Águas de Alagoas

A primeira coisa a se considerar para uma viagem a Alagoas é que lá estação das chuvas funciona bem. Ela começa com as águas de março e vai até o fim do inverno. E não são chuvas de dez minutos. Algumas duram a manhã ou tarde toda, ou te pegam de surpresa durante a noite em um passeio pela orla. Então, por experiência própria, digo que a melhor época para conhecer Alagoas, em especial o litoral, é no verão e primavera.

Maceió tem suas belas praias, mas como a maioria das praias urbanas, são impróprias para o banho. Na orla da praia de Pajuçara há um mercado de artesanatos, com grande variedade e preços justos. Indo da Pajuçara para o centro há uma calçada por onde você pode observar o mar, mas quase não há quiosques e pouquíssimos restaurantes. Da Pajuçara para a Ponta Verde já vemos mais movimentação e lugares onde se pode comer e beber.

Mas são fora de Maceió que estão as praias mais bonitas. O ideal é alugar um carro, pois há lugares lindos que as agências não vão. Com uma agência, você conhece pouco, vai num ônibus com um guia feliz que não para de falar, às oito da manhã e tem que sair de lá por volta das três da tarde, quando você está feliz e pronto para esticar mais um pouco.

Indo para o sul de Maceió, estão as conhecidas Praia do Francês, Barra de São Miguel e Gunga. São muito bonitas, com águas verdes e calmas. As Dunas de Marapé são dunas fixas pela vegetação, e por isso, é proibido andar de buggy por lá. Mas vale a vista de uma paisagem quase deserta. Há pouquíssimos quiosques por lá, mas há tanto a opção para quem gosta de curtir um axé na beira da praia quanto caminhar um pouco e chegar a algum ponto em que não se ouve barulhos além do mar. Outra coisa interessante dessa praia é o passeio pelo rio que leva ao mangue e sua vegetação exótica. Pra quem tem coragem, é interessante entrar na lama!

Indo para o norte de Maceió está a belíssima Maragogi e suas piscinas naturais. Devido às chuvas (fui em julho), quando cheguei lá o mar estava escuro e barrento. Após o barco entrar no mar, as águas mudaram de cor, e já nem parecia a mesma área. E de fato não era! O barco entra no mar por cerca de 40 minutos, até chegar em águas calmas e cristalinas… Há peixinhos por ali e é possível até fazer um pequeno mergulho. Maragogi é linda. Mas atenção! Só vale ir à Maragogi se fizer o passeio até as piscinas naturais (R$50,00 no barco). Se não for, vale muito mais conhecer outras praias…

Entre uma praia e outra, passamos por diversas lagoas e lagunas, que deram o nome do Estado. É interessante observar toda essa água que há por lá. Mas chega a ser estranho quando vamos em direção ao interior e nos deparamos com os rios sazonais. No caminho para Piranhas (cerca de 270 km da capital), vimos muitos rios secos, que me davam um misto de curiosidade e pavor. Imagine que aquele rio passa a metade do ano seco!

Piranhas é uma cidadezinha no oeste do Estado. Sua principal atração é o Rio São Francisco, que banha a cidade. Antigamente, o rio tinha apenas um metro de profundidade naquela área. Hoje, represado, chega a 50 metros. Ficamos hospedados na Pousada Trilha do Velho Chico (R$120,00 a diária do casal), à beira do rio. À noite, levamos um vinho (e repelente) para umas espreguiçadeiras, enquanto contemplávamos o rio e as estrelas. Simplesmente fantástico.

Pela manhã, pegando um barco (R$35,00), passamos pelo rio e chegamos a uma base, onde dá para tomar banho em uma prainha deliciosamente límpida. Dalí, é possível fazer uma trilha simples (R$4,00) que passa pelo meio da caatinga e vai até a Grota do Angico, o local onde Lampião foi assassinado. Tive a sorte de fazer a trilha com um grupo de estudantes de uma universidade de Petrolina (PE), dos cursos de História, Geografia e Biologia. Quando o guia acabou o relato sobre a história do Lampião, os pesquisadores praticamente começaram um debate. Foi realmente bacana, palavra de historiadora rs.

