Piano

Hoje, em uma de minhas andanças pela cidade, fui atingido por um misto de tristeza e indignação. Ia em direção à belíssima Sala São Paulo, uma das maiores e mais importantes casas de concerto daqui, para retirar meus ingressos para o concerto matinal de domingo que vem. Como é do conhecimento de todos, precisamos passar pela estação da Luz, outro marco da cidade, para conseguir chegar lá.

Ao descer na igualmente bela estação, avistei de longe a silhueta de um piano, parte de um projeto cultural do metrô e da CPTM; sendo eu um aspirante a pianista, logo me apressei em sua direção para ensaiar algumas notas e acordes. Para minha surpresa, ao me aproximar e olhar de perto o piano, vi o estado tenebroso em que ele se encontrava: os sustenidos foram arrancados, os pedais foram forçados ao ponto de ficarem frouxos, a oitava central do piano estava muda, e eu percebi que algumas cordas foram estouradas ou propositalmente desafinadas. Lascas foram retiradas do tampo e, ao tocar, pude ouvir o som mais horrível que já tinha ouvido na vida: o som de um piano morto.

Indignei-me, pois algo que deveria ser fonte de alegria, cultura e pura expressão artística nessa cidade tão cinza, havia sido transformado num lixo, num objeto inútil e feio, pelas pessoas que deveriam zelar por, utilizar e se deleitar com ele. Foi aí que percebi a dolorosa simbologia: esse pobre piano é a cidade de São Paulo, essa joia decadente e maltratada que poderia brilhar forte, se cuidada com carinho. Realmente, a silhueta de nossa cidade é bela e inspiradora, mas ao nos aproximarmos, podemos ver os sustenidos arrancados das favelas, os pedais forçados dos carros que infestam e paralisam nosso trânsito caótico, a oitava central muda da cracolândia em estado deplorável, a extensão das cordas estouradas e frouxas dos nossos rios poluídos, as lascas retiradas de nossos prédios históricos, e o som horrível de nossa população que vê tantos problemas e se silencia perante tudo isso: o som de uma cidade morta.

Rodrigo Bravo

Sobre nosso vizinho: Rodrigo Bravo é professor e tradutor de ofício, mas de vez em quando tenta arriscar a vida nas artes. Gosta de escrever poemas no metrô enquanto ouve músicas feitas por gente que já morreu e acha que a linguagem é a coisa mais linda já inventada pelo bicho humano.

Santos, terra de pardais

Na única vez que tinha ido a Santos, eu deveria ter cerca de quatro anos. Lembro-me do desespero que senti quando vi minha mãe saindo de maiô na praia na frente de todos!; de um balão grande do He-Man, da areia dura e da água quase cinza.

A imagem mental deve ter sido construída pela visita a outras praias do litoral paulista, somada ao que a gente vê pela tevê e pela internet. O fato é que Santos nunca esteve na minha lista de lugares a serem visitados, já que eu conhecia lindos mares azulados, tão mais atraentes do que nossa vizinha praia urbana. É como um admirador de pássaros: ele vai se interessar pelas aves de plumagens coloridas, vai querer conhecer aquelas que têm os melhores cantos, que conseguem voar mais alto, bater as asas mais rapidamente… Quem é que vai se interessar pelo pardalzinho que pousa ao lado de casa?

E assim era para mim, como acredito que para a maioria dos paulistanos. Santos é, tão somente, a “praia” que divide o litoral norte do litoral sul de São Paulo. E, pra completar, é totalmente urbana. Nada para se fazer por lá.

Foi quando surgiu a oportunidade de verificar mais de perto. Raquel e eu iríamos conhecer uma amiga que chegou até nós por meio do blog, e visitar outra amiga que estava passando os finais de semana com seu pai, morador de Santos. Já tínhamos iniciado o Cidadeando e por isso conhecer a cidade (e não apenas a “praia”) seria uma experiência interessante.

