Piano

Hoje, em uma de minhas andanças pela cidade, fui atingido por um misto de tristeza e indignação. Ia em direção à belíssima Sala São Paulo, uma das maiores e mais importantes casas de concerto daqui, para retirar meus ingressos para o concerto matinal de domingo que vem. Como é do conhecimento de todos, precisamos passar pela estação da Luz, outro marco da cidade, para conseguir chegar lá.

Ao descer na igualmente bela estação, avistei de longe a silhueta de um piano, parte de um projeto cultural do metrô e da CPTM; sendo eu um aspirante a pianista, logo me apressei em sua direção para ensaiar algumas notas e acordes. Para minha surpresa, ao me aproximar e olhar de perto o piano, vi o estado tenebroso em que ele se encontrava: os sustenidos foram arrancados, os pedais foram forçados ao ponto de ficarem frouxos, a oitava central do piano estava muda, e eu percebi que algumas cordas foram estouradas ou propositalmente desafinadas. Lascas foram retiradas do tampo e, ao tocar, pude ouvir o som mais horrível que já tinha ouvido na vida: o som de um piano morto.

Indignei-me, pois algo que deveria ser fonte de alegria, cultura e pura expressão artística nessa cidade tão cinza, havia sido transformado num lixo, num objeto inútil e feio, pelas pessoas que deveriam zelar por, utilizar e se deleitar com ele. Foi aí que percebi a dolorosa simbologia: esse pobre piano é a cidade de São Paulo, essa joia decadente e maltratada que poderia brilhar forte, se cuidada com carinho. Realmente, a silhueta de nossa cidade é bela e inspiradora, mas ao nos aproximarmos, podemos ver os sustenidos arrancados das favelas, os pedais forçados dos carros que infestam e paralisam nosso trânsito caótico, a oitava central muda da cracolândia em estado deplorável, a extensão das cordas estouradas e frouxas dos nossos rios poluídos, as lascas retiradas de nossos prédios históricos, e o som horrível de nossa população que vê tantos problemas e se silencia perante tudo isso: o som de uma cidade morta.

Rodrigo Bravo

Sobre nosso vizinho: Rodrigo Bravo é professor e tradutor de ofício, mas de vez em quando tenta arriscar a vida nas artes. Gosta de escrever poemas no metrô enquanto ouve músicas feitas por gente que já morreu e acha que a linguagem é a coisa mais linda já inventada pelo bicho humano.

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3 comentários sobre “Piano

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