incluso la vergüenza de no ser capaz de irme de aquí y pasearme por esta ciudad enrejada.

Ignacio Ruiz Alvarez

sobre nosso vizinho: Nacido en Puerto Montt, al sur de Chile. Director y animador stop motion. Gusta del dibujo, la pintura, los cómics, el cine y por sobre todas las cosas viajar y conocer nuevos lugares. Acostumbra encontrar los libros de Saramago en su camino.

Ainda sobre o Viaduto*

A Nove de Julho, o Joelma e o Cambridge. Os três como testemunhas das minhas noites no 13° da quitinete. Respirando fuligem, transpirando desespero. Eu me esfolando no asfalto. Eu sem ar, no meio da noite. Asma. Eu morrendo de medo. A Nove de Julho esparramada lá embaixo e todas as almas do Joelma à frente. E o Cambridge lá, como um velho aristocrata que veste terno surrado e não aceita a própria decadência. E eu, e eles. E os postes do viaduto. Nenhuma árvore. A mão dele entrelaçada em outra mão, nenhuma árvore e os acordes bem tocados me jogando de um lado para o outro em ônibus e vans abarrotados com violinos, contrabaixos, cellos, clarinetes. Eu nas estradas. Meus amigos nas esquinas. Minha vida em algum ponto entre as BRs. Os gritos histéricos do Grão-Duque de Todas As Coisas Que Brilham, o meu holerite. Foi tudo muito seco, muito amargo. Eu sem  ar. Então decidi deixar o Joelma, o Cambridge e a Nove de Julho. Achei um apartamento na região. Ainda o  viaduto, ainda as luzes. Mas aqui na Bela Vista há árvores, há a padaria e as pessoas sorriem  enquanto sobem e descem ladeiras. Quando abri a janela e dei de cara com as copas das únicas três árvores plantadas ao lado da Nove de Julho, decidi que seria aqui. Na verdade, quando entrei no banheiro e vi um enfeite  de sereia de metal na parede – com as mãos na cintura e expressão desafiadora-, também soube que seria aqui. Não importava a falta de tacos, os azulejos ocos, a fiação problemática ou a fechadura que emperra. Importava ainda menos a imbecilidade do sr. Corretor de Imóveis. Havia árvores, o viaduto e um enfeite de sereia. Queria mais espaço. Pintei as paredes de um vermelho tão forte…que quase morri de asma. Queria uma sala vermelha, com plantas. É um barulho dos infernos, ainda tem fuligem. Mas antes que a Nove de Julho se insinue e mais alguém se estatele lá embaixo,  haverá o viaduto – acredite em mim, você vai se apaixonar pelo viaduto. E há uma floricultura que nunca fecha. Nunca mesmo. De madrugada, se o ar me faltar, saio e compro uma planta. O ar nunca mais faltou e eu já tenho uma jiboia, uma bromélia, duas carnívoras, um cacto e umas violetas.

Eu me cansei de quase tudo nos últimos dois anos. Da minha vida, das pessoas, dos mesmos problemas, dos mesmos lugares, das mesmas histórias.  Só não me cansei do Viaduto.

Desirée Furoni

sobre nossa vizinha: Paulistana, criada na zona norte, vive no centro da cidade e não existe sem café, música, amigos, imagens e histórias. Anda a pé e sonha com ruas sem carros. Não sabe pra onde vai, mas segue em frente.

Antes que a fúria dos prédios em marcha nos alcance, o Viaduto


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*texto publicado originalmente no blog da autora.

Socrática Augusta

Depois do filme, minha epifania cinéfila mudou minha direção. Da Paulista fui parar na baixa Augusta. Sempre. Depois de um filme pelas regiões é inevitável passar pela Augusta.

E essa mudança de direção me levou ao encontro com meu amigo Sócrates, numa doce embriaguez. E como filosofar sem beber antes?

Sócrates e eu travamos um diálogo trivial… Depois daquele filme, eu olhava para céu, para o copo de cerveja, sentia meu ombro que doía. Minha pulsação estava rápida, minha cabeça girava, eu tremia e mal conseguia manter-me presente. Era a cerveja e o Almodovar. Uma história, talvez só um filme…

Eu já não estava lá. Me despedi, marcamos outro dia. Mas Sócrates se manteve no boteco.