Inicialmente, pensamos em ficar em São Vicente, mas chegando lá, resolvemos ir para Santos mesmo. São Vicente, que foi a primeira vila fundada por portugueses na América, parece carregar ainda um sotaque ibérico nas construções e pequenos detalhes. Inclusive pelo seu Martim Afonso vestido de papai noel. Nada mais português rs. Encantava, mas nosso destino era Santos.

Era um sábado de sol forte e engatamos na caminhada. Se não fosse por ser véspera de um jogo decisivo do time de futebol Santos, e com isso todos os hotéis e pousadas estivessem lotados, talvez tivéssemos corrido pra areia e aproveitado aquele dia tão bonito. Mas como tínhamos que procurar um lugar para dormir, saímos andando pela cidade e aproveitamos para observar seus antigos prédios, suas padarias azulejadas, o museu do café, o bonde, as cores de santos…

Entre os azuis de SantosSim, mesmo sendo como um pardal, Santos guarda cores por ali. Principalmente o azul, cravado no azulejo português. E as construções não são apenas as do século XIX. Ali tem art déco também, prédios das décadas de 50 a 70 (que nossa amiga Day nos explicou: chamam-se “caixotes”), além de novas construções.

E não só de cor e prédio vive Santos. Quando estávamos decididas a encontrar o pessoal na praia e nos estender no sol, passamos pela Quinze de Novembro, rua do centro da cidade, e nos deparamos com um bar onde começaria uma apresentação de Fado e outras músicas portuguesas. Acho que escrevi Fado com letra maiúscula porque esse estilo me remete a algo de senhoridade, algo quase austero. Uma dor, uma angústia, um gemido quase calado. Deve ser difícil ser português. Ser tão intenso e tão angustiado, mesmo vivendo em uma terra tão linda, de castelos, pequenas construções, terra de um sol que se põe tarde e tem ruas com paralelepípedos. E os portugueses de cá, então?! Para os que vivem em Santos, talvez seja um pouco mais fácil… devem viver com essa saudade engasgada, mas com o sorriso e um quase molejo de brasileiro.

Raquel e eu não resistimos e ficamos ali no bar, ouvindo o grupo cantar, enquanto falávamos sobre sua viagem a Portugal e sobre como Santos nos apresentava surpresas.

Depois do fado, fomos enfim para a praia. Mesmo com a areia dura e o mar cinza, ela é alegre. As pessoas não pareciam ter o ar irritado por não estarem diante de um mar verde-azulado; pareciam estar sim felizes, como se fossem paulistanos em um bar da enfumaçada Av. Paulista.

E depois das caipirinhas a beira-mar, Day nos levou ao Samba do Ouro Verde. Um lugar pequeno, afastado do mar, afastado do centro, mas deliciosamente santista. Samba animado, formado por amigos unidos há décadas, que atrai gente de todo canto. E nós lá, ora sambando, olhando com admiração para os músicos, ora para os troféus do time de futebol da associação, expostos no alto. Aquele ar de bairro, de amigos da vila, coisa que eu não vivo em São Paulo. Coisa que achei linda ali.

O mais fantástico é que mesmo sem combinar, fomos conhecer a cidade um dia antes de um jogo de decisão no futebol: Santos e Barcelona, final do mundial de clubes. Imagina Brasil em copa do mundo?… Não, talvez mais forte. Porque era como se fosse um país pequeno, afastado dos centros, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.

Fomos dormir logo (na casa da Day mesmo), pois o jogo seria logo pela manhã. Acordamos cedo e assistimos parte do jogo. O triste foi ver o time da cidade ser derrotado. E quando saímos à rua, santistas calados numa cidade em preto e branco. Mas era Santos, o céu estava azul e o dia era quente, e a cidade continuou desajeitadamente bela.

Engraçado foi perceber essa cidade tão cheia de belezas e nuances, tão perto de nós (paulistas) e tão desconhecida. Raquel e eu prometemos: voltamos a Santos e vamos descobrir outros de seus segredos. Outros azulejos, outros Fados, outros cantos.

Sandra Oliveira

Agarrando Estrelas

Minhas andanças por São Paulo às vezes me levam a lugares que não visitava há algum tempo, e às vezes certos lugares brincam com nossos sentimentos e memórias como se fossem crianças mal criadas.

