Cada lugar que chego*

Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano. Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.

Cecilia Meireles

sobre nossa vizinha:Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”

*Trecho da última entrevista dada por Cecilia Meireles. Disponível na íntegra em http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles

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Ensaio sobre o muro

Diversas funções são atribuídas aos muros. Além de demarcar fronteiras entre o público e o privado, serve também como um lugar de expressões e sentimentos que, podem estar “reprimidos” ou não são expressos nas conversas do cotidiano.  Nos muros pichados podemos observar declarações de amor, palavras de ordem, xenófobas e de marcação de território.

É claro que o ato de pichar é comum na maioria das culturas urbanas nas grandes cidades do mundo. O que difere é a forma, a mensagem, o modo como esse ato é construído. Tudo depende de um contexto que vai além da latinha de spray e da coragem de consumir o fato. Cada lugar possui suas particularidades socioculturais e econômicas (por que não?!).

Diferentemente de São Paulo, onde a pichação tem uma cultura própria com suas gangs, modos de pichar, códigos, etc., ou seja, uma estrutura organizada, em Braga [Portugal] o ato de pichar significa usar o muro para exprimir um desejo, tornar público aquilo que é apenas da pessoa que picha.

O uso do grafite, como expressão de “arte” urbana, é muito pouco utilizado ou conhecido na cidade de Braga. Podem-se encontrar algumas obras que poderiam ser classificadas como proto-grafite, mas com os dizeres meramente pessoais, ou seja, são declarações de amor.

 

Outra função interessante dos muros em Braga é de servir como um lugar de preces e orações. Em diversas ruas, A fé é um caminho de mão dupla.geralmente próximas de igrejas católicas, existem muros no qual há uma espécie de santuário de um determinado santo católico, que mede aproximadamente um metro e meio de largura por dois de altura, onde as pessoas acendem velas e oram.

Braga é uma cidade extremamente católica com diversas igrejas em torno da cidade. Faço uma brincadeira (com todo respeito a Deus, ou seja lá o que for) sobre as igrejas de Braga. Se na música de Zeca Afonso – Grândola, Vila Morena – encontramos a frase “Em cada esquina um amigo”, na cidade de Braga encontramos em cada esquina uma igreja. Não bastasse as igrejas, ainda temos os altares nos muros da cidade. Cidade abençoada e super protegida. Diria até que as igrejas da cidade de Braga servem como um grande panóptico, no mesmo sentido usado por Jeremy Bentham e Michel Foucault. Mas essa já é outra história…

Ao andar pelas ruas de Braga, senti que estava sendo vigiado pelos santos católicos diante desses altares murais. Era também uma espécie de aviso sobre as opiniões de conformismo e resistência perante os imigrantes residentes em Portugal, a solidão, a dolência e a melancolia presentes nos corações bracarenses.

G.Stoner

Sobre nosso vizinho: 

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Santos, terra de pardais

Na única vez que tinha ido a Santos, eu deveria ter cerca de quatro anos. Lembro-me do desespero que senti quando vi minha mãe saindo de maiô na praia na frente de todos!; de um balão grande do He-Man, da areia dura e da água quase cinza.

A imagem mental deve ter sido construída pela visita a outras praias do litoral paulista, somada ao que a gente vê pela tevê e pela internet. O fato é que Santos nunca esteve na minha lista de lugares a serem visitados, já que eu conhecia lindos mares azulados, tão mais atraentes do que nossa vizinha praia urbana. É como um admirador de pássaros: ele vai se interessar pelas aves de plumagens coloridas, vai querer conhecer aquelas que têm os melhores cantos, que conseguem voar mais alto, bater as asas mais rapidamente… Quem é que vai se interessar pelo pardalzinho que pousa ao lado de casa?

E assim era para mim, como acredito que para a maioria dos paulistanos. Santos é, tão somente, a “praia” que divide o litoral norte do litoral sul de São Paulo. E, pra completar, é totalmente urbana. Nada para se fazer por lá.

Foi quando surgiu a oportunidade de verificar mais de perto. Raquel e eu iríamos conhecer uma amiga que chegou até nós por meio do blog, e visitar outra amiga que estava passando os finais de semana com seu pai, morador de Santos. Já tínhamos iniciado o Cidadeando e por isso conhecer a cidade (e não apenas a “praia”) seria uma experiência interessante.

