Nós e a cidade

Nós e a cidade, parte I

Não sei dizer qual era a qualidade da nossa amizade antes de 2003, 2004, 2005… nunca vou me lembrar exatamente do ano em que tudo mudou.

Estudávamos juntas, ficamos próximas convivendo nas plenárias absurdas e fantástica daquela greve de 2002. Era uma amizade comum, regada a amenidades, risadas e raras confissões.

Até que em 2003, 2004 ou 2005 (vá saber!)resolvemos ir a Buenos Aires. Passagens baratas, cambio favorável e os preços – naquele tempo – ainda não eram tão turísticos, a invasão brasileira estava por começar. Eu iria ficar por lá quatro semanas, ela três. Nossos objetivos por lá eram distintos, mas todas as tardes e nos finais de semanas nos encontrávamos e bandeávamos naquelas quadras quadradinhas e regulares, tão distintas de São Paulo.

Mas há algo em Buenos Aires… Não conseguíamos ser amenas, rir a toa e fazer parcas confissões. A cidade era uma confissão. Viva, povo forte, paisagem brutal, humana. Nos tornamos cúmplices daquele lugar, nos tornamos cúmplices uma da outra.

Buenos Aires era nossa, naquele fevereiro (ou seria março?) nos deixamos ‘cambiar’ por ela, nela.

Nós e a cidade, parte II

Conferência de Arquitetura Jesuítica, Pateo do Collégio em… 2009?  Ops… Algumas discussões excelentes entre os debatedores, um público não tão excelente se resignava ao seu silêncio.

As amigas lá estavam, San e eu, saboreando tudo aquilo. Os assuntos das mesas rendiam papos pela semana nas nossas idas e vindas da FFLCH, em emails extensos e alegres.

Esta conferência rendia um certificado de participação e, como boas nerds, ansiávamos por este papelzinho que rechearia nosso pobre currículo de historiadoras. Mas quem organizou a conferência pregou uma peça, o certificado só seria dado num sábado à tarde àqueles que participassem de uma oficina de desenho. Fizemos bico, não desenhávamos nada provavelmente desde a 8ª série! Ah, mas a nerdisse imperou… nos resignamos e lá fomos nós para aquela oficina.

E qual não foi a revolução? Eram apenas papel, carvão e a cidade. Era um grupo de cinco pessoas olhando para um ângulo aleatório, tão pouco fotográfico, imprimindo um traço particular… por vezes literal, por vezes torto, muitas vezes desproporcional… como a cidade é.

Éramos nós impressos naquele papel, nós e os nós da cidade.

Naquela tarde algo estilhaçou, o papel do certificado perdeu a importância, as escamas dos olhos caíram. Vimos a cidade, e a cidade nos viu.

Raquel Foresti