Das sensações que o vento traz ou A saudade de andar de moto

Demorei para aceitar Jeri.

Escolhi viajar para lá para deixar a correria da cidade, esquecer alguns assuntos, acalmar o coração e me divertir num lugar quente e bonito. Fui com expectativa alta, pois muita gente fala bem e diz que lá tudo é lindo.

Apesar de ser bonita, Jericoacoara não me trazia nada de excepcional.  O mar é bonito, com poucas ondas. As lagoas são gostosas, em especial a do Paraíso, com águas calmas e claras. Ali, no quiosque do Paulo, tive meus melhores momentos de sossego, deitada em uma rede na lagoa, sentindo a água e o sol. As dunas também tinham sua beleza, mas eu sempre as comparava com as de Natal ou de Joaquina, com seus passeios “com emoção” ou as descidas em pé no sandboard. Já os cavalos marinhos que vimos no mangue, esses achei muito estranhos. Não se pareciam em nada com os desenhos animados. Os pores do sol no mar são realmente lindos, e talvez sejam fantásticos se vemos acompanhados de alguém especial. Então cai a noite e voltamos à vila, charmosa com suas ruas de areia. Foi depois de muito tempo que comecei a olhá-la com carinho. Era como se tudo fosse bonito, mas nada me surpreendesse como eu desejava.

Como eu queria relaxar, resolvi curtir o que o local tinha a me oferecer e me entreguei à cidadezinha. Me diverti no samba, que dancei até suar. E mesmo sentada, o sandboard também era legal. Descer rapidamente, subir, voltar tantas vezes até cansar, como criança no playground. Arriscar falar em inglês sem medo e até ser tradutora para os holandeses. Beber as caipirinhas exóticas na beira da praia com os alemães. Fazer piadas com as amigas brasileiras. Comer bolo de banana quentinho. Experimentar novos sabores. Ser turista. Aos poucos, quase esquecer porque viajava.

Ah, e o céu era realmente lindo. Tão estrelado e tão percorrido por estrelas cadentes. Haja pedidos para serem feitos! Foi o dono do hostel que me viu admirando o céu e me mostrou a constelação de Escorpião. Por acaso.

E foi por acaso também que, tão longe de casa, encontrei na lagoa crianças de São Paulo que não paravam de cantar Barbara Ann, dos Beach Boys. Será que elas aprenderam a cantá-la no mesmo lugar que eu?

DSCF3237Num dos últimos dias, resolvi fazer novamente o passeio pelas dunas. Na ida, passamos pela beira da praia de bugue. Fazia um sol gostoso e o céu estava azul. O vento bateu no meu rosto e senti algo muito bom. Segurei na barra à frente, fechei os olhos e deixei o vento correr por mim naqueles poucos segundos. Era uma sensação de liberdade e tranquilidade, um misto de contentamento, uma sensação de amor rápida me passou.

Era a sensação de andar de moto.

Abri os olhos sobressaltada, vi a praia, vi o bugue. Poderia ter sentido muita coisa, até uma ponta de tristeza. Mas o que senti naquela hora foi essa sensação que o vento traz. Fechei os olhos novamente e mergulhei naquele calor refrescado.

Pra falar a verdade, na volta derrubei algumas lágrimas, desviadas pelo vento.

Era saudade de andar de moto.

Sandra Oliveira

 

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Azul

Saí de casa apenas para comprar um pacote de coadores de café.

Não de cafeteira, mas aqueles que a gente coloca num suporte sobre um bule.

Não colocava o pé para fora havia dias. Apenas saía a trabalho e obrigações várias, dentre elas: o café.

Se eu pudesse, usava café como colírio.

Há dias que ando como zumbi, sem motivação, me empurrando, sendo empurrada, boca seca, olhos semi-cerrados.

Café, coadores. É, o papo é sobre os coadores.

É nada.

O papo é sobre o caminho, de casa ao mercadinho da esquina.

Tinha acabado de chover, ainda caía pingos da copa das grandes paineiras que sobrevivem no meu bairro.

Eu caminhava, devagar, empurrando, sendo empurrada.

Até… até que naquele dia a mais inerte das pessoas sentiu…eu  senti o azul.

Não havia como. Uma luz, luz azul. Sem sol, nem nuvens escuras demais. Era azul, azul demais.

Hora mágica?

Não eram 6 horas, nem da manhã e nem da tarde. Era apenas o momento após uma chuva.

Me senti envolvida pelas camadas de azul, azul profundo que – quiçá – era emaranhado por um cinza estranho.

E neste azul, esqueci do coador de café.

Lembrei de você.

Você não tem nada a ver com azul: seus olhos não são azuis, seu cabelo não é azul… nem mesmo me lembro de você ter vestido azul alguma vez na vida.

Mas o azul, naquele cinza, me levou a você.

Suspirei, não dava conta de você em mim num caminhar banal até o mercado.

Andei confusa, em ruas confusas, de calçadas e vira-latas confusos… andei em você.

Perdida, já não me lembrava do café… só de você, do azul.

Raquel Foresti