Desci mais a Augusta. Caminhei. Senti cheiro de tinta e as letras e desenhos surgiam nas paredes ao lado… Eu estava tonta, Augusta… pensei nas cores: azul, vermelho, branco… Augusta… França? Chile? Augusta… Mas também pensei em mim. Ou não… percebi o quanto me sinto sufocada na V. Prudente e o quanto a embriaguez dessa rua me atrai (ô baixa Augusta!) Comprei roupas coloridas, tomei uma coca-cola, li Pessoa e Iñigo, cuspi no papel palavras ansiosas…

Poeta barata que sou, poeta socrática… Mil perdões, senhorita… bebo pouco, mas o suficiente.

Te encontro depois, Sócrates… na mesma rua. Augusta.

Raquel Foresti

A vida sobre motocicleta

Sempre desconfiei de tudo que anda sobre duas rodas. Motos, bicicletas, carrinhos de feira. Como poderia alguma coisa dessas se equilibrar? E o conforto? Muito melhor e mais seguro o automóvel e o carrinho de supermercado. E assim passei 29 anos de minha vida até conhecer – de verdade e de perto – uma motocicleta.

Andando de moto a gente percebe muito mais o trânsito. Percebe quando as pessoas estão agindo corretamente ou não. Percebe melhor os buracos da rua, as lombadas pouco sinalizadas. Percebe como anda – ou não – a cidade. Mas também é possível observar melhor os detalhes que estão fora da pista. Os prédios ficam mais próximos, as árvores fazem mais sombra, as cores são mais claras. Andar de moto é quase como um pedestre, no sentido de estar mais em contato com a cidade, longe da bolha que se transforma o automóvel.

Motocicleta até parece ser solitária, mas não é. Uma coisa bacana é a irmandade dos motociclistas. Motociclista é tudo camarada um com o outro. Se um cai, sofre um acidente, logo chegam outros, surgidos do meio dos carros apressados em não pegar trânsito com o acidente. E eles perguntam se está tudo certo, se ajudam e seguem seus caminhos.

E mesmo quando está tudo certo eles se reconhecem. Se no meio da estrada encontram outro motociclista [esse que tem moto porque gosta de moto e porque gosta de viajar de moto], sempre dão uma buzinadinha. É como antigamente, quando as pessoas cruzavam alguém pela rua e diziam “bom dia”. Motociclista vive em outro tempo. Sempre dá pra dar um “bom dia”. E se estão parados, melhor ainda. Conversam com o dono da outra moto, perguntam sobre modelo, motor, quilometragens, idade da moto, se andam pela cidade ou só na estrada. Nunca vi um dono de um pálio parar do lado de uma BMW e perguntar sobre o motor. Mas um motociclista, que parece malvado em sua jaqueta de couro e bandana de caveira na cabeça, sempre pode falar com outro motociclista. Em cinco minutos já estão amigos. Depois sobem em suas motos e seguem viagem.

E como é bom viajar de moto! Nunca me imaginei dizendo isso, mas é. Principalmente se for um dia quente, com vento fresco, numa estrada arborizada… descortinar a paisagem com uma moto é quase como fazer um trekking, mas em velocidade e na estrada. Cada curva, cada subida traz um presente. E por que isso é diferente do carro? Porque na moto a gente sente o vento no corpo, é como se fizéssemos parte dessa paisagem que se apresenta. E sim, quando tem chuva também é legal. Ela até pode assustar às vezes, mas chuva não morde. E confesso, é divertido perceber o tempo mudar, correr pra vestir a capa e continuar a viagem. Claro, é pra quem gosta de emoção na vida. E eu gosto.

Acredito que viajar em sua moto com um amigo em outra moto deve ser muito bacana. Cada um está lá na sua, mas estão conectados. Porque motociclista entende o outro. Eles se percebem, eles têm seus códigos. Mas viajar na mesma moto também é legal. Na moto todos participam, não dá pra ler um livro, ouvir música, dormir. Duas pessoas na mesma moto é algo diferente de duas pessoas no mesmo carro. Andar de moto é estar na moto – e para isso não importa se você é só passageiro.

E se tem algo melhor do que isso? É aprender a gostar de moto estando na garupa de alguém que a gente gosta. É sentir o vento, a paisagem, as mudanças do tempo e, quando tudo estiver gostoso, ali na garupa é possível abraçar a pessoa carinhosamente, como se dissesse “também estou aqui”.

E segue a viagem.

Sandra Oliveira

Cine Belas Artes, mon amour

Na quarta-feira quis ter uma máquina do tempo – Delorean! – e voltar aos dias em que o Cine Belas Artes era vivo.  Estava na rua Augusta, no cine Unibanco (que agora talvez seja Itaú), e senti uma dor na boca do estômago…

Como senti falta daquelas seis salas onde passavam filmes que quase não temos o direito de ver… com banheiros onde você mijava com vista para a Consolação… com suas cadeiras absurdamente desconfortáveis na sala Aleijadinho….

