O dia em que quis ver cidades

Escolhi passar o ano novo no Monte Roraima, pois 2014 deveria ser um ano totalmente diferente do anterior. Muitas coisas seriam iniciadas e sentia que precisava de uma boa dose de consciência para ter sucesso nos novos planos e não-planos que surgiam, e não cair em fantasias ou expectativas irreais. Queria ter respostas e queria também a beleza que encontrei na Chapada Diamantina, um lugar mágico.

Havia lido vários relatos sobre o encantamento do Roraima, e de como as pessoas se sentiam transformadas ou encontravam respostas às suas questões interiores. Mas o que descobri é que o Monte Roraima é um lugar para superar seus limites, e cada um sabe qual é o seu.

Seriam nove dias de trekking. Para chegar à base da montanha é preciso dois dias de caminhada, e mais um para chegar ao topo. A caminhada pela savana venezuelana foi um pouco monótona, porque quase não avistava paisagens diferentes, e quando chegamos próximo da base, uma chuva terrível caiu, e nem conseguíamos ver a montanha, coberta pelas nuvens. Mas na manhã seguinte o céu abriu e pudemos subir pela encosta do tepui com mais tranquilidade. E lá em cima um mundo de pedras e pedras e pedras, criado há dois bilhões de anos e intocado até 1884.

Claro que houve momentos fantásticos. Atravessar o Passo das Lágrimas foi o mais maravilhoso. Não há fotos que expressem o que vi ali. Passar por debaixo da fina cachoeira na subida de cascalhos escorregadios, enquanto olhava pra cima e via o céu, a montanha, os raios do sol descendo com as gotas. Era como se Makunaima estivesse autorizando minha entrada no topo. Simplesmente lindo, algo deslumbrante que me fazia ter vontade de ficar ali parada. Via do outro lado os companheiros ainda iniciando a travessia e a savana se estendendo até onde os olhos podem alcançar. Ainda teve outros momentos especiais: o pôr do sol visto do paredão do lado venezuelano, com aquele céu cheio de azuis, vermelhos, laranjas e o branco das nuvens. Já no paredão do lado brasileiro, vi a floresta amazônica que parecia infinita abraçando as pedras da montanha.

Crédito: David Tsai
Na beirada do paredão do lado brasileiro. Crédito: David Tsai

Mas havia as partes difíceis. Sabia que elas existiriam, mas nem imaginava a que ponto. Não me lembro de um dia que acordei com a sensação de ter dormido tranquilamente. Embora a agência brasileira seja bem mais organizada do que as venezuelanas, sofri com a comida, e não só por ser vegetariana – os que comem carne também sofreram, inclusive com a saúde. O banheiro, nem falo. A parte do banho foi até boa, porque eu, que nunca gostei de água fria, tomei meus poucos banhos com muita satisfação nos laguinhos que havia por lá.

Mas ai começou a chuva no topo. Não chuva exatamente, mas era como se caminhássemos em meio às nuvens com vento e umidade, onde simplesmente não podíamos ver nada. Andar seis quilômetros para se chegar ao Lago Gladys e não ver absolutamente nada foi muito frustrante. (Mas um índio carregador de mochilas me disse que o lago está lá e foi o que mais lhe encantou.)

As caminhadas paravam às duas ou três da tarde por causa do mau tempo, e às seis já era noite. Nos dias de chuva, obviamente sem estrelas. Dormíamos cedo, e cada vez mais a caverna onde acampávamos enchia com as pessoas que queriam passar o ano novo no topo.

Lembro do meu desespero no sétimo dia (segundo sem banho), chovendo, meias secas acabando, minha barraca montada na lama (agradeço a gentileza dos meninos que trocaram ^^ ), o acampamento cheio, a comida ruim e a promessa de ver (não ver) mais uma vez as coisas no meio da neblina/chuva no dia seguinte. Enquanto isso eu sonhava com um lindo ano novo nas Illas Margaritas, no Caribe Venezuelano.

Metade do grupo se dispôs a descer o Monte com um dia de antecedência. Depois de negociações, no dia seguinte o grupo se dividiu e partimos. Estávamos em sete mais guias e carregadores. O Passo das Lágrimas já não estava mais tão lindo, mas fui firme com o claro objetivo de chegar rapidamente à base. Cada um do grupo que chegava ali era recebido com a musiquinha do Ayrton Senna que cantávamos, e o sorriso da satisfação era claro. Além da felicidade de ver o céu sequinho. Mais quilômetros foram necessários para se chegar ao acampamento final. Antes disso, paramos no rio Tek e ali tomei um dos melhores banhos de minha vida. Todos felizes, rindo, bem humorados, até compartilhei meu sabonete com alegria rs. Aquela água corrente, quase nem tão fria, o sol.

Próximo ao rio Tek montamos o acampamento em um pequeno povoado e, vejam só – havia até cerveja por lá! Bebemos um vinho que ganhamos de presente e comemos nossa última e saborosa refeição. O céu estava estrelado, a noite (quase) quente e havia um grupo razoável de pessoas por ali. No meio de outros turistas, argentinos, americanos, neozelandeses, aprendemos canções da tribo de Balbina, uma guia indígena. Dançamos em roda, felizes. Os homens apresentaram um grito maori, e as mulheres tentamos cantar e dançar Macarena. Era ridículo e ao mesmo tempo fantástico, por ser extasiante e inusitado. Como estávamos cansados, comemoramos o ano novo às 21:30, que seriam 24:00 em São Paulo. Alguém puxou “adeus ano velho” e todos dançaram como se fosse uma canção indígena.

O dia amanheceu claro e quente, e depois de comer uma deliciosa tapioca feita pelo guia Humberto, seguimos à comunidade de Paraitepuy. Olhávamos para trás e víamos o Monte Roraima coberto em nuvens.

Embora não tenha passado o ano novo no lugar mágico que havia escolhido, foi incrivelmente sensacional. E mesmo com todos os perrengues, tive muitos aprendizados. Ou pelo menos aprendi a valorizar muitas coisas simples. Não imaginava que as transformações se davam assim em um nível tão comezinho. Mas não era o que eu queria, mais realidade em minha vida?

E assim começou 2014, simplesmente fantástico.

 Sandra Oliveira

A galera no Ano Novo
A galera no Ano Novo
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2 comentários sobre “O dia em que quis ver cidades

  1. Andrea Beatriz

    Ler o texto q vc escreveu foi como voltar ao Monte Roraima. Superei medos, como o de viajar de avião, acredita? Não sei bem porque, sei apenas q já não sofro mais este limite. E aquele réveillon foi único!

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