O Vendedor de Guarda-Chuvas

Nunca tinha visto a violência com meus próprios olhos, apenas tinha ouvido falar dela. Eu a combatia mesmo sem ter tido uma prova empírica de sua existência. Hoje não farei poesia de minhas palavras, pois não consigo conceber maneiras de tornar belo algo que é horrível na medida em que também é corriqueiramente banal. Tomei um ônibus em direção à estação Tatuapé aqui em São Paulo, hoje é um dia que chove fino e frio, além da temperatura gelada que faz lá fora. É normal, aqui na cidade, que muitas pessoas passem horas sob lugares fechados completamente esquecidas do tempo; milhões de paulistas saem sem seus guarda-chuvas, trabalham e descobrem em plena hora do almoço que o céu está a desabar sobre suas cabeças. Vivemos na cidade das mil oportunidades, habitada por milhões de cidadãos oportunistas. Achamos mil e uma maneiras de ganhar o tal “suado dinheirinho”: enquanto alguns o fazem jogando na bolsa de valores ou especulando no mercado imobiliário, alguns vendem trufa, pão-de-mel, balinha, chiclete, balão, carregador de celular e, finalmente, guarda-chuvas. Nunca precisei diretamente dos royalties da empresas multimilionárias, mas os deuses sabem do quanto já precisei de um guarda-chuvinha descartável para atravessar a passarela, ou para abrigar uma pessoa querida numa tarde torrencial. Talvez seja por isso que eu não dê a mínima para qualquer engravatado com a bunda confortavelmente sentada no banco de couro de um helicóptero, e prefira voltar minha atenção aos pobres vendedores de guarda-chuvas no Tatuapé, Belém ou qualquer outra estação. Creio que isto acabará por fazer recair o adjetivo “tendencioso” neste relato, e a isso respondo: Pro inferno com hipocrisia! Já passou da hora de pararmos de acreditar nessa falsa imparcialidade. Todos já nos posicionamos ideologicamente no mero ato de existir como seres humanos. Ficar em cima do muro é anuir covardemente com o status quo das coisas do mundo. E hoje eu odiei o status quo como nunca o odiei em toda minha vida, pois hoje vi a violência em sua forma pura e simples. Peço desculpas pela necessária digressão e volto ao meu ponto de partida: a estação de metrô e o vendedor de guarda-chuva. Quando saí do ônibus, caminhei em direção às escadas rolantes para pegar o metrô, e lá estava o vendedor, na calçada, com duas caixas de guarda-chuvas, ofertando-as aos passantes. Parei entre a escada e o início da fila de embarque de um ônibus qualquer para responder uma mensagem de celular, não percebi que estava atrapalhando a passagem, perdido que sou, até que um senhor de azul me pediu passagem, apressado. O pedido, o esbarrão e a topada foram tão “educados” que eu, perplexo, já ia erguer a voz para lhe dizer um palavrão, mas quando levantei os olhos vi que o senhor e mais outro colega seu vestido de azul cercavam o vendedor. Eles eram seguranças, e puxavam seus cacetetes investindo contra ele, eles surraram suas pernas e cabeça, xingaram-no, roubaram suas caixas de guarda-chuvas, terminaram seu ritual insano carregando as caixas escada rolante acima. Eu ouvi um dos seguranças dizendo enquanto subia: “vagabundo, filho da puta”. Pergunto-me se um homem que estava apenas tentando prover o sustento para sua família pode ser chamado assim. Pergunto indignado também quem foi que deu o direito àqueles homens de surrar o vendedor como se ele fosse um animal preparado para o abate. Igualdade? Liberdade? Mentiras e fetiches de uma sociedade que glorifica empresas e empresários assassinos de índios, políticos que vomitam jargões de uma direita estúpida e aparelhos paramilitares que são acusadores e executores de pobres. Essa é a sociedade que se faz viva e presente na ideologia do golpe, quer ele seja de Estado, ou contra a dignidade das pessoas, ou contra as minorias, ou na sua folha de pagamento, ou até mesmo na cabeça de um pobre vendedor de guarda-chuva. O pior, no entanto, não foi o ato insano dos seguranças, essa violência física absurda. Quando os guardas foram embora (rápidos, bem-treinados e eficientes, não consegui gravar o acontecido), dirigi-me ao vendedor ajudá-lo a se levantar e perguntei: “O senhor está bem?”, ele se levantou, sem jeito, e disse, cortando-me o coração, pois aquela sim era a pior das violências: “Estou bem sim, moço, é normal isso” Sim, assustadoramente, “É normal isso”

Rodrigo Bravo

Nosso vizinho já publicou aqui neste blog os textos Hipopótamos, Jardim Alzira Mesquita e Piano.

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