O outro passeio imperdível é a visita ao cânion do Xingó. Na verdade, o barco sai da cidade de Canindé de São Francisco (SE). Adentra-se no rio, enquanto observamos a paisagem dos paredões da caatinga. É incrível como há tanta água no rio e a vegetação tão seca lá em cima. Os paredões vão se estreitando até chegar ao cânion. É uma beleza indizível. E, claro, nadar por ali é fantástico, no meio daquela paisagem rústica e diferente. Uma base permite que os banhistas aproveitem a água com profundidade de 25 m. Para os que não sabem nadar, há os coletes salva-vidas e uma “piscina” montada, com apenas um metro. Foi ali que eu fiquei rs.

Um pequeno barquinho (R$5,00) te leva até uma parte mais estreita entre os paredões. O passeio é curto, mas vale a pena. Dali, observamos uma pequena trilha e perguntei ao mocinho do barco como chegar até lá. E ele me falou que deveríamos procurar o Mirante do Talhado, onde é possível observar o cânion de cima.

Após o passeio no cânion, fomos em busca do Mirante. É necessário voltar à base em Canindé de São Francisco, pegar a estrada rumo a Delmiro Gouveia e mais cerca de 10 km de estrada de terra. O Mirante do Talhado é uma pousada com restaurante, construído por um simpático senhor de 73 anos, seu Zé Francisco. Ele toca tudo com a esposa, que cozinha MA-RA-VI-LHO-AS-MENTE e cuida dos três chalés. Seu Zé Francisco diz que seu sonho é construir mais sete chalés, o que faz com as próprias mãos, assim como a piscina que está em construção e outras melhorias para a área.

É seu Zé Francisco também que nos leva pela trilha de até 2,5 km (R$15,00) pelo meio da caatinga, contando como aquela vegetação foi e ainda é útil ao homem da região. Fala sobre sua família, história e meio ambiente, numa desenvoltura que nos deixa espantados quando ele diz que é analfabeto. Com parceiros, é possível fazer rapel, tirolesa e andar de barco também. Nas noites de lua cheia, o pessoal da pousada faz um lual ali, iluminado pela lua com vista para o rio. E de lá de cima, observamos a imensidão do rio. De lá foram gravadas cenas da novela Cordel Encantado, da qual Seu Zé guarda com carinho a carroça utilizada. No alto, o silêncio e a formação nos faz ouvir o eco de animais e o barulho da Terra. Seu Zé Francisco se diz apaixonado pelo rio. E como não poderia ser.

No meio do passeio, uma fina garoa nos presenteou. Seu Zé Francisco nos disse que há dias não chovia e muitos agricultores haviam perdido suas plantações. Torcemos para que não seja uma seca como a de 1932, pela qual seus pais passaram.

Outro local interessante é o bar Show da Natureza. Também fica no sentido de Delmiro Gouveia, mais cerca de 8 km de estrada de terra. De frente para o rio em outro ponto, a gente pode almoçar uma comida local, com peixe, galinha capoeira ou carne de bode. Como toda vegetariana persistente, a gente sempre dá um jeito!

Há outros passeios possíveis pela região, como conhecer a hidrelétrica de Xingó, Delmiro Gouveia, a primeira hidrelétrica do país – Angiquinho e as trilhas da Fazenda Novo Mundo. O único problema para as trilhas é que e isso ainda é pouco explorado, então há poucos guias pela região, e talvez você não consiga fazê-las.

Voltando em direção ao sul do litoral de Alagoas está Penedo, que foi o primeiro povoado do Estado. Com suas igrejas barrocas, casas coloniais e em art déco, a simpática cidade também é banhada pelo rio. Além de ter sido base para D. Pedro se hospedar, é base para quem quer conhecer a Foz do Rio São Francisco.

A saída é pela cidade de Piaçabuçu, a 25 km de Penedo. É possível fazer o passeio de barco (R$35,00) ou de buggy (R$40,00), sendo que nessa opção, os guias dão informações sobre história e meio ambiente. O passeio passa por praias desertas e protegidas até chegar à Foz. À primeira vista, é lindo. O rio claro, calmo e convidativo é encantador. Aos poucos vamos nos dando conta – com a ajuda do guia – de tudo o que ocorreu com o Velho Chico, que foi represado. Anos atrás, o rio era forte e até mesmo petroleiros entravam por ali. Hoje, apenas pequenos barcos. Turvo, era possível ver onde o rio de cor marrom entrava no mar claro. Hoje, o mar entra por baixo do rio e está salgando a água doce. Muitos peixes já não se reproduzem, já que não é possível subir até a nascente. Também os homens não podem subi-lo, já que o rio não tem eclusas. É um misto de maravilhamento e tristeza.

