Anjo Terreno – Augusta Lado B

Augusta

Me aproximei com a pergunta de sempre: “oi tudo bem?”, mas ele me surpreendeu com o novo: “não, não ta tudo bem não… e sabe porque? Por causa da solidão”… foi assim que a conversa com o “pernambucano com muito orgulho”, seu Severiano, começou. Ele mora nas ruas do centro e nos conhecemos na minha querida Augusta. Seu Severiano disse que conhece quase todo o Brasil e que mora em São Paulo há muito anos.

Pela primeira vez na vida, fotografei um estranho a quem pedi que me olhasse nos olhos. Foi assim “seu Severiano, olha pra mim, bem no olho”. Pedi isso três vezes. Acho que ele desaprendeu a ser olhado. Os filhos, a família, as pessoas, ninguém olha seu Severiano como ele é. Eu aprendi que tocar, olhar e sentir o outro vem antes de dar o click.

O título da foto foi dado por Julio que sente um pouco de repulsão por retratos dele mesmo.

Silvia Soldi

Sobre nossa vizinha: Silvia Soldi é um monte de coisas que titularam por ai, tipo historiadora, pesquisadora, colaboradora e afins. Mas ela descobriu seu maior prazer em conhecer a Deus e em seguir Jesus (Yehoshua). E gosta mesmo é de gente, família, amigos, estranhos e gatos!

Cidadeando por Cape Town

Quando a San me pediu pra escrever sobre Cape Town, eu adorei a ideia. Mas aí começou a me bater um nervoso, uma ansiedade, uma coisa… porque desde que eu vim embora de lá e deixei metade do meu coração com um sul-africano, tenho evitado pensar na cidade. Todas as memórias estão lá. Mas acho que vai fazer bem pra minha terapia voltar um pouco às recentes lembranças de um lugar tão mágico.

Eu tive várias leituras da cidade. Intrinsecamente ligadas às experiências que eu vivi. Eu vi uma cidade que poucos turistas vêm, por estar apaixonada hospedada com um local. Fiquei em um bairro de subúrbio, longe do centro e da agitação. E quando eu digo subúrbio, eu não me refiro às “townships”, que nós aqui no Brasil chamamos de “periferia”. Eu me refiro aos subúrbios americanos, aqueles com casas amplas, com gramado na frente, praças, tudo muito arrumadinho e perfeito. Esse lugar se chama Pinelands. Os amigos descolados que moram perto do centro tiravam sarro, dizendo que vivíamos no bairro dos aposentados. Mas foi na paz de Pinelands que brigamos, lavamos roupa, cozinhamos a ceia de Natal, fizemos as pazes e compras do mês; dos tomates cereja que ele adora à linha de costura. Como toda família. Pelo tempo em que eu estive lá, essa era minha família.

Na semana do último Natal, compramos uma árvore, ou melhor, um pedaço de árvore, que era na verdade um galho de um dos muitos pinheiros de Pinelands (por isso o nome). Enfeitamos com bolas coloridas e colocamos nossos presentes embaixo.  E depois da meia noite, levamos comida aos dois únicos sem-teto que eu vi em Pinelands.

Cape Town também é uma cidade de agito e turismo. Mas sem caos. Nos dias de muita nebulosidade, por conta do relevo, as nuvens cobrem a Table Mountain como se fosse literalmente uma toalha de mesa. Todo mundo pára o que está fazendo e olha. A Table Mountain é a referência e a influência dos dias bons, dos dias secos, dos dias nublados, dos dias ruins e dos dias de vento. E como venta em Cape Town! É um vento gelado que vem do fim do mundo.

No centro turístico e comercial tem de tudo. A rua das baladas, bares e cafés escondidos, daqueles onde a gente senta por horas esperando o tempo passar. Tem o Waterfront, com a roda gigante que, quando eu vi, me fez sentir criança de novo. Admito, meus olhos brilharam. E ali você pode tomar um iogurte gelado, andar por entre os barcos, jantar no meu restaurante italiano preferido. E ver focas. E gaivotas. E gastar milhões de Rands com o superfaturado artesanato local.