Inicialmente, pensamos em ficar em São Vicente, mas chegando lá, resolvemos ir para Santos mesmo. São Vicente, que foi a primeira vila fundada por portugueses na América, parece carregar ainda um sotaque ibérico nas construções e pequenos detalhes. Inclusive pelo seu Martim Afonso vestido de papai noel. Nada mais português rs. Encantava, mas nosso destino era Santos.

Era um sábado de sol forte e engatamos na caminhada. Se não fosse por ser véspera de um jogo decisivo do time de futebol Santos, e com isso todos os hotéis e pousadas estivessem lotados, talvez tivéssemos corrido pra areia e aproveitado aquele dia tão bonito. Mas como tínhamos que procurar um lugar para dormir, saímos andando pela cidade e aproveitamos para observar seus antigos prédios, suas padarias azulejadas, o museu do café, o bonde, as cores de santos…

Entre os azuis de SantosSim, mesmo sendo como um pardal, Santos guarda cores por ali. Principalmente o azul, cravado no azulejo português. E as construções não são apenas as do século XIX. Ali tem art déco também, prédios das décadas de 50 a 70 (que nossa amiga Day nos explicou: chamam-se “caixotes”), além de novas construções.

E não só de cor e prédio vive Santos. Quando estávamos decididas a encontrar o pessoal na praia e nos estender no sol, passamos pela Quinze de Novembro, rua do centro da cidade, e nos deparamos com um bar onde começaria uma apresentação de Fado e outras músicas portuguesas. Acho que escrevi Fado com letra maiúscula porque esse estilo me remete a algo de senhoridade, algo quase austero. Uma dor, uma angústia, um gemido quase calado. Deve ser difícil ser português. Ser tão intenso e tão angustiado, mesmo vivendo em uma terra tão linda, de castelos, pequenas construções, terra de um sol que se põe tarde e tem ruas com paralelepípedos. E os portugueses de cá, então?! Para os que vivem em Santos, talvez seja um pouco mais fácil… devem viver com essa saudade engasgada, mas com o sorriso e um quase molejo de brasileiro.

Raquel e eu não resistimos e ficamos ali no bar, ouvindo o grupo cantar, enquanto falávamos sobre sua viagem a Portugal e sobre como Santos nos apresentava surpresas.

Depois do fado, fomos enfim para a praia. Mesmo com a areia dura e o mar cinza, ela é alegre. As pessoas não pareciam ter o ar irritado por não estarem diante de um mar verde-azulado; pareciam estar sim felizes, como se fossem paulistanos em um bar da enfumaçada Av. Paulista.

E depois das caipirinhas a beira-mar, Day nos levou ao Samba do Ouro Verde. Um lugar pequeno, afastado do mar, afastado do centro, mas deliciosamente santista. Samba animado, formado por amigos unidos há décadas, que atrai gente de todo canto. E nós lá, ora sambando, olhando com admiração para os músicos, ora para os troféus do time de futebol da associação, expostos no alto. Aquele ar de bairro, de amigos da vila, coisa que eu não vivo em São Paulo. Coisa que achei linda ali.

O mais fantástico é que mesmo sem combinar, fomos conhecer a cidade um dia antes de um jogo de decisão no futebol: Santos e Barcelona, final do mundial de clubes. Imagina Brasil em copa do mundo?… Não, talvez mais forte. Porque era como se fosse um país pequeno, afastado dos centros, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.

Fomos dormir logo (na casa da Day mesmo), pois o jogo seria logo pela manhã. Acordamos cedo e assistimos parte do jogo. O triste foi ver o time da cidade ser derrotado. E quando saímos à rua, santistas calados numa cidade em preto e branco. Mas era Santos, o céu estava azul e o dia era quente, e a cidade continuou desajeitadamente bela.

Engraçado foi perceber essa cidade tão cheia de belezas e nuances, tão perto de nós (paulistas) e tão desconhecida. Raquel e eu prometemos: voltamos a Santos e vamos descobrir outros de seus segredos. Outros azulejos, outros Fados, outros cantos.

Sandra Oliveira

Por onde andei

Quando li o texto da Raquel sobre Portugal, senti algo como um alívio. Pensei em escrever um comentário, mas as ideias pulularam e veio o texto. Sobre nós transferirmos nossas sensações para os lugares, e eles se transformarem em símbolos de nossas alegrias ou de nossas tristezas.