Andando pelas ladeiras do bairro Vila Mariana, onde depois estar mais perdido do que cego em tiroteio, vi um caminho que me parecia familiar e segui por ele. Encontrei a Rua Machado de Assis, conhecida pelos amigos do movimento rockabilly em São Paulo como a rua do “finado” – e o finado era o Red One. Comprovei com meus olhos que do antigo local de dançantes domingueiras rockabíllicas pouco sobrou. A cor da calçada, que geralmente era usada como ponto de escape para fumantes e dançarinos mais empolgados em dias de casa cheia, ainda é a mesma. A rampinha de entrada que eu costumava usar sempre ao entrar e sair, quase como um TOC, continua lá. As portas de aço não mudaram, mas lá dentro sim: as paredes agora têm um tom bege sem graça, comparado ao vibrante vermelho de antes.

Me senti um pouco mal em ver que o bar não mais existia. Um estranho sentimento saudosista me pegou de surpresa, talvez pelo momento que estou vivendo agora. Não que eu fosse um entusiasta das domingueiras do Red One… longe disso. Minha relação com ele era meio agridoce, oito ou oitenta, como quase tudo em minha vida.

Ali na frente do bar, lembrei da primeira vez em que visitei aquele lugar e de um fato ocorrido no dia que me fez sair de lá sem pensar em voltar – a não ser por algum motivo que realmente valesse a pena. Naquele dia sai de lá me sentido tão mal e tão pra baixo, que formigas me mostravam os fundilhos. Mas um dia arrumei um bom motivo, um que me fez sair de lá saltando alto e agarrando estrelas, numa felicidade digna de um Mário finalmente encontrando sua princesa no oitavo castelo do oitavo mundo… pobre Mário…

Fiquei um tempo em frente ao antigo Red One, agora chamado Armazém da Villa, ao que parece ser, um daqueles mercados de artigos gastronômicos de luxo para pessoas chiques e cheias de frescuras que promovem festas com queijos e vinhos, bem “parecido” com o antigo público ‘amendoim com cerveja’ do antigo bar. Fiquei alguns minutos por lá, observando as mudanças, indo e voltando no tempo. Depois me despedi e segui caminho rumo à Avenida Domingos de Morais, enquanto ajeitava nas costas a velha mochilinha de guerra dos tempos de domingueiras rockabílicas no velho Red One.

Mauro Junior

Sobre nosso vizinho: Desenhista e Ilustrador Freelancer, Produtor de Vídeo Independente, Roteirista, Comediante, Louco por longas caminhadas e Dançarino de Rockabilly nas horas vagas.

Gótico: entre Bauhaus, Duby e outras viagens possíveis

Quando eu era criança, gótico era uma pessoa como meu primo, que se vestia de preto e ouvia músicas de bandas estranhas como Bauhaus. Demorou um pouco para eu saber que tinha outro significado, mais antigo. Naquela época, não havia internet (pelo menos para mim) e a fotocópia era totalmente liberada. Foi a partir de um texto de xérox que descobri as igrejas góticas. Tão grandes e altas, em preto e branco. Olhando para a imagem com pouca definição de meu xérox, fazia sentido quando eu ouvia que a Idade Média fora a “idade das trevas”.

Demorou um pouco mais para eu ver uma imagem colorida de uma igreja gótica. Imagine minha surpresa. Foi como se, depois de séculos e séculos, tivessem tirado a poeira dos vitrais, e eu pudesse, enfim, ver a luz passando por eles. Era grandioso, incrível, sublime. Foi Duby que me explicou, através de seu livro O tempo das catedrais, que ali tinha sido criada a primeira arquitetura alinhada a uma teologia. E, convenhamos, como foi eficiente. A catedral gótica passa essa sensação de que o ser humano é pequeno e deus é luz, imaterial e grandioso.

Ainda não tive oportunidade de visitar uma catedral gótica de fato, mas apenas as construções que guardam suas referências aqui no Novo Mundo (mais precisamente a catedral da Sé, em São Paulo, a Catedral de Belo Horizonte e a de Fortaleza). Fico com as ideias de Duby, e reflito sobre isso cada vez que me vejo diante de algo grandioso – e não apenas as catedrais.

