A cidade, presente de meu pai

Eu estava próxima de completar oito anos. Naquela época, adorava ir à cidade com meu pai. Depois descobri que ali era o centro da cidade, ou talvez ainda, a própria cidade. Mas naquela época isso não importava muito. O legal era caminhar pelas ruas, ver aquele monte de gente e ouvir as histórias de meu pai.

Paramos em frente a um prédio e ele falou:

“Aqui foi o primeiro lugar que eu fui quando cheguei em São Paulo, do Paraná. Seu tio trabalhava aqui, era o prédio da Light, a empresa que fornecia luz. Eu tinha apenas 18 anos, não conhecia nada e vim sozinho. Você também tem que aprender a andar pela cidade. Olhar pra cidade. Conhecer a cidade. E um dia andar sozinha.”

Talvez nem ele, nem eu, soubéssemos que esse seria um presente muito melhor do que o brinquedo que escolhemos naquele dia. Com essa fala, meu pai me ensinou a flanar.

A cidade era grande e eu era pequena ainda. Sem a ajuda de meu pai, eu até poderia cair no vão do metrô. As ruas eram cheias, as pessoas se esbarravam; havia ruas onde os carros entravam, havia ruas que não. A cidade tinha muitos códigos, e eu precisaria decifrá-los para, um dia, caminhar com tanta propriedade como ele.

Eu cresci, mas descobri que aquilo não seria possível. Mas a cidade continuou despertando meu interesse. Foi meu objeto de estudo na graduação, de indagações, de questionamentos. Foi cenário de belezas e fotografias. Foi o motivo para criar um blog. Mas percebi que, mesmo com tudo isso, não é possível dominá-la. A cidade se transforma, cresce, transmuta, retorna. Ela se mostra como uma grande obra orgânica. Ou talvez como a Gesamtkunstwerk, a obra de arte total, da qual falava Wagner.

Às vezes me sinto cosmopolita.

Às vezes me sinto infinitamente provinciana, nessa grande cidade pequena.

E com sua grandiosidade e idiossincrasia, às vezes apenas me calo em contemplação diante do sublime.

Sandra Oliveira

Sobre flâneurs e sonhadores

Talvez seja romântico demais falar sobre encontros e desencontros em um blog que discute a cidade. Mas se pensarmos no quanto nos restringimos a um espaço de segurança, por outro lado nos restam as múltiplas possibilidades de ligação que uma grande cidade oferece, mas dispensamos todos os dias.

Meses atrás, eu estava no final de uma viagem em uma pequena cidade na Chapada Diamantina, Bahia, trocando emails com pessoas que tinha conhecido por lá. Alguns se tornariam grandes amigos, outros, apenas a lembrança de uma boa viagem. Conversando com uma das moças, e depois de perceber coincidências, descobrimos que temos uma amiga em comum. E mais, ela estava no mesmo lugar de minha última festa de aniversário. E estão lá as imagens para provar, até então, uma estranha em segundo plano na fotografia.

E comecei a ver tantos outros estranhos… que passaram e eu não soube quem eram.

Não sou apenas eu que caio nesses devaneios. Baudelaire, que passeava por Paris do século XIX com seu cabelo verde e com uma tartaruga presa a uma coleira, também pensava nisso. Fora o exotismo provocador, sua intenção era ser vagaroso para poder ver a cidade. E talvez para ser visto também. Ora, a calçada, uma invenção do barroco que deveria servir para o passeio do pedestre, cada vez mais se torna apenas um reflexo da movimentada rua de carros, e as pessoas passam apressadas sem olhar a cidade – e sem se olhar.

Baudelaire olhava. Viu até uma passante por quem, em fração de segundos, se apaixonou. Mas ela não estava interessada nesses devaneios. E sumiu na multidão. E ele disse “Ó você que eu teria amado, ó você que bem sabia!” [“Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!” BAUDELAIRE, Charles. “À une passante”. Les fleurs du mal, 1857].

Não tão distante no tempo e no espaço quanto o parisiense dezenovista Baudelaire, na década de 1960 os paulistas do Originais do Samba também cantaram um amor perdido na multidão. Porque mesmo na nossa grande cidade ainda há flâneurs e sonhadores.

Do lado direito da Rua Direita
(Os Originais do Samba) 

Do lado direito da Rua Direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi
mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo
num movimento imenso na rua eu lhe perdi

Cada menina que passava
para o seu rosto eu olhava
e me enganava pensando que fosse você
e na Rua Direita eu voltarei pra lhe ver

Sandra Oliveira