O dia em que eu não quis mais ver cidades

Sou uma urbanoide. Desse tipo que adora forma de cidade, cor de cidade, cheiro de cidade, som de cidade, trânsito de cidade. Chega a ser provinciano, de tanto que gosto. E não é só a minha cidade que me atrai. As outras, grandes, pequenas, sejam quais forem – até as vilinhas têm seu charme. O que me atrai é a forma de urbe. Não que eu só goste de cidade. Mas há algo ai que me fascina. Talvez seja essa profusão de informações, mas não sei dizer ao certo.

Daquela vez eu viajaria para uma não-cidade, uma reserva ambiental. Seria a primeira vez que passaria tanto tempo (quatro dias) totalmente desconectada do espaço urbano. E assim foi.

Era uma trilha de quatro dias e 60 km pelo Vale do Pati, na Chapada Diamantina, caminhando com apenas mais cinco pessoas entre chapadões, montanhas, rios, árvores, pássaros e outros animais que nos observavam. Além do que era palpável, havia a luz da lua, o cheiro da noite, o som das gotas de orvalho, um ar que não se explica. As visões, todas as visões. A cada caminhada, uma nova paisagem se descortinava. E a cada hora, a luz do sol nos presenteava com um colorido diferente.

Às vezes eu olhava para cima e me lembrava daquele seriado, A Muralha. Noutras, era para baixo que eu olhava, e via a terra se abrir, coberta por um tapete verde que parecia não ter fim. Esplendorosa, encantadora, infinitamente robusta. A montanha era uma grande senhora, e se deveria pedir permissão para adentrá-la. Ser sua amiga, sua devota, ou ser devorada por ela. Parecia uma esfinge.

No último dia, andamos cerca de 15 quilômetros. Depois da neblina, choveu enquanto subíamos por um caminho íngreme de pedras. Tive vontade de não continuar e em alguns momentos parecia ouvir a montanha dizer para eu não ir. Mas prosseguimos. Ainda havia paisagens lindas, caminhos rochosos, pequenas árvores, flores em arranjos que lembravam jardins.

Faltavam apenas cerca de dois quilômetros para o fim da trilha, quando ouvi o som da cidade. Meus ouvidos, que haviam se acostumado com o som da fala dos cinco amigos e às vezes de nosso silêncio, deixando apenas o da floresta, assustaram-se com o som da cidade. Música. Vozes. Gritos. Sim, só poderiam ser gritos, por ser tão alto o som. Era uma cidade de cerca de 15 mil habitantes. Mas era demais para mim. Quis voltar para o Vale do Pati, fazer a trilha de volta, na diagonal, em ziguezague, em círculos, em todas as combinações possíveis. Queria, tão somente, de volta o Pati.

Naquele dia, eu não quis mais ver cidades.

Sandra Oliveira


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9 comentários sobre “O dia em que eu não quis mais ver cidades

  1. Raquel

    Complicado eu comentar, estou mergulhada em Santiago.

    Mas minha experiencia de nao-cidade foi na ilha do mel, por opcao fiquei entre os locais e me desconectei de tudo o que eh urbano.

    Vou voltar aqui, registro inicial.

  2. Eita, os textos de vocês estão cada vez melhor. Não comentei o último da Raquel, porque fiquei pensando nele por alguns dias, sozinha mesmo.

    San, esse seu texto é cheio de sensações e referências precisas sobre a sua viagem até a Chapada. Consegui imaginar você fazendo essa trilha. Além disso, deu para adentrar nos “mistérios” da floresta. Aliás, “decifra-me ou te devoro” é uma ótima metáfora para tal caminho e atmosfera desconhecidos. Esse seu texto poderia ser uma crônica, que poderia ser um conto, tamanha a verdade que se passa nele, mas que parece ter sido fruto de pura criação imaginativa. Quanto a ser urbanóide ou não, acho que eu viveria um dilema eterno, sobre viver na cidade ou longe de suas parafernálias, sempre tendendo aos segredos escondidos perto da natureza, e com o risco de sofrer um pouco quando precisasse tomar ducha quente, hehe.
    Valeu, San, por dividir essa experiência com os seus leitores! Adorei 😀

    1. Hehe que bom q gostou, Day. Mesmo sendo a tal urbanoide, eu já me desafiava aos mistérios da natureza, mas não por muito tempo rsrs É ai que entra uma das partes do ser provinciano… é aquele que se sente tão amplo e aberto, que até faz uma trilha no final de semana ou caminhadas no parque aos domingos rsrsrs
      Agora… render-se de fato a esses mistérios… e sim, abrir mão do chuveiro quente e tudo mais… Ali naquele cenário, você não imagina como é delicioso. Vale muito a experiência. Aventure-se por lá qdo estiver pros lados de Salvador! Tenho certeza que você vai amar!!

  3. Raquel

    non sei mulher, tem uma parte que eh turistada, que eh a ilha de brasilira, e outra que estao os locais, que eh encantada. EM nenhuma das duas ilhas tem tipo cimento, sei lah…. tem mercadinho, tem pousada…. mas vc consegue se afastar, apesar de ser pequeno, e se ver sozinho numa praia… bem, sozinho com um monte de siri. Mas estou falando que estou na vibe do CHile e nos lugares que estou eh urbe pura…. qd li a primeira vez o seu texto surtei e deixei para comentar depois… mas agora estou incapacitada hehe

  4. Pingback: O dia em que quis ver cidades | cidadeando

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