Quando Raquel voltou de Lisboa, eu fiquei preocupada. Na época, pensava que vinha daquela cidade e de seus habitantes toda a angústia que ela sentia. Cheguei a ter raiva de Portugal. Agora, seis anos depois, ela escreve sobre como a cidade era bela. E que, mesmo entre os lusitanos tão difíceis de se relacionar, o idioma era o que trazia calma para sua alma tão cheia de conflitos. Não, não era culpa da cidade e seus habitantes. Ao escrever sobre isso, Raquel fez as pazes com Portugal. E eu revi minha ideia sobre a cidade, por consequência.

Também já passei por isso em diversas situações. A primeira vez que estive em Parati, a cidade parecia sem graça, sem cor, monótona e quase artificial. Não, eu não acreditava que aquela sensação tivesse relação com o momento conturbado de meu relacionamento. Dois anos depois, me propus o desafio de novamente visitar a cidade. E qual foi a minha surpresa quando vi uma Parati iluminada, onde cada rua trazia uma história, um conto, onde cada doce mordido era um sorriso, onde até a chuva parecia ser romântica, por nos obrigar a usar o mesmo guarda-chuva. Talvez fosse reflexo do novo momento apaixonado que eu vivia.

E também aconteceu em Buenos Aires. Da primeira vez que eu estive lá, a cidade me parecia muito provocadora e insinuante. Queria me desafiar a ir onde eu não podia ir, e me parecia ser o melhor lugar do mundo. Quatro anos depois estive lá novamente. Então solteira e mais segura, a cidade me pareceu muito mais inofensiva. Estava desmistificada. Se não fosse por ter as melhores milongas, jamais voltaria à cidade portenha.

Algo assim também aconteceu em São João del Rey. Estive uma vez de passagem, mas nem sabia direito onde estava. Nas poucas horas de minha visita, apenas olhei algumas de suas ruas. Uma esquina, em especial, me chamou atenção. Era a quina de duas casas antigas com uma igreja ao fundo, de paredes tão brancas que pareciam brilhar. Era lindo. Uma sensação de euforia me tomou. Anos depois, programei uma viagem a São João del Rey, sem me lembrar de que já tinha passado por lá. A viagem, que parecia estar fadada à minha tristeza, mudou completamente quando cheguei em frente à mesma esquina. Foi como se meu coração recebesse uma pancada de adrenalina, e tive a sensação de viver um déjà vu. Fiquei paralisada, olhando. Não tinha nada de especial aquela quina de paredes, mas incrivelmente sua luz me trazia uma alegria impronunciável. Então eu me lembrei de que estivera lá anos atrás, e tudo foi explicado: nada de déjà vu. Mas nem por isso a viagem foi ruim. Pelo contrário, foi um dos melhores finais de semana que passei naquele ano.

Já falei sobre a Augusta e das sensações que ela me dá. Estou ensaiando um texto sobre a Paulista, e indo mais para os “lugares íntimos”, talvez falasse até de como me trazia calma a luz do sol que entrava pela janela da casa na Vila Mariana. E de como essa janela sempre me trará calma… Mas diferente do que eu sinto cada vez que a luz atravessa o estrado de uma janela, e me mescla num listrado carinhoso de luz e sombra.

Por ser uma apaixonada por “lugares” e enchê-los de carga emocional, às vezes tenho que fazer um exercício para olhá-los de uma maneira mais crítica. E nesse exercício, consigo observar as idiossincrasias locais, e tento separar o que é afetivo do que é análise. Sei que, no fundo, não consigo afastar totalmente os dois pontos de vista. Estendendo também para a Raquel, temos percepção social – e das próprias emoções – de uma maneira profunda. Quando visitamos um lugar, não suportamos a bolha turística, e ela logo cai. Mas apesar da análise crítica, isso não anula nossas emoções.

Talvez essa percepção seja uma das missões do Cidadeando. Raquel e eu ficamos felizes cada vez que alguém lê nossos textos e comenta sobre como a cidade, o lugar onde vivemos, passou a ser visto de outra maneira. Não apenas como cenário de nossas vivências. Mas também como parte de nossas experiências.

San diz:
quero dar uma conclusão para o texto
mas simplesmente nao tenho rs
eu sei q a gente deposita nos lugares as nossas sensações
mas nao tenho conclusão
Raquel diz:
é que a gente leva algo da cidade e deixa algo de nós

Sandra Oliveira