Sandra Oliveira

Do lado de lá da ponta do mar

Nunca escrevi nada sobre Santos porque esta cidade está em mim todos os dias: minha infância, amigos, sonhos, todas as minhas buscas são daqui. Morei muitos anos (muitos mesmo) na Ponta da Praia. Trata-se de um bairro residencial, no canal 7 (santistas se direcionam pelos canais), que não tem nada de muito especial, a não ser o fato de eu ter visto a minha infância e adolescência se desenrolarem por lá. Morei sempre no mesmo prédio, destes em formato de caixotes (três andares, com varandas ou não), só vistos por aqui. Por outro lado, nada acontece na Ponta da Praia, terra de Marlboro aos domingos, um deserto só.

Quando criança, meus irmãos e eu íamos à praia, ou com os nossos pais ou com a mãe de algum coleguinha. E se hoje a praia fica a três quadras daquele mesmo prédio, antigamente, o passeio era distante, quase uma viagem. Então veio a adolescência e a distância se modificou. Não demorávamos tanto para chegar até o mar, em menos de dez minutos meus amigos e eu estávamos tomando sol, deitados em cangas, para curtir a maresia. Sem culpa. Sem preocupações. Ser praieiro podia ser um adjetivo bom no meio dos anos 90.

Mas ainda assim, algo nunca me fez crer que a Ponta da Praia era meu lugar. Estranha constatação. Demorei a saber que a vida em Santos ia para além do canal 7. Assim, comecei a frequentar os bairros próximos de outros canais, comecei a ver outros horizontes caiçaras. Passei a trabalhar perto do canal 3 e fiz a faculdade quase no centro da cidade, mais longe ainda do mar da “Ponta”, passei a me descolar do mundo quase perfeito de um bairro nobre. Sentia um desejo enorme de sair daqueles arredores porque algo realmente não fazia mais sentido ali.

Foi quando, há cinco anos, uma grande amiga quis me levar para conhecer um bairro perto do curvão. É, essa era a referência: o curvão do canal 1. Distante da praia, próximo da entrada da cidade. “Vamos lá, Day, no Marapé, você precisa conhecer uma roda de samba que tem lá, tenho certeza que vai adorar”. Samba? Lá fomos nós… Para a roda de samba do Ouro Verde.

E um grande susto!

Um choque e um achado! Eu estava no Marapé – a partir do morro, ir ao mar a pé… e é assim que acontece…  pois há um morro que cerca-o e, ao segui-lo, chega-se até o mar.

Meu Deus, que lugar é esse? – perguntei, ao colocar os pés na porta. “Quem são essas pessoas?” “Elas (também) são negras?” Olhava ao redor e me reconhecia, depois de vinte e poucos anos, pela primeira vez na vida. Afinal, meus cabelos crespos eram uma exceção onde morava. E foi por muito tempo motivos de chacota. Entre aquelas mansões da Ponta da Praia, entre o vazio das pessoas que mal davam oi ao vizinho, chegar ao Marapé deu lugar para certo acolhimento ao desassossego de outrora. Para além disso, Santos é considerada a primeira cidade abolicionista do Brasil, e os três quilombos existentes residiam nas proximidades desta região. Assim, não é à toa tal concentração de negros. Porém, pasme, essa é a exceção mesmo. Andando pelo miolo de Santos, às vezes até desconfio que existam negros no mundo.

Um fato bem particular do Marapé é a sua identidade musical. Alguns se arriscam a compará-lo com a Lapa carioca. Dezenas de músicos formaram-se no bairro, aprenderam a tocar seus instrumentos de corda no quintal do Seu Lili, fundador da roda de samba do Ouro Verde.

Ouro Verde é o nome da sede do clube. É um clube de bairro. Os associados jogam carteado, bocha ou conversa fora. É… tudo ali existe de uma forma espantosa, as pessoas têm muito orgulho de morar lá e dizem que só sairão quando morrerem.

