A vida sobre motocicleta

Sempre desconfiei de tudo que anda sobre duas rodas. Motos, bicicletas, carrinhos de feira. Como poderia alguma coisa dessas se equilibrar? E o conforto? Muito melhor e mais seguro o automóvel e o carrinho de supermercado. E assim passei 29 anos de minha vida até conhecer – de verdade e de perto – uma motocicleta.

Andando de moto a gente percebe muito mais o trânsito. Percebe quando as pessoas estão agindo corretamente ou não. Percebe melhor os buracos da rua, as lombadas pouco sinalizadas. Percebe como anda – ou não – a cidade. Mas também é possível observar melhor os detalhes que estão fora da pista. Os prédios ficam mais próximos, as árvores fazem mais sombra, as cores são mais claras. Andar de moto é quase como um pedestre, no sentido de estar mais em contato com a cidade, longe da bolha que se transforma o automóvel.

Motocicleta até parece ser solitária, mas não é. Uma coisa bacana é a irmandade dos motociclistas. Motociclista é tudo camarada um com o outro. Se um cai, sofre um acidente, logo chegam outros, surgidos do meio dos carros apressados em não pegar trânsito com o acidente. E eles perguntam se está tudo certo, se ajudam e seguem seus caminhos.

E mesmo quando está tudo certo eles se reconhecem. Se no meio da estrada encontram outro motociclista [esse que tem moto porque gosta de moto e porque gosta de viajar de moto], sempre dão uma buzinadinha. É como antigamente, quando as pessoas cruzavam alguém pela rua e diziam “bom dia”. Motociclista vive em outro tempo. Sempre dá pra dar um “bom dia”. E se estão parados, melhor ainda. Conversam com o dono da outra moto, perguntam sobre modelo, motor, quilometragens, idade da moto, se andam pela cidade ou só na estrada. Nunca vi um dono de um pálio parar do lado de uma BMW e perguntar sobre o motor. Mas um motociclista, que parece malvado em sua jaqueta de couro e bandana de caveira na cabeça, sempre pode falar com outro motociclista. Em cinco minutos já estão amigos. Depois sobem em suas motos e seguem viagem.

E como é bom viajar de moto! Nunca me imaginei dizendo isso, mas é. Principalmente se for um dia quente, com vento fresco, numa estrada arborizada… descortinar a paisagem com uma moto é quase como fazer um trekking, mas em velocidade e na estrada. Cada curva, cada subida traz um presente. E por que isso é diferente do carro? Porque na moto a gente sente o vento no corpo, é como se fizéssemos parte dessa paisagem que se apresenta. E sim, quando tem chuva também é legal. Ela até pode assustar às vezes, mas chuva não morde. E confesso, é divertido perceber o tempo mudar, correr pra vestir a capa e continuar a viagem. Claro, é pra quem gosta de emoção na vida. E eu gosto.

Acredito que viajar em sua moto com um amigo em outra moto deve ser muito bacana. Cada um está lá na sua, mas estão conectados. Porque motociclista entende o outro. Eles se percebem, eles têm seus códigos. Mas viajar na mesma moto também é legal. Na moto todos participam, não dá pra ler um livro, ouvir música, dormir. Duas pessoas na mesma moto é algo diferente de duas pessoas no mesmo carro. Andar de moto é estar na moto – e para isso não importa se você é só passageiro.

E se tem algo melhor do que isso? É aprender a gostar de moto estando na garupa de alguém que a gente gosta. É sentir o vento, a paisagem, as mudanças do tempo e, quando tudo estiver gostoso, ali na garupa é possível abraçar a pessoa carinhosamente, como se dissesse “também estou aqui”.

E segue a viagem.

Sandra Oliveira

Pseudo-vida sobre bicicletas

Acabo de receber o convite para escrever sobre o ocorrido na manhã de ontem (02/03/12). A ciclista que foi atropelada e morta na Avenida Paulista, em São Paulo. Me disseram “você que é ciclista, não quer escrever pro Cidadeando?” Neste exato momento, 15 anos da minha vida passaram pela minha memória de ciclista. Ou melhor, vou me intitular pseudo-ciclista, porque de fato, nesses anos todos, eu nunca consegui ser e nem me sentir ciclista nesta cidade. Não há espaço para pedalar tranquilamente por aqui e pedalar não combina com medo.

Desde criança aprendi a associar bicicleta à diversão, liberdade. Quando  adolescente me vi apaixonada por ela e comecei a experimentar a possibilidade de torná-la meio de transporte. As distâncias eram sempre muito longas, íngremes, cheias de buracos. Mas isso de fato não me intimidava. O problema maior eram os veículos motorizados.

Sempre fui daquelas destemidas em cima da bike, que encarou a rua como minha, e sua e nossa. Já discuti muito com motorista de carro, xinguei taxista, motorista de ônibus, quase apanhei de um pedestre num momento em que só a calçada me salvaria de um possível atropelamento. A bicicleta não cabe na faixa de carros, tampouco na de motos, – na de ônibus? – nem na sarjeta, e na calçada, os pedestres te olham feio e, de fato, me sinto mal em pedalar pela calçada.

A primeira coisa que senti ontem quando vi a notícia foi uma náusea seguida de um engasgo. “Podia ter sido eu, minha melhor amiga, meus tantos amigos que pedalam nas ruas.” Depois, lendo o que muitos deles escreveram sobre o assunto, vi que o mesmo sentimento se alastrava.