Por tudo, digo apenas que as águas de Alagoas encantam.  E posso dizer que foi uma das melhores viagens que já fiz… Daquelas que você volta já fazendo planos para voltar… Até mesmo para uma pessoa com fobia de nadar, como eu.

Sandra Oliveira

Santos, terra de pardais

Na única vez que tinha ido a Santos, eu deveria ter cerca de quatro anos. Lembro-me do desespero que senti quando vi minha mãe saindo de maiô na praia na frente de todos!; de um balão grande do He-Man, da areia dura e da água quase cinza.

A imagem mental deve ter sido construída pela visita a outras praias do litoral paulista, somada ao que a gente vê pela tevê e pela internet. O fato é que Santos nunca esteve na minha lista de lugares a serem visitados, já que eu conhecia lindos mares azulados, tão mais atraentes do que nossa vizinha praia urbana. É como um admirador de pássaros: ele vai se interessar pelas aves de plumagens coloridas, vai querer conhecer aquelas que têm os melhores cantos, que conseguem voar mais alto, bater as asas mais rapidamente… Quem é que vai se interessar pelo pardalzinho que pousa ao lado de casa?

E assim era para mim, como acredito que para a maioria dos paulistanos. Santos é, tão somente, a “praia” que divide o litoral norte do litoral sul de São Paulo. E, pra completar, é totalmente urbana. Nada para se fazer por lá.

Foi quando surgiu a oportunidade de verificar mais de perto. Raquel e eu iríamos conhecer uma amiga que chegou até nós por meio do blog, e visitar outra amiga que estava passando os finais de semana com seu pai, morador de Santos. Já tínhamos iniciado o Cidadeando e por isso conhecer a cidade (e não apenas a “praia”) seria uma experiência interessante.

Inicialmente, pensamos em ficar em São Vicente, mas chegando lá, resolvemos ir para Santos mesmo. São Vicente, que foi a primeira vila fundada por portugueses na América, parece carregar ainda um sotaque ibérico nas construções e pequenos detalhes. Inclusive pelo seu Martim Afonso vestido de papai noel. Nada mais português rs. Encantava, mas nosso destino era Santos.

Era um sábado de sol forte e engatamos na caminhada. Se não fosse por ser véspera de um jogo decisivo do time de futebol Santos, e com isso todos os hotéis e pousadas estivessem lotados, talvez tivéssemos corrido pra areia e aproveitado aquele dia tão bonito. Mas como tínhamos que procurar um lugar para dormir, saímos andando pela cidade e aproveitamos para observar seus antigos prédios, suas padarias azulejadas, o museu do café, o bonde, as cores de santos…

Entre os azuis de SantosSim, mesmo sendo como um pardal, Santos guarda cores por ali. Principalmente o azul, cravado no azulejo português. E as construções não são apenas as do século XIX. Ali tem art déco também, prédios das décadas de 50 a 70 (que nossa amiga Day nos explicou: chamam-se “caixotes”), além de novas construções.

E não só de cor e prédio vive Santos. Quando estávamos decididas a encontrar o pessoal na praia e nos estender no sol, passamos pela Quinze de Novembro, rua do centro da cidade, e nos deparamos com um bar onde começaria uma apresentação de Fado e outras músicas portuguesas. Acho que escrevi Fado com letra maiúscula porque esse estilo me remete a algo de senhoridade, algo quase austero. Uma dor, uma angústia, um gemido quase calado. Deve ser difícil ser português. Ser tão intenso e tão angustiado, mesmo vivendo em uma terra tão linda, de castelos, pequenas construções, terra de um sol que se põe tarde e tem ruas com paralelepípedos. E os portugueses de cá, então?! Para os que vivem em Santos, talvez seja um pouco mais fácil… devem viver com essa saudade engasgada, mas com o sorriso e um quase molejo de brasileiro.

Raquel e eu não resistimos e ficamos ali no bar, ouvindo o grupo cantar, enquanto falávamos sobre sua viagem a Portugal e sobre como Santos nos apresentava surpresas.