E tem as praias. As do centro, que você só passa e bate uma foto. As do agito, com gente bonita e endinheirada. A Grande, onde eu queria comprar uma casa e passar todas as tardes da minha vida. A dos pingüins, Boulders Beach, que dispensa qualquer comentário. E a minha, opa, nossa praia: Glen Beach. Onde (perdoe-me, querido), eu vi os homens mais lindos de toda a minha existência. Se quando eu morrer papai do céu me julgar uma boa menina, esse vai ser meu paraíso. Glen Beach e todos os seus surfistas.

E aí como é tudo perto, dá pra fugir pro interior do território de Western Cape. Em meia horinha do centro de CT, você já está na roça. Passeando por vinhedos, vendo cheetas, springboks e zebras. Almoçando preguiçosamente em Stellenbosch, uma cidadezinha universitária com absoluta influência holandesa, como tudo em Western Cape.

Inclusive, o incrível jardim botânico de CT chama Kirstenbosch, mais um nome africâner. Eu daria tudo pra deitar naquela graminha agora e ficar olhando o céu.

O mais impressionante é ver como a região é cosmopolita. Seja em Stellenbosch, onde em uma oportunidade eu almocei em um restaurante cubano (!), seja no elevador do shopping, ouvindo negros conversarem naquela língua com estalos. Seja em todo lugar com todos os indianos onipresentes. E claro, os descendentes de holandeses, ingleses, portugueses… e uma ítalo-brasileira perdida no meio!

E antes que o post vire um livro, não posso deixar de comentar sobre um dos momentos mais especiais da minha vida. Seguindo para o sul de Western Cape, a gente se depara com um parque nacional gigantesco, onde estão abrigadas duas coisas que eu sempre quis saber como era, desde quando eu abri meu primeiro livro de história do Brasil: Cape Point e o Cabo da Boa Esperança. Eu poderia escrever um post inteiro sobre essa experiência. Mas vou tentar resumir: chegar ao ponto onde o oceano Atlântico encontra o oceano Índico é como ir até o fim do mundo. E imaginar aqueles caras há séculos passando por ali com suas caravelinhas. E pensar como nós somos pequenos perto daquela imensidão.

Sim, eu fui até o fim do mundo. E só tem uma pessoa com quem eu poderia compartilhar essa experiência. Eternamente grata a você, a Western Cape, a Pinelands, a Cape Town.

 Nana

Sobre nossa vizinha: “Sou diplomata e legal na maior parte do tempo. Mas posso ser azeda, amarga e adorar um humorzinho negro. 28 anos, paulista, corinthiana, vendi minha alma pra uma multinacional de TI. Virginiana com ascendente em Touro e lua em Capricórnio.”

O fim do mundo, ali.

Mais uma vitória para a anti-cidade

O estado, ao promover a barbárie que foi o massacre contra a comunidade do Pinheirinho, proporcionou mais uma vitória a favor da anti-cidade, esse espaço urbano anti-democrático, onde os pobres são apenas permitidos em seus subempregos e no desconfortável transporte público, tolerados apenas enquanto estiverem servindo os mais ricos. Onde o viciado (pobre) é tratado como caso de polícia e não de saúde pública. Onde aquele que quer falar não tem vez e recebe apenas spray de pimenta, gás lacrimogênio e balas de borracha. A anti-cidade não trata seus cidadão como iguais. Ou até trata os seus com igualdade. O problema é que nem todos são cidadãos. O preto, a puta, o migrante, os sem nomes não vivem na anti-cidade, e sim se escondem em suas franjas, invisíveis, em seus barracos e casa de alvenaria construída aos poucos, com muito esforço, uma fiada de tijolos de cada vez. Alguns podem argumentar a ilegalidade da ocupação, que o império da lei deve predominar. Mas geralmente são essas pessoas as primeiras a rasgar a constituição ao gritar contra os que defendem os direitos humanos. Não entendem o que é viver em uma cidade para pessoas, num espaço realmente humano.

