Vida cigana

Nasci quase na estrada, e com o nome Luiza cresci de cidade em cidade. Já adulta, vestida numa saia vermelha com flores, fui batizada por uma badjá (avó) cigana manoushe, que soprou, em meus ouvidos, meu novo nome: Jade Amud. As cores, os perfumes e a emoção que senti são indescritíveis. Se tenho sangue cigano? Não sei, mas sei que tenho e sempre tive uma vida cigana.

Aquele que foi meu pai era mineiro de Ouro Fino, um negociante esperto, dentista, professor de História, um admirável músico, advogado e principalmente um piadista e ótimo cozinheiro; era filho de um português com uma filha de italianos. Quando resolveu investir num posto de gasolina em Matão (SP), apaixonou-se pela jovem de cabelos longos e avermelhados que lá trabalhava.

Minha mãe e sua família eram da Itália, imigrantes que vieram para São Carlos (SP) trabalhar nas lavouras de café e fazer a América. Ela tinha vinte e dois anos, e ele, quarenta e dois. Uniram-se espiritualmente por um xamã, em Campinas (SP). Ela não conseguia segurar os filhos em seu útero, mas em sua quarta tentativa, me concebeu. Fui gerada na estrada, pois meu pai rodava de carro o Brasil inteiro, em busca de terras e negócios.

Então, nasci em Campinas, assim como meus dois irmãos, e com dois anos fomos para São Carlos, cidade fundada pelo Conde do Pinhal, situada num platô paulista, cercada pelas fazendas de café, e que antigamente abrigavam florestas de paineiras e pinheiros do Paraná. Fui imensamente feliz nessa cidade até meus oito anos, quando meu pai resolveu comprar outro posto de gasolina situado na estrada próxima da cidade de Aguaí (SP). Aguaí era muito diferente de São Carlos, cidade muito quente e pequenina, mas logo descobrimos o Clube de Campo da cidade. Lembro-me com carinho dos passeios no Clube de Campo, das amigas de escola e dos almoços no restaurante do posto Jaguari – o posto de meu pai. Admirava os caminhoneiros, e queria ser como eles, só que uma caminhoneira.

Em 1989, meu pai vendeu o posto Jaguari e comprou uma chácara e um sítio em Casa Branca (SP). Assim, fomos viver lá, naquela cidade, onde o centro ainda é uma pequena praça com coreto, rodeada por lindas e conservadas casas do século XIX, com suas ruas estreitas e largas de paralelepípedos. Toda minha adolescência grunge aconteceu nessa cidade.

Outra coisa marcou minha adolescência: naquela época, nossa casa estava sempre lotada em reuniões de amigos, de familiares e de desconhecidos, eram reuniões de cartomância, todas realizadas na grande e iluminada cozinha, cuja janela larga era a moldura de mangueiras e abacateiros, e sabiás, gralhas, anus pretos e pardos, tesourinhas… bem-te-vis… rolinhas… Quem tirava as cartas era minha mãe e às vezes, eu. Minha bisavó, que veio de Gênova, na Itália, era cartomante; minha mãe desenvolveu a linguagem oracular das cartas aos onze anos. E eu aprendi a cartomancia aos doze.

Cresci indo ainda para Goiás, Brasília, Minas Gerais, São Paulo e litoral paulista. Meu pai colocava a gente na caminhonete F1000 dupla e rodávamos longos quilômetros, sempre ouvindo Frank Sinatra, Beatles e Ray Connif.

Meus pais nos ensinaram muitas coisas boas, principalmente a não criarmos raízes, a desvendar lugares; o desapêgo do mundo, a viver sempre o “agora”. Hoje, ao escrever estas saudosas lembranças, vejo em minha mente meu pai sorrindo sempre com aquele filete de ouro em seus dentes fortes, e a voz macia e alta de minha mãe. Ouço em meu coração as nossas gargalhadas na estrada e na cozinha de Casa Branca. Agora, eles devem estar rodando pelo céu, entre planetas e galáxias do universo, e talvez, numa caminhonete.

Luiza Helena Monteiro (Jade Amud)

Sobre nossa vizinha: “Sou pisciana com lua em escorpião e ascendente em escorpião, por isso, sou movida pelas minhas emoções e pela minha intuição. Respiro arte e natureza. Defendo o meio ambiente, os animais, a justiça social e a cultura cigana.”