Mais uma vitória para a anti-cidade

O estado, ao promover a barbárie que foi o massacre contra a comunidade do Pinheirinho, proporcionou mais uma vitória a favor da anti-cidade, esse espaço urbano anti-democrático, onde os pobres são apenas permitidos em seus subempregos e no desconfortável transporte público, tolerados apenas enquanto estiverem servindo os mais ricos. Onde o viciado (pobre) é tratado como caso de polícia e não de saúde pública. Onde aquele que quer falar não tem vez e recebe apenas spray de pimenta, gás lacrimogênio e balas de borracha. A anti-cidade não trata seus cidadão como iguais. Ou até trata os seus com igualdade. O problema é que nem todos são cidadãos. O preto, a puta, o migrante, os sem nomes não vivem na anti-cidade, e sim se escondem em suas franjas, invisíveis, em seus barracos e casa de alvenaria construída aos poucos, com muito esforço, uma fiada de tijolos de cada vez. Alguns podem argumentar a ilegalidade da ocupação, que o império da lei deve predominar. Mas geralmente são essas pessoas as primeiras a rasgar a constituição ao gritar contra os que defendem os direitos humanos. Não entendem o que é viver em uma cidade para pessoas, num espaço realmente humano.

A anti-cidade é onde a especulação imobiliária vence. Organiza seus espaços de acordo com interesses de poderosos, construindo shoppings, prédios de escritórios e condomínios-parques; espaços panópticos, numa urbe cada vez mais panóptica. E os espaços públicos? Eles não existem, apropriados pelo capitalismo para servir como local de passagem, enquanto promovem suas marcas, em ruas transformadas em revistas de moda cheia de propaganda. E nada que esteja fora dos padrões estéticos preconizados pela indústria: bancos anti-mendigos para aqueles que quiserem dormir nas praças, grades em parques para aqueles que ousarem enfrentar o toque de recolher do horário comercial, “rapa” para quem quiser vender aquilo não atende apenas os desejos de consumo dos mais ricos.

E quanto ao ir e vir, direito tão básico quanto o de expressão, é também organizado pelos poderosos da especulação imobiliária, permitido apenas em carrões caros, Que se dane se você está a pé, de ônibus ou pedalando! A rua, apenas para o trânsito cada vez mais doente e parado das bolhas de aço e plástico, movidas a combustíveis fósseis.

Essa é a anti-cidade. Ela exclui, segrega, colocando os pobres em uniformes e mandando para longe ou escondendo tudo aquilo que é indesejado. O pecado dos moradores da Pinheirinho foi se tornarem visíveis, enfrentando uma ordem estabelecida por magnatas da construção civil e especuladores. Foi estarem em cima de um terreno de 180 milhões de reais e não terem apelo para a grande mídia, sempre do lados dos mais poderosos. O maior crime desses homens, mulheres e crianças foi estar no caminho da anti-cidade.

Ps. Escrevo esse texto ouvindo “Soundtrack to the struggle”, do rapper iraqi-britânico Lowkey. Recomendo suas músicas, que denunciam os preconceitos em relação aos muçulmanos e a truculência do estado de Israel contra os palestinos.

 Santo Isaac

Sobre nosso vizinho: verde, ama (todo o tipo de) diversidade, tem fé na humanidade, em movimentos sociais, na bicicleta e na agricultura urbana. Adora cozinhar, principalmente comida japonesa, chinesa, coreana, vietnamita e italiana.