Eu queria era comprar a pipoca gordurenta na porta, porque era mais barata… conversar com os vendedores de poesia, sua poesia… folhear os posters caros que estavam a venda… rezar para a moça não perceber que minha carteirinha de estudante estava vencida…

Ah, que eu queria o noitão! Meus medos privados em lugares públicos! Queria meus amigos comigo, lá comigo. Queria estar sozinha para depois voar até a Paulista e pairar sobre uma banca de jornal, numa epifania cinéfila.

Queria voltar, voltar… tudo dói, estou aleijada, distante de um lugar de carinho que foi tomado (TOMADO!) pelo auto da propriedade privada.

Raquel Foresti

Santos, terra de pardais

Na única vez que tinha ido a Santos, eu deveria ter cerca de quatro anos. Lembro-me do desespero que senti quando vi minha mãe saindo de maiô na praia na frente de todos!; de um balão grande do He-Man, da areia dura e da água quase cinza.

A imagem mental da praia deve ter sido construída pela visita a outras praias do litoral paulista, somada ao que a gente vê pela tevê e pela internet. O fato é que Santos nunca esteve na minha lista de lugares a serem visitados, já que eu conhecia lindas praias de mares azulados, tão mais atraentes do que nossa vizinha praia urbana. É como um admirador de pássaros: ele vai se interessar pelas aves de plumagens coloridas, vai querer conhecer aquelas que têm os melhores cantos, que conseguem voar mais alto, bater as asas mais rapidamente… Quem é que vai se interessar pelo pardalzinho que pousa ao lado de casa?

E assim era para mim, como acredito que para a maioria dos paulistanos. Santos é, tão somente, a “praia” que divide o litoral norte do litoral sul de São Paulo. E, pra completar, é totalmente urbana. Nada para se fazer por lá.

Foi quando surgiu a oportunidade de verificar mais de perto. Raquel e eu iríamos conhecer uma amiga que chegou até nós por meio do blog, e visitar outra amiga que estava passando os finais de semana com seu pai, morador de Santos. Já tínhamos iniciado o Cidadeando, e por isso conhecer a cidade (e não apenas a “praia”) seria uma experiência interessante.

Inicialmente, pensamos em ficar em São Vicente, mas chegando lá, resolvemos ir para Santos mesmo. São Vicente, que foi a primeira vila fundada por portugueses na América, parece carregar ainda um sotaque ibérico nas construções e pequenos detalhes. Inclusive pelo seu Martim Afonso vestido de papai noel. Nada mais português rs. Encantava, mas nosso destino era Santos.

Era um sábado de sol forte, e engatamos na caminhada. Se não fosse por ser véspera de um jogo decisivo do time de futebol Santos, e com isso todos os hotéis e pousadas estivessem lotados, talvez tivéssemos corrido pra areia e aproveitado aquele dia tão bonito. Mas como tínhamos que procurar um lugar para dormir, saímos andando pela cidade, e aproveitamos para observar seus antigos prédios, suas padarias azulejadas, o museu do café, o bonde, as cores de santos…

Entre os azuis de SantosSim, mesmo sendo como um pardal, Santos guarda cores por ali. Principalmente o azul, cravado no azulejo português. E as construções não são apenas as do século XIX. Ali tem art déco também, prédios das décadas de 50 a 70 (que nossa amiga Day nos explicou: chamam-se “caixotes”), além de novas construções.

E não só de cor e prédio vive Santos. Quando estávamos decididas a encontrar o pessoal na praia e nos estender no sol, passamos pela Quinze de Novembro, rua do centro da cidade, e nos deparamos com um bar onde começaria uma apresentação de Fado e outras músicas portuguesas. Acho que escrevi Fado com letra maiúscula porque esse estilo me remete a algo de senhoridade, algo quase austero. Uma dor, uma angústia, um gemido quase calado. Deve ser difícil ser português. Ser tão intenso e tão angustiado, mesmo vivendo em uma terra tão linda, de castelos, pequenas construções, terra de um sol que se põe tarde e tem ruas com paralelepípedos. E os portugueses de cá, então?! Para os que vivem em Santos, talvez seja um pouco mais fácil… devem viver com essa saudade engasgada, mas com o sorriso e um quase molejo de brasileiro.

Raquel e eu não resistimos, e ficamos ali no bar, ouvindo o grupo cantar, enquanto falávamos sobre sua viagem a Portugal, e sobre como Santos nos apresentava surpresas.