A anti-cidade é onde a especulação imobiliária vence. Organiza seus espaços de acordo com interesses de poderosos, construindo shoppings, prédios de escritórios e condomínios-parques; espaços panópticos, numa urbe cada vez mais panóptica. E os espaços públicos? Eles não existem, apropriados pelo capitalismo para servir como local de passagem, enquanto promovem suas marcas, em ruas transformadas em revistas de moda cheia de propaganda. E nada que esteja fora dos padrões estéticos preconizados pela indústria: bancos anti-mendigos para aqueles que quiserem dormir nas praças, grades em parques para aqueles que ousarem enfrentar o toque de recolher do horário comercial, “rapa” para quem quiser vender aquilo não atende apenas os desejos de consumo dos mais ricos.

E quanto ao ir e vir, direito tão básico quanto o de expressão, é também organizado pelos poderosos da especulação imobiliária, permitido apenas em carrões caros, Que se dane se você está a pé, de ônibus ou pedalando! A rua, apenas para o trânsito cada vez mais doente e parado das bolhas de aço e plástico, movidas a combustíveis fósseis.

Essa é a anti-cidade. Ela exclui, segrega, colocando os pobres em uniformes e mandando para longe ou escondendo tudo aquilo que é indesejado. O pecado dos moradores da Pinheirinho foi se tornarem visíveis, enfrentando uma ordem estabelecida por magnatas da construção civil e especuladores. Foi estarem em cima de um terreno de 180 milhões de reais e não terem apelo para a grande mídia, sempre do lados dos mais poderosos. O maior crime desses homens, mulheres e crianças foi estar no caminho da anti-cidade.

Ps. Escrevo esse texto ouvindo “Soundtrack to the struggle”, do rapper iraqi-britânico Lowkey. Recomendo suas músicas, que denunciam os preconceitos em relação aos muçulmanos e a truculência do estado de Israel contra os palestinos.

 Santo Isaac

Sobre nosso vizinho: verde, ama (todo o tipo de) diversidade, tem fé na humanidade, em movimentos sociais, na bicicleta e na agricultura urbana. Adora cozinhar, principalmente comida japonesa, chinesa, coreana, vietnamita e italiana.

Da perspectiva de quem está aqui

Recebi o convite para escrever algo sobre o assunto do momento: a região compreendida entre a Estação Julio Prestes e a Estação da Luz, conhecida cruelmente como Cracolândia (como se houvesse algo divertido nesse pedaço de terra). Essas duas estações representam uma São Paulo pujante do final do século XIX  e primeiras duas décadas do século XX, que expandia suas fronteiras através da São Paulo Railway e da Sorocabana construindo a mística do Estado que chamariam mais tarde, soberbamente, de “a locomotiva do Brasil”.

Neste principio de século XXI o cenário deste perímetro já não demonstra pujança, mas decadência de um local, que preterido pelas elites construtoras dos grandes casarões inseridos nos lotes idealizados pelos estrangeiros Nothmann e Glete – hoje nome de alamedas –, foi também preterido pelo estado, que partiu de mãos dadas com os ricos.

Lembro-me de quando morei no bairro, na Rua Vitorino Carmilo, nos idos 1993, ainda criança. Minha janela dava vistas à Rua Apa, já um lugar triste naquele ano, onde o problema do crack começou a nascer e se espalhar entre os moradores das redondezas, que criaram seu primeiro ponto de aglomeração na Rua Guaianazes.

O destino me trouxe de volta e hoje trabalho nesse bonito prédio projetado por Christiano Stockler das Neves que abrigaram os escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana. Percebo que o tempo passou para mim, mas o cenário pouco mudou, mas foi ampliado.

Nas últimas três semanas tenho visto na TV parte do que vejo ao vivo; helicópteros chacoalham as janelas da sala que trabalho.