Depois do fado, fomos enfim para a praia. Mesmo com a areia dura e o mar cinza, ela é alegre. As pessoas não pareciam ter o ar irritado por não estarem diante de um mar verde-azulado; pareciam estar sim felizes, como se fossem paulistanos em um bar da enfumaçada Av. Paulista.

E depois das caipirinhas a beira-mar, Day nos levou ao Samba do Ouro Verde. Um lugar pequeno, afastado do mar, afastado do centro, mas deliciosamente santista. Samba animado, formado por amigos unidos há décadas, que atrai gente de todo canto. E nós lá, ora sambando, olhando com admiração para os músicos, ora para os troféus do time de futebol da associação, expostos no alto. Aquele ar de bairro, de amigos da vila, coisa que eu não vivo em São Paulo. Coisa que achei linda ali.

O mais fantástico é que mesmo sem combinar, fomos conhecer a cidade um dia antes de um jogo de decisão no futebol: Santos e Barcelona, final do mundial de clubes. Imagina Brasil em copa do mundo?… Não, talvez mais forte. Porque era como se fosse um país pequeno, afastado dos centros, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.

Fomos dormir logo (na casa da Day mesmo), pois o jogo seria logo pela manhã. Acordamos cedo e assistimos parte do jogo. O triste foi ver o time da cidade ser derrotado. E quando saímos à rua, santistas calados numa cidade em preto e branco. Mas era Santos, o céu estava azul e o dia era quente, e a cidade continuou desajeitadamente bela.

Engraçado foi perceber essa cidade tão cheia de belezas e nuances, tão perto de nós (paulistas) e tão desconhecida. Raquel e eu prometemos: voltamos a Santos e vamos descobrir outros de seus segredos. Outros azulejos, outros Fados, outros cantos.

Sandra Oliveira

Cidadeando por Cape Town

Quando a San me pediu pra escrever sobre Cape Town, eu adorei a ideia. Mas aí começou a me bater um nervoso, uma ansiedade, uma coisa… porque desde que eu vim embora de lá e deixei metade do meu coração com um sul-africano, tenho evitado pensar na cidade. Todas as memórias estão lá. Mas acho que vai fazer bem pra minha terapia voltar um pouco às recentes lembranças de um lugar tão mágico.

Eu tive várias leituras da cidade. Intrinsecamente ligadas às experiências que eu vivi. Eu vi uma cidade que poucos turistas vêm, por estar apaixonada hospedada com um local. Fiquei em um bairro de subúrbio, longe do centro e da agitação. E quando eu digo subúrbio, eu não me refiro às “townships”, que nós aqui no Brasil chamamos de “periferia”. Eu me refiro aos subúrbios americanos, aqueles com casas amplas, com gramado na frente, praças, tudo muito arrumadinho e perfeito. Esse lugar se chama Pinelands. Os amigos descolados que moram perto do centro tiravam sarro, dizendo que vivíamos no bairro dos aposentados. Mas foi na paz de Pinelands que brigamos, lavamos roupa, cozinhamos a ceia de Natal, fizemos as pazes e compras do mês; dos tomates cereja que ele adora à linha de costura. Como toda família. Pelo tempo em que eu estive lá, essa era minha família.

Na semana do último Natal, compramos uma árvore, ou melhor, um pedaço de árvore, que era na verdade um galho de um dos muitos pinheiros de Pinelands (por isso o nome). Enfeitamos com bolas coloridas e colocamos nossos presentes embaixo.  E depois da meia noite, levamos comida aos dois únicos sem-teto que eu vi em Pinelands.

Cape Town também é uma cidade de agito e turismo. Mas sem caos. Nos dias de muita nebulosidade, por conta do relevo, as nuvens cobrem a Table Mountain como se fosse literalmente uma toalha de mesa. Todo mundo pára o que está fazendo e olha. A Table Mountain é a referência e a influência dos dias bons, dos dias secos, dos dias nublados, dos dias ruins e dos dias de vento. E como venta em Cape Town! É um vento gelado que vem do fim do mundo.

No centro turístico e comercial tem de tudo. A rua das baladas, bares e cafés escondidos, daqueles onde a gente senta por horas esperando o tempo passar. Tem o Waterfront, com a roda gigante que, quando eu vi, me fez sentir criança de novo. Admito, meus olhos brilharam. E ali você pode tomar um iogurte gelado, andar por entre os barcos, jantar no meu restaurante italiano preferido. E ver focas. E gaivotas. E gastar milhões de Rands com o superfaturado artesanato local.