Depois do fado, fomos enfim para a praia. Mesmo com a areia dura e o mar cinza, ela é alegre. As pessoas não pareciam ter o ar irritado por não estar diante de um mar verde-azulado, pareciam estar sim felizes, como se fossem paulistanos em um bar da enfumaçada Av. Paulista.

E depois das caipirinhas a beira-mar, Day nos levou ao Samba do Ouro Verde. Um lugar pequeno, afastado do mar, afastado do centro, mas deliciosamente santista. Samba animado, formado por amigos unidos há décadas, que atrai gente de todo canto. E nós lá, ora sambando, olhando com admiração para os músicos, ora para os troféus do time de futebol da associação, expostos no alto. Aquele ar de bairro, de amigos da vila, coisa que eu não vivo em São Paulo. Coisa que achei linda ali.

O mais fantástico é que mesmo sem combinar, fomos conhecer a cidade um dia antes de um jogo de decisão no futebol: Santos e Barcelona, final do mundial de clubes. Imagina Brasil em copa do mundo?… Não, talvez mais forte. Porque era como se fosse um país pequeno, do interior, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.

Fomos dormir logo (na casa da Day mesmo), pois o jogo seria logo pela manhã. Acordamos cedo e assistimos parte do jogo. O triste foi ver o time da cidade ser derrotado. E quando saímos à rua, santistas calados numa cidade em preto e branco. Mas era Santos, o céu estava azul e o dia era quente, e a cidade continuou desajeitadamente bela.

Engraçado foi perceber essa cidade tão cheia de belezas e nuances, tão perto de nós (paulistas) e tão desconhecida. Raquel e eu prometemos: voltamos a Santos e vamos descobrir outros de seus segredos. Outros azulejos, outros Fados, outros cantos.

Sandra Oliveira

A cidade me esconde

A saudade que sinto de você é a coisa mais sem cabimento na minha vida. Nós somos um presente que não aconteceu, sem passado ou esperança de futuro, sem perguntas, sem respostas, sem materialidade. Caminhamos por inúmeras ruas, conversando sei lá o que. Sua companhia era agradável, provocadora, pouco inocente, mas distante.

A culpa não foi só sua, me escondi também nas marcas da cidade; olhei para ela evitando você.

Se hoje sinto sua falta é porque você deve ter sentido a minha naquele momento.

 

Raquel Foresti

obs: desculpem-me pelos erros, mas esse texto foi um cuspe.

A cidade, presente de meu pai

Eu estava próxima de completar oito anos. Naquela época, adorava ir à cidade com meu pai. Depois descobri que ali era o centro da cidade, ou talvez ainda, a própria cidade. Mas naquela época isso não importava muito. O legal era caminhar pelas ruas, ver aquele monte de gente e ouvir as histórias de meu pai.

Paramos em frente a um prédio e ele falou:

“Aqui foi o primeiro lugar que eu fui quando cheguei em São Paulo, do Paraná. Seu tio trabalhava aqui, era o prédio da Light, a empresa que fornecia luz. Eu tinha apenas 18 anos, não conhecia nada e vim sozinho. Você também tem que aprender a andar pela cidade. Olhar pra cidade. Conhecer a cidade. E um dia andar sozinha.”

Talvez nem ele, nem eu, soubéssemos que esse seria um presente muito melhor do que o brinquedo que escolhemos naquele dia. Com essa fala, meu pai me ensinou a flanar.

A cidade era grande e eu era pequena ainda. Sem a ajuda de meu pai, eu até poderia cair no vão do metrô. As ruas eram cheias, as pessoas se esbarravam; havia ruas onde os carros entravam, havia ruas que não. A cidade tinha muitos códigos, e eu precisaria decifrá-los para, um dia, caminhar com tanta propriedade como ele.

Eu cresci, mas descobri que aquilo não seria possível. Mas a cidade continuou despertando meu interesse. Foi meu objeto de estudo na graduação, de indagações, de questionamentos. Foi cenário de belezas e fotografias. Foi o motivo para criar um blog. Mas percebi que, mesmo com tudo isso, não é possível dominá-la. A cidade se transforma, cresce, transmuta, retorna. Ela se mostra como uma grande obra orgânica. Ou talvez como a Gesamtkunstwerk, a obra de arte total, da qual falava Wagner.

Às vezes me sinto cosmopolita.

Às vezes me sinto infinitamente provinciana, nessa grande cidade pequena.

E com sua grandiosidade e idiossincrasia, às vezes apenas me calo em contemplação diante do sublime.

Sandra Oliveira