Todos os dias passo de trem por aquele prédio que foi construído pela Lidgerwood pra fugir da febre amarela de Campinas e depois vendido para o Moinho Santista – nunca para o Matarazzo. Pelo vidro hoje vejo a favela do Moinho, uma tragédia que se anunciava, abrigando milhares de pessoas que, talvez por desespero de dormir na rua, montaram suas moradias no perigoso e exíguo espaço entre as duas linhas que ajudaram São Paulo a ser São Paulo. Essa metrópole usada pelas elites que abrem grandes vazios urbanos, depois relegados àqueles que preferem ficar aqui, no vazio abandonado pelo estado, a ter que morar numa periferia distante construída pela COHAB ou pela CDHU. O povo fica com o resto das elites. Restos de casas, restos de planejamento urbano, restos de políticas públicas.

Finalmente, depois dos minutos de velocidade reduzida do trem para evitar atropelamentos dos moradores do Moinho, chego à Julio Prestes. O cenário é de uma plasticidade trágica: pessoas perambulando sem rumo, sujas, às vezes com fome, sendo enxotadas da frente do prédio que trabalho para que o caminhão pipa lave os rastros da miséria humana e o dia seja mais normal que a noite. A Julio Prestes lembra-me as mulheres temas de tantos livros que de dia se comportam sofisticadamente e a noite se transformam em figuras rechaçadas pela sociedade. Dito de outro modo, a Julio Prestes de dia é Maria e de noite é João.

Eu mesma, crítica que sou, já comparei a região da rua Helvétia  com cenas de Resident Evil ou do videoclipe Thriller de Michael Jackson. Não é que eu me divirta, mas é a ficção da vida real. A mesma ficção de ver a necessidade de o estado agora, em ano eleitoral, mostrar serviço. Mas, novamente, o estado prefere mostrar aqui aquele único e mesmo serviço que mostra nas periferias: o da repressão, o do “Sufoco”, como é chamada a operação. Mas qual sufoco? Talvez o sufoco que os engravatados de plantão estão tentando arejar com ações pontuais e ineficazes no longo prazo, quando a eleição é no curto prazo?

No primeiro dia útil de 2012, quando vim ao trabalho de carro porque o prédio do Moinho que sofria risco de desabar e mesmo com 800 kg de dinamite não desabou – era para cair? –, passei pela Helvétia e não havia aquele monte de gente; não era outra limpeza da rua, corriqueira. Onde estavam aquelas pessoas? Logo me veio à mente a imagem da distante câmara de gás nazista ou das recentes Kombis “alquimistas” que tinham a missão de devolver viciados aos seus “lugares de origem”. Mas as pessoas estavam ali, do outro lado da Rua Mauá, ou nas ilhas da Avenida, também nos gramados embaixo da sombra da estátua do Duque de Caxias, feita por Brecheret.

O que vejo aqui é uma tentativa sôfrega e desesperada de fazer alguma coisa, que não se sabe bem o quê, mas que tinha que causar algum impacto. De fato, é menos tenso caminhar pelas ruas e praças da região, mas e aquelas pessoas? O que será feito com elas? Serão escondidas debaixo do tapete de outro bairro abandonado pela elite, para que a Nova Luz atenda aos interesses de alguns “Caco Antibes”?

Não adianta ações de limpeza (urbana ou humana) ou de “revitalização”, que desconsidere as pessoas. Esse lugar não precisa de revitalização. Aqui há muita vida, vidas tristes ou vidas construídas aqui por décadas, vidas de famílias moradoras, vidas de trabalhadores e comerciantes que nunca saíram daqui, vidas que não sabem bem se ainda são vidas, mas vidas. Esse lugar precisa da atenção que o estado proporciona aos bairros ricos e cheirosos para onde as elites migraram. Afinal, alamedas, aqui já tem!

Deborah Neves

Sobre nossa vizinha:  é corinthiana, historiadora, trabalha na (tentativa de) preservação de patrimônio cultural do estado de SP.