Cidadeando por Cape Town

Quando a San me pediu pra escrever sobre Cape Town, eu adorei a ideia. Mas aí começou a me bater um nervoso, uma ansiedade, uma coisa… porque desde que eu vim embora de lá e deixei metade do meu coração com um sul-africano, tenho evitado pensar na cidade. Todas as memórias estão lá. Mas acho que vai fazer bem pra minha terapia voltar um pouco às recentes lembranças de um lugar tão mágico.

Eu tive várias leituras da cidade. Intrinsecamente ligadas às experiências que eu vivi. Eu vi uma cidade que poucos turistas vêm, por estar apaixonada hospedada com um local. Fiquei em um bairro de subúrbio, longe do centro e da agitação. E quando eu digo subúrbio, eu não me refiro às “townships”, que nós aqui no Brasil chamamos de “periferia”. Eu me refiro aos subúrbios americanos, aqueles com casas amplas, com gramado na frente, praças, tudo muito arrumadinho e perfeito. Esse lugar se chama Pinelands. Os amigos descolados que moram perto do centro tiravam sarro, dizendo que vivíamos no bairro dos aposentados. Mas foi na paz de Pinelands que brigamos, lavamos roupa, cozinhamos a ceia de Natal, fizemos as pazes e compras do mês; dos tomates cereja que ele adora à linha de costura. Como toda família. Pelo tempo em que eu estive lá, essa era minha família.

Na semana do último Natal, compramos uma árvore, ou melhor, um pedaço de árvore, que era na verdade um galho de um dos muitos pinheiros de Pinelands (por isso o nome). Enfeitamos com bolas coloridas e colocamos nossos presentes embaixo.  E depois da meia noite, levamos comida aos dois únicos sem-teto que eu vi em Pinelands.

Cape Town também é uma cidade de agito e turismo. Mas sem caos. Nos dias de muita nebulosidade, por conta do relevo, as nuvens cobrem a Table Mountain como se fosse literalmente uma toalha de mesa. Todo mundo pára o que está fazendo e olha. A Table Mountain é a referência e a influência dos dias bons, dos dias secos, dos dias nublados, dos dias ruins e dos dias de vento. E como venta em Cape Town! É um vento gelado que vem do fim do mundo.

No centro turístico e comercial tem de tudo. A rua das baladas, bares e cafés escondidos, daqueles onde a gente senta por horas esperando o tempo passar. Tem o Waterfront, com a roda gigante que, quando eu vi, me fez sentir criança de novo. Admito, meus olhos brilharam. E ali você pode tomar um iogurte gelado, andar por entre os barcos, jantar no meu restaurante italiano preferido. E ver focas. E gaivotas. E gastar milhões de Rands com o superfaturado artesanato local.

E tem as praias. As do centro, que você só passa e bate uma foto. As do agito, com gente bonita e endinheirada. A Grande, onde eu queria comprar uma casa e passar todas as tardes da minha vida. A dos pingüins, Boulders Beach, que dispensa qualquer comentário. E a minha, opa, nossa praia: Glen Beach. Onde (perdoe-me, querido), eu vi os homens mais lindos de toda a minha existência. Se quando eu morrer papai do céu me julgar uma boa menina, esse vai ser meu paraíso. Glen Beach e todos os seus surfistas.

E aí como é tudo perto, dá pra fugir pro interior do território de Western Cape. Em meia horinha do centro de CT, você já está na roça. Passeando por vinhedos, vendo cheetas, springboks e zebras. Almoçando preguiçosamente em Stellenbosch, uma cidadezinha universitária com absoluta influência holandesa, como tudo em Western Cape.

Inclusive, o incrível jardim botânico de CT chama Kirstenbosch, mais um nome africâner. Eu daria tudo pra deitar naquela graminha agora e ficar olhando o céu.

O mais impressionante é ver como a região é cosmopolita. Seja em Stellenbosch, onde em uma oportunidade eu almocei em um restaurante cubano (!), seja no elevador do shopping, ouvindo negros conversarem naquela língua com estalos. Seja em todo lugar com todos os indianos onipresentes. E claro, os descendentes de holandeses, ingleses, portugueses… e uma ítalo-brasileira perdida no meio!

