Pseudo-vida sobre bicicletas

Acabo de receber o convite para escrever sobre o ocorrido na manhã de ontem (02/03/12). A ciclista que foi atropelada e morta na Avenida Paulista, em São Paulo. Me disseram “você que é ciclista, não quer escrever pro Cidadeando?” Neste exato momento, 15 anos da minha vida passaram pela minha memória de ciclista. Ou melhor, vou me intitular pseudo-ciclista, porque de fato, nesses anos todos, eu nunca consegui ser e nem me sentir ciclista nesta cidade. Não há espaço para pedalar tranquilamente por aqui e pedalar não combina com medo.

Desde criança aprendi a associar bicicleta à diversão, liberdade. Quando  adolescente me vi apaixonada por ela e comecei a experimentar a possibilidade de torná-la meio de transporte. As distâncias eram sempre muito longas, íngremes, cheias de buracos. Mas isso de fato não me intimidava. O problema maior eram os veículos motorizados.

Sempre fui daquelas destemidas em cima da bike, que encarou a rua como minha, e sua e nossa. Já discuti muito com motorista de carro, xinguei taxista, motorista de ônibus, quase apanhei de um pedestre num momento em que só a calçada me salvaria de um possível atropelamento. A bicicleta não cabe na faixa de carros, tampouco na de motos, – na de ônibus? – nem na sarjeta, e na calçada, os pedestres te olham feio e, de fato, me sinto mal em pedalar pela calçada.

A primeira coisa que senti ontem quando vi a notícia foi uma náusea seguida de um engasgo. “Podia ter sido eu, minha melhor amiga, meus tantos amigos que pedalam nas ruas.” Depois, lendo o que muitos deles escreveram sobre o assunto, vi que o mesmo sentimento se alastrava.

Nos últimos anos houve um aumento expressivo de ciclistas pelas ruas da cidade. A ação do metrô em permitir o transporte em determinados horários unida às atitudes das seguradoras interessadas na responsabilidade social de sua empresa, talvez tenha sido o que mais deu visibilidade ao ciclista. Alguns shoppings também começaram a acolher a bicicleta, como se pedalar fosse a última moda. Bom, pensamos, antes isso do que nada. Aumentaram também os coletivos de gente que luta por um direito, que na verdade é – ou deveria ser – básico de todo cidadão: usar a cidade.

Me pergunto se há um culpado para o atropelamento da moça. Não sei se dá para apontar um motorista de ônibus como culpado. As pessoas têm usado o espaço da cidade como verdadeira arena. Estão aí sempre dispostas a se degladiarem nas ruas, cada uma brigando para garantir o seu espaço, o seu tempo, o seu dinheiro, o seu bem-estar, a sua segurança. Sentem-se ameaçadas com o mais ínfimo movimento diferente que lhe aparece pela frente ou pelo retrovisor. E no momento de tensão social lá vem a polícia aparelhada para reprimir a manifestação e tentar manter a ordem, a ordem do caos do cada um por si.

Tentando pensar quais seriam o problema e a solução. Pensei em impunidade política, social e por aí vai. Mas acho que a impunidade é humana. É o comodismo, é deixar tudo como está que é melhor. Precariedade cultural. A cultura do ceder o espaço, ceder a vez, desacelerar está ainda muito longe de se instalar. A cultura é instrumento humano e não vai mudar por si só. Não vai desacelerar, não vai pisar no freio, não vai deixar de pensar, sozinha, que “não posso perder nunca pro cara do lado, tenho sempre que sair e passar na frente dele.”

Estamos pagando muito caro com nossas vidas tamanha impunidade. Que o debate ao redor do assunto cresça e ganhemos as ruas sobre nossas bicicletas todos os dias!

Fernanda Donega

Sobre nossa vizinha: (fut)boleira, aspirante a ciclista urbana, geógrafa e bancária

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