E tem as praias. As do centro, que você só passa e bate uma foto. As do agito, com gente bonita e endinheirada. A Grande, onde eu queria comprar uma casa e passar todas as tardes da minha vida. A dos pingüins, Boulders Beach, que dispensa qualquer comentário. E a minha, opa, nossa praia: Glen Beach. Onde (perdoe-me, querido), eu vi os homens mais lindos de toda a minha existência. Se quando eu morrer papai do céu me julgar uma boa menina, esse vai ser meu paraíso. Glen Beach e todos os seus surfistas.

E aí como é tudo perto, dá pra fugir pro interior do território de Western Cape. Em meia horinha do centro de CT, você já está na roça. Passeando por vinhedos, vendo cheetas, springboks e zebras. Almoçando preguiçosamente em Stellenbosch, uma cidadezinha universitária com absoluta influência holandesa, como tudo em Western Cape.

Inclusive, o incrível jardim botânico de CT chama Kirstenbosch, mais um nome africâner. Eu daria tudo pra deitar naquela graminha agora e ficar olhando o céu.

O mais impressionante é ver como a região é cosmopolita. Seja em Stellenbosch, onde em uma oportunidade eu almocei em um restaurante cubano (!), seja no elevador do shopping, ouvindo negros conversarem naquela língua com estalos. Seja em todo lugar com todos os indianos onipresentes. E claro, os descendentes de holandeses, ingleses, portugueses… e uma ítalo-brasileira perdida no meio!

E antes que o post vire um livro, não posso deixar de comentar sobre um dos momentos mais especiais da minha vida. Seguindo para o sul de Western Cape, a gente se depara com um parque nacional gigantesco, onde estão abrigadas duas coisas que eu sempre quis saber como era, desde quando eu abri meu primeiro livro de história do Brasil: Cape Point e o Cabo da Boa Esperança. Eu poderia escrever um post inteiro sobre essa experiência. Mas vou tentar resumir: chegar ao ponto onde o oceano Atlântico encontra o oceano Índico é como ir até o fim do mundo. E imaginar aqueles caras há séculos passando por ali com suas caravelinhas. E pensar como nós somos pequenos perto daquela imensidão.

Sim, eu fui até o fim do mundo. E só tem uma pessoa com quem eu poderia compartilhar essa experiência. Eternamente grata a você, a Western Cape, a Pinelands, a Cape Town.

 Nana

Sobre nossa vizinha: “Sou diplomata e legal na maior parte do tempo. Mas posso ser azeda, amarga e adorar um humorzinho negro. 28 anos, paulista, corinthiana, vendi minha alma pra uma multinacional de TI. Virginiana com ascendente em Touro e lua em Capricórnio.”

O fim do mundo, ali.

Do lado de lá da ponta do mar

Nunca escrevi nada sobre Santos porque esta cidade está em mim todos os dias: minha infância, amigos, sonhos, todas as minhas buscas são daqui. Morei muitos anos (muitos mesmo) na Ponta da Praia. Trata-se de um bairro residencial, no canal 7 (santistas se direcionam pelos canais), que não tem nada de muito especial, a não ser o fato de eu ter visto a minha infância e adolescência se desenrolarem por lá. Morei sempre no mesmo prédio, destes em formato de caixotes (três andares, com varandas ou não), só vistos por aqui. Por outro lado, nada acontece na Ponta da Praia, terra de Marlboro aos domingos, um deserto só.

Quando criança, meus irmãos e eu íamos à praia, ou com os nossos pais ou com a mãe de algum coleguinha. E se hoje a praia fica a três quadras daquele mesmo prédio, antigamente, o passeio era distante, quase uma viagem. Então veio a adolescência e a distância se modificou. Não demorávamos tanto para chegar até o mar, em menos de dez minutos meus amigos e eu estávamos tomando sol, deitados em cangas, para curtir a maresia. Sem culpa. Sem preocupações. Ser praieiro podia ser um adjetivo bom no meio dos anos 90.

