Kassab e a feira da sopa

O conhecido sopão que é servido por 48 instituições, de maneira voluntária, aos moradores de rua da região central de São Paulo pode, até o final do mês, ser proibido pela Prefeitura. Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, quem presta este serviço será passível de punição caso não aceite o ‘convite’  de distribuir o alimento em nove tendas, espaços de convivência social estabelecidos pela Prefeitura para atender a esta população.

Edsom Ortega, secretário de Segurança Urbana, afirmou que as instituições que insistirem em continuar oferecendo comida na via pública para a população de rua serão “enquadradas administrativamente e criminalmente”.

A declaração feita por Ortega foi durante reunião com representantes dos Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg) e da Associação Viva o Centro no dia 20 de junho. Quando foi questionado sobre qual que tipo de crime ou infração administrativa as entidades estariam cometendo, disse que não iria se antecipar.

São Paulo não me orgulha e percebo que raramente serve de modelo a outras cidades. Percebo que as estruturas desta cidade são absurdas, que mesmo ações de cidadania em relação à população de rua são ameaçadas devido a um tipo de visão que as excluem de qualquer interação com as outras populações.

Essas pessoas não vivem nas ruas do centro só porque recebem sopão de graça, e sim porque o centro possibilita que consigam dinheiro e/ou drogas com facilidade. O máximo que vão conseguir é problematizar um pouco a obtenção de comida por parte dos viciados. Por acaso a prefeitura quer matar os viciados de fome? Duvido que consigam, afinal, existem outros meios de se conseguir comida de graça. Se não conseguirem comida gratuitamente, a mendigagem vai aumentar, torrando a paciência da classe média ignorante e alheia aos problemas da cidade.

Sabemos que a prefeitura está desativando os abrigos mais próximos do centro da cidade, na tentativa de mandar os moradores de rua para longe, para as periferias. Os moradores não conseguem mais vagas próximas aos locais em que eles passam o dia. E, ao invés de melhorar a precária situação dessas pessoas, a prefeitura torna a sitação mais complicada para eles. Para alguns, o sopão era a única refeição quente do dia. Agora, em pleno inverno, nem isso terão mais. O que estamos assistindo é uma operação de eliminação dos pobres do centro da cidade, e com a ajuda da secretaria de assistência social. Uma vergonha.

As práticas higienistas no Centro constituem uma demonstração dos reais interesses que governam São Paulo: os da especulação imobiliária e os de demais dos grupos econômicos que praticamente mandam nos governos paulistas.

Erik Gomes

Sobre nosso vizinho: admirador da filosofia de Camus, gosta dos filmes de Bergman e Scola e é fã incondicional do velho rock progressivo dos anos 70.

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