O bairro já se modificou muito, pelo que os antigos dizem, parte por causa da urbanização sofrida pela cidade inteira. Os chalés de madeira deram lugar aos caixotes e, em breve, com a especulação imobiliária será a vez da chegada dos espigões (edifícios com mais de dez andares). Ainda assim, a velha guarda do samba permanece fazendo história, o que arrisco a dizer: o samba do Ouro Verde não deixará este bairro acabar tão cedo.  Todos os sábado eles estão lá, a roda e seus integrantes: os moradores do bairro, moradores vindos de outros canais, pessoas de São Paulo, adultos, crianças, universitários, adolescentes, o Secretário de Cultura, a funcionária da padaria, a patricinha…

Todos se chegam e logo se contagiam por uma alegria e comoção local porque não formam apenas uma roda de samba. Descobri mais tarde que todos são do Marapé desde a tenra idade, estudavam na mesma escola, alguns casaram com a irmã do amigo da roda. E principalmente, são unidos por uma forte amizade…  mais o elo musical.

Marapé, seu samba e sua gente tornaram-se minha principal referência de Santos. É verdade que a praia guarda pequenos segredos na minha forma de me deslocar nas cidades. Morar no canal 7 engloba toda nostalgia da infância, das brincadeiras com os irmãos e da saudade dos meus pais. Viver num lugar chamado Ponta da Praia esconde um gosto poético, até. Afinal, eu morava onde a praia começa. Quantas vezes fui até aquele pedacinho de mar para levar algum sentimento afoito. Porém, só lirismo não nos preenche. Sempre soube que ali não vivia tudo de mim. Não me reconhecia. O lugar que moramos precisa nos apaziguar. E hoje o samba do Marapé é o meu porto seguro, mesmo longe das águas do mar.

Day Rodrigues

Sobre nossa vizinha: Tem formação em Filosofia, trabalha com produção cultural e gostaria muito de poder viver de seus escritos um dia.

Oh Linda!

Já fazia muito tempo que eu desejava conhecer Olinda. Desde a época em que a expressão Mangue Beat fazia sentido pra mim. Mas se passaram muitos anos – quase dez! – e eu ainda não tinha conhecido tal cidade. Até que em 2009 fiz minha viagem pelo nordeste, e então me hospedei em Olinda.

Era quase como se eu a conhecesse. Suas ladeiras, suas cores, suas formas. Tão familiar, e ao mesmo tempo, tão surpreendente. Do alto da colina, não pude deixar de dizer “Oh linda!”. Era a visão de uma cidade entre árvores e protegida pelo mar. Às minhas costas, um casarão em estilo barroco, alguma igreja, árvores, chão de pedra e gente sorrindo.

Não, Olinda não é como as cidades barrocas mineiras, nem como a litorânea Salvador; não tente comparar. As ladeiras de Olinda carregam as alfaias, as janelas parecem cantar suas músicas, as fachadas coloridas sopram os metais. É ver a cidade e ouvir seus frevos e  batuques.

Alguém disse uma vez “Música é arquitetura líquida… ou a arquitetura não passa de música congelada. No caso de Olinda, não é congelada. Talvez ela seja plasma. Talvez ela seja única.

 Sandra Oliveira

A noite, a cidade e uma sombra qualquer

Antes das onze da noite, Maia chega apressada em seu minúsculo apartamento de 30 metros quadrados na Rua Barata Ribeiro. É quinta-feira, noite quente de lua cheia. Daquelas luas cheias que brilham como se quisessem aparecer mais que as outras. Maia toma um banho rápido, sem lavar os cabelos, coloca um jeans e uma blusinha feita por uma amiga estilista. Pensa em colocar também seu clássico all-star, mas combina mais um tênis sem marca que herdou de sua irmã. Coloca sua mochila mais colorida nas costas e sai.

No caminho, andando pela Paulista, pega o celular, liga para sua namorada. [Ela se mudou mês passado para o Rio de Janeiro, ganhou uma bolsa de mestrado por lá]. Ninguém atende. Chateada, Maia olha para a tela do aparelho. Uma foto, um papel de parede. As duas em um abraço apertado.