Mas ainda assim, algo nunca me fez crer que a Ponta da Praia era meu lugar. Estranha constatação. Demorei a saber que a vida em Santos ia para além do canal 7. Assim, comecei a frequentar os bairros próximos de outros canais, comecei a ver outros horizontes caiçaras. Passei a trabalhar perto do canal 3 e fiz a faculdade quase no centro da cidade, mais longe ainda do mar da “Ponta”, passei a me descolar do mundo quase perfeito de um bairro nobre. Sentia um desejo enorme de sair daqueles arredores porque algo realmente não fazia mais sentido ali.

Foi quando, há cinco anos, uma grande amiga quis me levar para conhecer um bairro perto do curvão. É, essa era a referência: o curvão do canal 1. Distante da praia, próximo da entrada da cidade. “Vamos lá, Day, no Marapé, você precisa conhecer uma roda de samba que tem lá, tenho certeza que vai adorar”. Samba? Lá fomos nós… Para a roda de samba do Ouro Verde.

E um grande susto!

Um choque e um achado! Eu estava no Marapé – a partir do morro, ir ao mar a pé… e é assim que acontece…  pois há um morro que cerca-o e, ao segui-lo, chega-se até o mar.

Meu Deus, que lugar é esse? – perguntei, ao colocar os pés na porta. “Quem são essas pessoas?” “Elas (também) são negras?” Olhava ao redor e me reconhecia, depois de vinte e poucos anos, pela primeira vez na vida. Afinal, meus cabelos crespos eram uma exceção onde morava. E foi por muito tempo motivos de chacota. Entre aquelas mansões da Ponta da Praia, entre o vazio das pessoas que mal davam oi ao vizinho, chegar ao Marapé deu lugar para certo acolhimento ao desassossego de outrora. Para além disso, Santos é considerada a primeira cidade abolicionista do Brasil, e os três quilombos existentes residiam nas proximidades desta região. Assim, não é à toa tal concentração de negros. Porém, pasme, essa é a exceção mesmo. Andando pelo miolo de Santos, às vezes até desconfio que existam negros no mundo.

Um fato bem particular do Marapé é a sua identidade musical. Alguns se arriscam a compará-lo com a Lapa carioca. Dezenas de músicos formaram-se no bairro, aprenderam a tocar seus instrumentos de corda no quintal do Seu Lili, fundador da roda de samba do Ouro Verde.

Ouro Verde é o nome da sede do clube. É um clube de bairro. Os associados jogam carteado, bocha ou conversa fora. É… tudo ali existe de uma forma espantosa, as pessoas têm muito orgulho de morar lá e dizem que só sairão quando morrerem.

O bairro já se modificou muito, pelo que os antigos dizem, parte por causa da urbanização sofrida pela cidade inteira. Os chalés de madeira deram lugar aos caixotes e, em breve, com a especulação imobiliária será a vez da chegada dos espigões (edifícios com mais de dez andares). Ainda assim, a velha guarda do samba permanece fazendo história, o que arrisco a dizer: o samba do Ouro Verde não deixará este bairro acabar tão cedo.  Todos os sábado eles estão lá, a roda e seus integrantes: os moradores do bairro, moradores vindos de outros canais, pessoas de São Paulo, adultos, crianças, universitários, adolescentes, o Secretário de Cultura, a funcionária da padaria, a patricinha…

Todos se chegam e logo se contagiam por uma alegria e comoção local porque não formam apenas uma roda de samba. Descobri mais tarde que todos são do Marapé desde a tenra idade, estudavam na mesma escola, alguns casaram com a irmã do amigo da roda. E principalmente, são unidos por uma forte amizade…  mais o elo musical.

Marapé, seu samba e sua gente tornaram-se minha principal referência de Santos. É verdade que a praia guarda pequenos segredos na minha forma de me deslocar nas cidades. Morar no canal 7 engloba toda nostalgia da infância, das brincadeiras com os irmãos e da saudade dos meus pais. Viver num lugar chamado Ponta da Praia esconde um gosto poético, até. Afinal, eu morava onde a praia começa. Quantas vezes fui até aquele pedacinho de mar para levar algum sentimento afoito. Porém, só lirismo não nos preenche. Sempre soube que ali não vivia tudo de mim. Não me reconhecia. O lugar que moramos precisa nos apaziguar. E hoje o samba do Marapé é o meu porto seguro, mesmo longe das águas do mar.

Day Rodrigues

Sobre nossa vizinha: Tem formação em Filosofia, trabalha com produção cultural e gostaria muito de poder viver de seus escritos um dia.