Hipopótamos*

Lembram-se dos gregos? Muito se disse e muito se fez em nome dos gregos, eu posso passar o ano inteiro listando as coisas lindas que fizemos com eles, mas infelizmente o número de coisas horríveis vem aumentando.

Horroroso é ouvir sofistas usando a boca de caras gente-fina para proferir seus impropérios. Eles dizem “conhece-te a ti mesmo” como se fosse o jeito chique de dizer “vá cuidar da sua vida mermão”. Citam Hesíodo (outro cara legal, trabalhador que só ele) na frase “sim, e bem primeiro nasceu Caos” para dizer que a vida hoje é uma bagunça espiritual homérica (ou hesiódica, talvez). Pasmem, meus senhores, que já vi usarem Protágoras e seu famoso “o homem é a medida de todas as coisas” para justificar que não temos que dar a mínima para os animais, plantas e afins, pois nós somos a bagaça mais importante do planeta. Nada ganhou, entretanto, de um célebre professor que disse “espertinho esse Platão, dizendo que o rei bom tinha que ser um rei filósofo.

Eu era uma pessoa muito raivosa, quando ouvia essas coisas eu sentia vontade de me matar enquanto mordiscava meu γιρο (uma delícia) no centro de SP.

Em greganças que empreendi pelos dias afora, deparei-me com coisas incríveis como a etimologia, ciência linda. Através dela descobri, por exemplo, que tudo que começa com hipo quer dizer menos ou menor. Imaginem minha alegria ao descobrir que hipoglicemia podia ser grego para açucarzinho, ou doce menor, e ainda que hipocampo era o nome verdadeiro do campinho onde jogava bola com meus amigos quando era criança. Todos os meus sonhos foram demolidos quando meus professores riram das minhas “pertinentes” considerações. A juvenil faísca de descoberta que me acendia as faces de orgulho se esvaía num piscar de olhos.

Eis que descobri que num outro mundo, regido por outras leis muito mais  interessantes, a normatividade da etimologia não podia me afetar. Eu podia fazer o que bem quisesse com os sufixos e prefixos: dava pra tomar café com hipoglicemia e bater uma pelada no hipocampo sem medo de ser feliz. Foi quando percebi que hoje, em SP, (não) nadamos nos hipopótamos da cidade. Claro! O Tietê é um pótamo que já foi muito bonito antes, mas hoje não passa de um hipopótamosujo, um misohipopótamo pra ser mais exato.

Algo deve ser feito a respeito disso! Temos que ser hipopotamófilos! Temos que transformar os nossos lindos rios tupi-guaranis em hiperpótamos bem sadios e felizes (ou, como diriam os gregos, “caroumenos e não mais-ou-menos”), senão acaba-se toda a nossa razão de fazer filosofia nesse mundo. Como assim? Não vê a ligação? Eu explico, Heráclito disse uma vez que “não se banha no mesmo rio duas vezes”. Essa bela citação fez muita gente naquela época pensar bastante, e sem ela não teríamos Platão, Aristóteles, Hesíodo e toda turma. A filosofia é uma ciência, e precisa ser provada e demonstrada para que possa ser válida. Agora me digam como provaremos essa história de se banhar, se quando ousamos entrar nos nossos pótamos corremos o risco de carimbar o passaporte para o Hades!

Proponho fazer placas e piquetes defendendo que a filosofia está por um fio na delicada questão dos rios, ou, podemos fazer a coisa feia que tanto denunciei por uma boa causa: vamos distorcer a bela citação do Heráclito e dizer que um filósofo grego antigo nos apoia. Em Sampa, por razões mais do que esculápias, homem nenhum se banha no mesmo rio duas vezes. Se der certo, nem o rio e nem o homem serão mais os mesmos. Viva o panta rei!

Rodrigo Bravo

Nosso vizinho já possui dois textos publicados conosco, Piano e Previsões Sociológicas para 2013: Jardim Alzira Mesquita.

* Texto publicado originalmente no blog do autor e editado para publicação no Cidadeando.

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Um comentário sobre “Hipopótamos*

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