“Já faz um mês”.
(…)

O pessoal da faculdade já deve estar no bar, de certo já estão alegres e eufóricos. Maia ainda não. Está atrasada. E já nem se lembra do nome do bar. Pega novamente o celular… e, de repente… a bateria acaba.

“Merda! E agora?”.

Em pleno século XXI e sem mais contato direto com o mundo. Desce a Augusta procurando seus amigos. A cada bar, aumenta a raiva. A cada esquina, a ansiedade. E também o medo da solidão, que vem caminhando vagarosamente, subindo a rua na direção contrária.

“Meu, por que não carreguei o celular antes? Que burra…”.

Talvez quisesse telefonar para seus amigos. Talvez quisesse apenas saber onde estão. Talvez quisesse apenas ouvir Clara dizer oi e sentir que está tudo bem.

“Que será que Clara está fazendo agora?”

Como se fosse num súbito, um sentimento estranho bate. Maia não quer mais encontrar ninguém, tão só ligar para Clara, tão distante, no Rio. A saudade quase estrangula seu peito. A insegurança põe a mão em seu ombro. E a solidão, que subia a rua vagarosamente, também.

Sem vacilar, muda a direção, sobe a rua, caminha de volta pra casa.

Maia era uma garota muito bem relacionada, sempre acompanhada de muitos amigos, tinha um papo ótimo, se dava bem com todos. Sabia o que de melhor acontecia na cena cultural de São Paulo, todos a seguiam em suas ideias e sugestões de eventos. O que estava acontecendo agora então? Por que se sentia tão sozinha? Tão deslocada do eixo da Terra?

Pega o celular novamente, na esperança de haver algum resquício de bateria. Nada. Apenas o maldito reflexo das luzes da rua. Aperta o passo. Quer falar com Clara o mais rápido possível. Quer matar a saudade e o amargo seco que agora saliva.

Maia já podia ver seu prédio quando todas as luzes se apagaram. Apagão, desses que afligem até a maior das cidades. Não há mais energia elétrica na região.

“Puta-que-o pariu!”

Sobe as escadas e entra no apartamento. Liga seu laptop. De fato ainda há bateria, mas não há internet. Não conseguiria falar com Clara. O celular dela não recebe chamadas a cobrar. Talvez sair para comprar um cartão telefônico. Mas não tem dinheiro, somente cartão de débito. E não há energia elétrica para usar o cartão.

O que tinha de perdida, agora se transforma no mais profundo desespero.

Não sabe o que fazer. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Vai até a geladeira, toma um copo de suco. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Põe pra tocar um som da Regina Spektor. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Deita no seu sofá amarelo. A música se cala, com o laptop já sem bateria.

Em seu próprio silêncio, Maia para por cinco minutos. Além de sua respiração ofegante, só escuta o som das buzinas. Incessantes, devido ao caos que se formou lá fora. Abre a janela e vê os carros se acumulando, a cada espaço da rua. Buzinas e mais buzinas. Carros e mais carros. Tudo está caótico. A rua e o seu coração.

Deita novamente no sofá amarelo. Começa a chorar. Precisa chorar. Nem que seja por um minuto.

Horas madrugada adentro, todas as preocupações de Maia já se liquefizeram em lágrimas, que até já se secaram também. Agora não há mais carros buzinando. Talvez já não haja sequer pessoas na rua. De onde está, vê apenas janelas escuras do outro lado. O apagão continua.

Ainda deitada, meio de lado, com o braço direito esticado para fora, olha para a fita colorida do Senhor do Bonfim que está amarrada em seu pulso direito. Lembra-se de como foi boa aquela viagem. Faz um ano e meio, mais ou menos. A fitinha já está bem gasta, mas cheia de estilo. Um semissoriso aparece.

Sonolenta, Maia percebe a sombra do seu braço no piso de taco e tem um sobressalto.

“A energia está voltando?”.

Não, não está.

“Ah, é só a lua.”.

Adormece então, na companhia das sombras da cidade de São Paulo,

sozinha.

Flavio Siqueira
Sandra Oliveira