Carta aos biciclofóbicos

Hoje foi, talvez, a primeira vez na minha vida que eu achei que uma motorista iria me matar de propósito no trânsito. Em plena Rua dos Pinheiros, uma mulher com um bebê segurado no colo por uma babá no banco de trás (o uniforme branco na mulher negra dava a entender que ela era funcionária da motorista ) começou a me insultar cada vez que passava por mim. Pois, sim, eu a ultrapassava em vários momentos e ela me alcançava novamente para me insultar com frases do tipo “sai da rua”, “você vai morrer”, “sai da minha frente”…

Incrivelmente, eu consegui juntar muita calma e maturidade e parar no semáforo ao lado dela para conversar numa boa. Ela argumentou que eu estava a atrapalhando. Eu retruquei que estava no meu direito e que ela deveria me ultrapassar a uma distância segura (pois em todas as ultrapassagens ela fazia questão de me dar uma mega fina). Ela simplesmente concluiu em tom sarcástico: “ohhhh minha linda, eu não vou atrapalhar os outros carros só para te ultrapassar com segurança!”

Só disse para ela tomar cuidado, pois atitudes como aquela iria fazer um ciclista detestá-la e ela poderia perder um retrovisor ou um para-brisa por causa da ignorância dela. Ela riu. Eu segui em frente.

Poucos segundos bastaram não só para ela me alcançar, mas para jogar de vez o carro em cima de mim, ao ponto em que ela estava prestes a me esmagar entre o carro dela e um carro estacionado na rua. Naquela hora pensei “morri!”

Um pedestre na esquina gritou esbravejando contra a mulher, ela o xingou. Mas no mesmo instante chegaram dois rapazes de moto. Foi uma coisa meio como filme de super heróis, quando a mocinha está em apuros e aparece aquele super herói para salvá-la.

Os rapazes gritaram com ela, um esbravejava em um tom assustador: “Qual o seu problema? Você é louca? Vai matar a ciclista?”. Ela se assustou e voltou para o seu lugar. Eu segui pedalando tremendo da cabeça aos pés.

O motociclista, não satisfeito por ter me salvado, continuou conduzindo a moto lentamente ao lado da motorista, xingando-a e dizendo que não sairia de perto da mulher enquanto ela não se afastasse de perto de mim… Ela estremeceu e virou na esquina seguinte para se livrar daquela situação que ela mesma se colocou.

Agradeci no semáforo ao motociclista. Ele disse que não precisava agradecer, pois as pessoas estão doentes nesse trânsito e precisamos proteger uns aos outros.

Hoje, essa motorista provavelmente aprendeu que já vivemos em uma cidade e em uma sociedade onde algumas agressões contra os ciclistas já não são mais aceitas. Fiquei feliz em perceber que cada dia mais as pessoas enxergam os ciclistas paulistanos também como sujeitos de direitos.

Portanto, atenção, biciclofóbicos. A cidade não está mais disposta a tolerar as suas agressões.

Espero que o bebê do banco de trás do carro concorde comigo!

Evelyn Araripe

Sobre nossa vizinha: Evelyn Araripe é educomunicadora, jornalista, viajante, mochileira, dona de casa, animadora de torcida e costuma fazer tudo isso e mais um pouco a bordo de uma bicicleta.

Anúncios

Pseudo-vida sobre bicicletas

Acabo de receber o convite para escrever sobre o ocorrido na manhã de ontem (02/03/12). A ciclista que foi atropelada e morta na Avenida Paulista, em São Paulo. Me disseram “você que é ciclista, não quer escrever pro Cidadeando?” Neste exato momento, 15 anos da minha vida passaram pela minha memória de ciclista. Ou melhor, vou me intitular pseudo-ciclista, porque de fato, nesses anos todos, eu nunca consegui ser e nem me sentir ciclista nesta cidade. Não há espaço para pedalar tranquilamente por aqui e pedalar não combina com medo.

Desde criança aprendi a associar bicicleta à diversão, liberdade. Quando  adolescente me vi apaixonada por ela e comecei a experimentar a possibilidade de torná-la meio de transporte. As distâncias eram sempre muito longas, íngremes, cheias de buracos. Mas isso de fato não me intimidava. O problema maior eram os veículos motorizados.

Sempre fui daquelas destemidas em cima da bike, que encarou a rua como minha, e sua e nossa. Já discuti muito com motorista de carro, xinguei taxista, motorista de ônibus, quase apanhei de um pedestre num momento em que só a calçada me salvaria de um possível atropelamento. A bicicleta não cabe na faixa de carros, tampouco na de motos, – na de ônibus? – nem na sarjeta, e na calçada, os pedestres te olham feio e, de fato, me sinto mal em pedalar pela calçada.

A primeira coisa que senti ontem quando vi a notícia foi uma náusea seguida de um engasgo. “Podia ter sido eu, minha melhor amiga, meus tantos amigos que pedalam nas ruas.” Depois, lendo o que muitos deles escreveram sobre o assunto, vi que o mesmo sentimento se alastrava.

Nos últimos anos houve um aumento expressivo de ciclistas pelas ruas da cidade. A ação do metrô em permitir o transporte em determinados horários unida às atitudes das seguradoras interessadas na responsabilidade social de sua empresa, talvez tenha sido o que mais deu visibilidade ao ciclista. Alguns shoppings também começaram a acolher a bicicleta, como se pedalar fosse a última moda. Bom, pensamos, antes isso do que nada. Aumentaram também os coletivos de gente que luta por um direito, que na verdade é – ou deveria ser – básico de todo cidadão: usar a cidade.

Me pergunto se há um culpado para o atropelamento da moça. Não sei se dá para apontar um motorista de ônibus como culpado. As pessoas têm usado o espaço da cidade como verdadeira arena. Estão aí sempre dispostas a se degladiarem nas ruas, cada uma brigando para garantir o seu espaço, o seu tempo, o seu dinheiro, o seu bem-estar, a sua segurança. Sentem-se ameaçadas com o mais ínfimo movimento diferente que lhe aparece pela frente ou pelo retrovisor. E no momento de tensão social lá vem a polícia aparelhada para reprimir a manifestação e tentar manter a ordem, a ordem do caos do cada um por si.

Tentando pensar quais seriam o problema e a solução. Pensei em impunidade política, social e por aí vai. Mas acho que a impunidade é humana. É o comodismo, é deixar tudo como está que é melhor. Precariedade cultural. A cultura do ceder o espaço, ceder a vez, desacelerar está ainda muito longe de se instalar. A cultura é instrumento humano e não vai mudar por si só. Não vai desacelerar, não vai pisar no freio, não vai deixar de pensar, sozinha, que “não posso perder nunca pro cara do lado, tenho sempre que sair e passar na frente dele.”

Estamos pagando muito caro com nossas vidas tamanha impunidade. Que o debate ao redor do assunto cresça e ganhemos as ruas sobre nossas bicicletas todos os dias!

Fernanda Donega

Sobre nossa vizinha: (fut)boleira, aspirante a ciclista urbana, geógrafa e bancária