Embu das Artes

À primeira vista, a cidade é bonita. Quando a conheci eu ainda era criança. Era a cidade preferida dos meus pais e ainda é até hoje.

Foi lá que comprei meu primeiro LP (disco de vinil), ainda em 1994, com os 10 reais que meu pai me dava e que deveria durar um mês (era a minha gorda mesada na época). O vinil? Era o primeiro disco dos Beatles. Claro! A feirinha de artes encantava qualquer um. Minha mãe ainda tem bugigangas compradas lá que ainda funcionam bem.

Voltei à cidade somente em 2009 mas, dessa vez seria mais do que um passeio, seria minha segunda morada onde ficaria mais de 8 horas por dia, seria a cidade que me acolheria até em alguns fins de semana.

Por conta dessa nova relação, conheci também outros lados da mesma cidade. O centro bonitinho era muito pequeno perto de tudo que a cidade me oferecia. Muito além das artes, era a cidade das favelas.

Em dois anos conheci muitas pessoas que sequer sabiam da existência da feirinha de artes. Conheci pessoas que sabiam mais de São Paulo que da própria cidade. Porque ir ao centro da cidade, a parte bonita, não valia a pena se não tivesse retorno financeiro. Era melhor guardar dinheiro para trabalhar em Pinheiros do que gastá-lo vendo coisas que não lhes eram atrativas, de forma alguma. Coisas que nada significavam para eles.

Nesta cidade, aprendi a ver a beleza na periferia, a ver o desafio humano de ocupação em áreas de risco, a ver morros e morros, leitos de córregos – todos ocupados. Aprendi a ver que havia favelas no centro também e que elas disputavam lugar junto à linda vegetação. Aprendi que loteamentos irregulares de alto padrão em áreas públicas são encarados de maneira muito diferente das ocupações populares em terrenos particulares.

Embu das Artes, neste tempo, se tornou uma cidade muito especial para mim. Com uma beleza ímpar, que acho que só urbanistas (e) idealistas conseguem perceber.

Embu lida com desafios que não serão resolvidos em pouco tempo e que merecem um tratamento melhor do poder público. A cidade está nas mãos de quem joga com a sorte para a obtenção do máximo lucro – situação não muito diferente de qualquer outra cidade da região metropolitana de São Paulo.

Embu me fez crescer muito. Me fez ter a segunda experiência de engajamento e apego na vida. Me fez ter bons amigos, me fez ter a certeza do que fazer na vida, me fez ter certeza da cidadã que quero ser e que não consigo. Me fez entender coisas que um curso de arquitetura jamais conseguiria ensinar.

                                                                                                   Leila Petrini

Sobre nossa vizinha:  arquiteta e urbanista, movida a cerveja, rock’n’roll, café e bacon