E antes que o post vire um livro, não posso deixar de comentar sobre um dos momentos mais especiais da minha vida. Seguindo para o sul de Western Cape, a gente se depara com um parque nacional gigantesco, onde estão abrigadas duas coisas que eu sempre quis saber como era, desde quando eu abri meu primeiro livro de história do Brasil: Cape Point e o Cabo da Boa Esperança. Eu poderia escrever um post inteiro sobre essa experiência. Mas vou tentar resumir: chegar ao ponto onde o oceano Atlântico encontra o oceano Índico é como ir até o fim do mundo. E imaginar aqueles caras há séculos passando por ali com suas caravelinhas. E pensar como nós somos pequenos perto daquela imensidão.

Sim, eu fui até o fim do mundo. E só tem uma pessoa com quem eu poderia compartilhar essa experiência. Eternamente grata a você, a Western Cape, a Pinelands, a Cape Town.

 Nana

Sobre nossa vizinha: “Sou diplomata e legal na maior parte do tempo. Mas posso ser azeda, amarga e adorar um humorzinho negro. 28 anos, paulista, corinthiana, vendi minha alma pra uma multinacional de TI. Virginiana com ascendente em Touro e lua em Capricórnio.”

O fim do mundo, ali.

E chega a decoração natalina…

Todo ano, quando começam as decorações de natal na região da Avenida Paulista, eu me sinto aflita. Primeiro, porque eu me dou conta de que o ano está acabando e eu ainda tenho um monte de coisas a fazer. Depois, lembro que meu aniversário nem chegou ainda, então falta um bocado pro ano acabar – mas as lojas já se empenharam em pendurar suas bolinhas vermelhas. Bom, na Paulista, muito mais do que bolinhas vermelhas. Até neve artificial e papai Noel eletrônico tem, na falta de algum que faça plantão por lá. E, com toda a parafernália, vem gente de todo canto, e de repente, São Paulo (ou aquela região) se torna um centro turístico, cheio de gente se estapeando pra ver as decorações, apresentações e bichos de pelúcia gigantes que simpaticamente acenam pra todos que passam.

E, claro, tudo isso com bastante trânsito – nas ruas e nas calçadas. Em 2010, foi registrado o aumento de cerca de 20% no trânsito da região. Isso quer dizer que as pessoas demoravam cerca de meia hora para atravessar os 3 km da Avenida Paulista. Os pedestres alheios às comemorações também sofrem, pois as calçadas ficam lotadas, principalmente no cair da noite, quando as luzes são acesas. E ai de quem simplesmente quer dar uma passada no banco. Tem que concorrer o espaço com os pais e crianças desesperados por uma boa fotografia na melhor decoração do ano.

Segundo o presidente da São Paulo Turismo (SPTuris), Caio Luiz de Carvalho, cultura, lazer e compras são vendidos como os atrativos da capital. Por isso, em 2010, foram investidos cerca de R$ 6 milhões no projeto Natal Iluminado, da Prefeitura, que contempla também outras regiões, como a Ponte Estaiada. Ou seja, o mesmo valor que em 2011 o Governo do Estado aplicou na Virada Cultural Paulista, que atingiu 22 cidades, e próximo dos R$ 8 milhões investidos pela Prefeitura para a Virada Cultural da cidade de São Paulo.

Se a Virada Cultural recebe imensas críticas por concentrar atividades em um dia, deixando o resto do ano com carência de ações culturais em muitas regiões da cidade, falar sobre o investimento da decoração natalina é quase uma ofensa. Claro, são órgãos com naturezas distintas. A Virada Cultural é bancada pela Secretaria de Cultura, e as decorações natalinas pela SPTuris, empresa de turismo e eventos da cidade de São Paulo (possui capital aberto e tem como sócia majoritária a Prefeitura). Mas foi exatamente o presidente da SPTuris que disse que cultura é um dos principais atrativos turísticos da capital. E os dois órgãos respondem à mesma gestão.

Não que eu seja contra o lazer despretensioso, e somente a favor de um ócio criativo ligado a uma formação cultural sólida. Não, eu não imagino que o único barbudo de vermelho que as crianças devem gostar é o tal do Carlos Marques. As pessoas podem sim se divertir com casinhas com chaminé, trenós e a árvore mais alta do que a feita no ano passado. Mas sabendo que a Paulista concentra sede de importantes bancos que também investem pesadamente na decoração natalina, me entristece saber que a atividade mais cultural que acontece na região são os corais com os clássicos natalinos em algumas esquinas.

Não tem jeito, já se passaram quase 30 anos e o tal do espírito natalino não me pegou. Mas eu juro que não é por mera rabugice.

Sandra Oliveira