Gótico: entre Bauhaus, Duby e outras viagens possíveis

Quando eu era criança, gótico era uma pessoa como meu primo, que se vestia de preto e ouvia músicas de bandas estranhas como Bauhaus. Demorou um pouco para eu saber que tinha outro significado, mais antigo. Naquela época, não havia internet (pelo menos para mim) e a fotocópia era totalmente liberada. Foi a partir de um texto de xérox que descobri as igrejas góticas. Tão grandes e altas, em preto e branco. Olhando para a imagem com pouca definição de meu xérox, fazia sentido quando eu ouvia que a Idade Média fora a “idade das trevas”.

Demorou um pouco mais para eu ver uma imagem colorida de uma igreja gótica. Imagine minha surpresa. Foi como se, depois de séculos e séculos, tivessem tirado a poeira dos vitrais, e eu pudesse, enfim, ver a luz passando por eles. Era grandioso, incrível, sublime. Foi Duby que me explicou, através de seu livro O tempo das catedrais, que ali tinha sido criada a primeira arquitetura alinhada a uma teologia. E, convenhamos, como foi eficiente. A catedral gótica passa essa sensação de que o ser humano é pequeno e deus é luz, imaterial e grandioso.

Ainda não tive oportunidade de visitar uma catedral gótica de fato, mas apenas as construções que guardam suas referências aqui no Novo Mundo (mais precisamente a catedral da Sé, em São Paulo, a Catedral de Belo Horizonte e a de Fortaleza). Fico com as ideias de Duby, e reflito sobre isso cada vez que me vejo diante de algo grandioso – e não apenas as catedrais.

Sandra Oliveira

O dia em que eu não quis mais ver cidades

Sou uma urbanoide. Desse tipo que adora forma de cidade, cor de cidade, cheiro de cidade, som de cidade, trânsito de cidade. Chega a ser provinciano, de tanto que gosto. E não é só a minha cidade que me atrai. As outras, grandes, pequenas, sejam quais forem – até as vilinhas têm seu charme. O que me atrai é a forma de urbe. Não que eu só goste de cidade. Mas há algo ai que me fascina. Talvez seja essa profusão de informações, mas não sei dizer ao certo.

Daquela vez eu viajaria para uma não-cidade, uma reserva ambiental. Seria a primeira vez que passaria tanto tempo (quatro dias) totalmente desconectada do espaço urbano. E assim foi.

Era uma trilha de quatro dias e 60 km pelo Vale do Pati, na Chapada Diamantina, caminhando com apenas mais cinco pessoas entre chapadões, montanhas, rios, árvores, pássaros e outros animais que nos observavam. Além do que era palpável, havia a luz da lua, o cheiro da noite, o som das gotas de orvalho, um ar que não se explica. As visões, todas as visões. A cada caminhada, uma nova paisagem se descortinava. E a cada hora, a luz do sol nos presenteava com um colorido diferente.

Às vezes eu olhava para cima e me lembrava daquele seriado, A Muralha. Noutras, era para baixo que eu olhava, e via a terra se abrir, coberta por um tapete verde que parecia não ter fim. Esplendorosa, encantadora, infinitamente robusta. A montanha era uma grande senhora, e se deveria pedir permissão para adentrá-la. Ser sua amiga, sua devota, ou ser devorada por ela. Parecia uma esfinge.

No último dia, andamos cerca de 15 quilômetros. Depois da neblina, choveu enquanto subíamos por um caminho íngreme de pedras. Tive vontade de não continuar e em alguns momentos parecia ouvir a montanha dizer para eu não ir. Mas prosseguimos. Ainda havia paisagens lindas, caminhos rochosos, pequenas árvores, flores em arranjos que lembravam jardins.

Faltavam apenas cerca de dois quilômetros para o fim da trilha, quando ouvi o som da cidade. Meus ouvidos, que haviam se acostumado com o som da fala dos cinco amigos e às vezes de nosso silêncio, deixando apenas o da floresta, assustaram-se com o som da cidade. Música. Vozes. Gritos. Sim, só poderiam ser gritos, por ser tão alto o som. Era uma cidade de cerca de 15 mil habitantes. Mas era demais para mim. Quis voltar para o Vale do Pati, fazer a trilha de volta, na diagonal, em ziguezague, em círculos, em todas as combinações possíveis. Queria, tão somente, de volta o Pati.

Naquele dia, eu não quis mais ver cidades.

Sandra Oliveira


Sobre flâneurs e sonhadores

Talvez seja romântico demais falar sobre encontros e desencontros em um blog que discute a cidade. Mas se pensarmos no quanto nos restringimos a um espaço de segurança, por outro lado nos restam as múltiplas possibilidades de ligação que uma grande cidade oferece, mas dispensamos todos os dias.

Meses atrás, eu estava no final de uma viagem em uma pequena cidade na Chapada Diamantina, Bahia, trocando emails com pessoas que tinha conhecido por lá. Alguns se tornariam grandes amigos, outros, apenas a lembrança de uma boa viagem. Conversando com uma das moças, e depois de perceber coincidências, descobrimos que temos uma amiga em comum. E mais, ela estava no mesmo lugar de minha última festa de aniversário. E estão lá as imagens para provar, até então, uma estranha em segundo plano na fotografia.

E comecei a ver tantos outros estranhos… que passaram e eu não soube quem eram.

Não sou apenas eu que caio nesses devaneios. Baudelaire, que passeava por Paris do século XIX com seu cabelo verde e com uma tartaruga presa a uma coleira, também pensava nisso. Fora o exotismo provocador, sua intenção era ser vagaroso para poder ver a cidade. E talvez para ser visto também. Ora, a calçada, uma invenção do barroco que deveria servir para o passeio do pedestre, cada vez mais se torna apenas um reflexo da movimentada rua de carros, e as pessoas passam apressadas sem olhar a cidade – e sem se olhar.

Baudelaire olhava. Viu até uma passante por quem, em fração de segundos, se apaixonou. Mas ela não estava interessada nesses devaneios. E sumiu na multidão. E ele disse “Ó você que eu teria amado, ó você que bem sabia!” [“Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!” BAUDELAIRE, Charles. “À une passante”. Les fleurs du mal, 1857].

Não tão distante no tempo e no espaço quanto o parisiense dezenovista Baudelaire, na década de 1960 os paulistas do Originais do Samba também cantaram um amor perdido na multidão. Porque mesmo na nossa grande cidade ainda há flâneurs e sonhadores.

Do lado direito da Rua Direita
(Os Originais do Samba) 

Do lado direito da Rua Direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi
mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo
num movimento imenso na rua eu lhe perdi

Cada menina que passava
para o seu rosto eu olhava
e me enganava pensando que fosse você
e na Rua Direita eu voltarei pra lhe ver

Sandra Oliveira