Nos últimos anos houve um aumento expressivo de ciclistas pelas ruas da cidade. A ação do metrô em permitir o transporte em determinados horários unida às atitudes das seguradoras interessadas na responsabilidade social de sua empresa, talvez tenha sido o que mais deu visibilidade ao ciclista. Alguns shoppings também começaram a acolher a bicicleta, como se pedalar fosse a última moda. Bom, pensamos, antes isso do que nada. Aumentaram também os coletivos de gente que luta por um direito, que na verdade é – ou deveria ser – básico de todo cidadão: usar a cidade.

Me pergunto se há um culpado para o atropelamento da moça. Não sei se dá para apontar um motorista de ônibus como culpado. As pessoas têm usado o espaço da cidade como verdadeira arena. Estão aí sempre dispostas a se degladiarem nas ruas, cada uma brigando para garantir o seu espaço, o seu tempo, o seu dinheiro, o seu bem-estar, a sua segurança. Sentem-se ameaçadas com o mais ínfimo movimento diferente que lhe aparece pela frente ou pelo retrovisor. E no momento de tensão social lá vem a polícia aparelhada para reprimir a manifestação e tentar manter a ordem, a ordem do caos do cada um por si.

Tentando pensar quais seriam o problema e a solução. Pensei em impunidade política, social e por aí vai. Mas acho que a impunidade é humana. É o comodismo, é deixar tudo como está que é melhor. Precariedade cultural. A cultura do ceder o espaço, ceder a vez, desacelerar está ainda muito longe de se instalar. A cultura é instrumento humano e não vai mudar por si só. Não vai desacelerar, não vai pisar no freio, não vai deixar de pensar, sozinha, que “não posso perder nunca pro cara do lado, tenho sempre que sair e passar na frente dele.”

Estamos pagando muito caro com nossas vidas tamanha impunidade. Que o debate ao redor do assunto cresça e ganhemos as ruas sobre nossas bicicletas todos os dias!

Fernanda Donega

Sobre nossa vizinha: (fut)boleira, aspirante a ciclista urbana, geógrafa e bancária

O valor de Z

6:45 am: Raquel passa correndo pelas ruas X, Y e Z

Correndo desesperadamente por entre as ruas de um bairro pós-operário, pós-tudo… saindo da rua X para chegar em Z passando por Y.

Não corro por prazer, mas pela simples necessidade do atraso: não posso perder a hora!

Entre carros com seus motoristas insones, buracos na calçada, jornaleiros, trabalhadores com suas mochilas recheadas de marmitas, ah… a lista de tudo o que compõe minha paisagem!…

Corro, corro, corro… chego a um cruzamento banal entre as ruas Y e Z… sem semáforo, onde os carros passam loucamente, sem olhar, sem parar, sem pensar…MAS HOJE NÃO! OS ENFRENTO! PASSEI NA FRENTE DELES: BREQUE, BARULHO, SUSTO.

Atravesso ilesa: eles pararam, EU VENCI!

6:45 am: William em seu carro na rua Z gritando (K!)

Meu autorama diário, (K!) de rotina! Estou no meu carro – automóvel! – e faço um percurso banal em 1 hora… perco 1 hora da minha vida por causa da lentidão dos carros que se amontoam no meu caminho… talvez se fosse a pé chegaria mais rápido… talvez… ônibus? Não, obrigado. Tenho pena quando eles, os ônibus, param a meu lado e vejo os rostos cansados e esmagados naquela lata cheia de baratas.

Uso carro – automóvel! – e pago conscientimente o preço disso: sentado, sozinho, ouvindo meu som, sofrendo fechadas insanas na lentidão da rua Z.

Andando… lentamente, andando… passo por X… agora em Y… cheguei em Z! Andando… posso passar… passando…. rua sem semáforo… maravilha! Os pedestres que me aguardem…. vou em frente e…engato a primeira e… BREQUE!

(K!), Quem é essa doida que se meteu em frente ao meu carro! Não a atropelei por…. Raquel?

11:45 pm: Raquel em sua casa na rua X

Que dia! Quase perdi a hora, quase fui atropelada, quase… quase… quase… quase tanta coisa ruim!… Sobrevivi!

Agora sento-me em frente ao meu computador… quero ver emails, olhar o facebook… descolar meu pensamento do cotidiano citadino… relaxar na minha casa na rua X esquecendo Y e Z.

Facebookeando: Raquel se encontra com William

William  Meu, hj quase te atropelo… vc correndo para atravessar a rua Z para pegar o busão!

Raquel Era vc?!? kkkkkk! Morreria atropelada sem perceber q vc estava lah…

Horário indeterminado:

O olhar, William e Raquel

ou

O valor de Z

Mergulhados em nós mesmos não nos damos conta dos nós onde nos encontramos.

Corri na sua frente. Brequei para você. Não te notei. Te reconheci.

Na genialidade da rua percebemos que tudo – ou qualquer coisa – é mais do que trânsito.

Na rua Z. Não morri. Não te atropelei.

Na rua Z . Não nos falamos. Nem nos vimos mutuamente.

Neste nó onde o que podemos fazer é parar e andar. Neste nó um momento que passou… resgatado, apenas, no lugar esperado… longe um do outro… ligados por uma rede que não é a nossa.

Quero uma rede entre os postes da rua Z.

                                                                                            Raquel Foresti

* este texto pode ser alterado a qualquer momento, sem aviso prévio ou a menor consideração pelo leitor. 😉