Viagem a Cuba: um pouco de contexto

É difícil escolher por onde começar a falar sobre Cuba. Mas adianto: foi uma viagem muito especial.

Além de ser um desejo antigo conhecer a Ilha, estamos passando por um momento de transformações políticas e econômicas em Cuba, como as negociações para o fim do embargo econômico.

Para visitar Cuba é preciso mais do que ser um turista comum. É preciso ter os olhos atentos, ouvidos abertos e que a alma não seja pequena. Se souber um pouco da história, ajuda muito.

Trânsito em Havana
Trânsito em Havana

A coisa mais lugar comum que se ouve de visitantes desatentos é que Cuba parou no tempo. Só porque o centro de Havana é dominado por prédios construídos antes de 1959, ano da Revolução. Quiséramos nós, historiadores, que todos os lugares “parassem no tempo” e conservassem muitos de seus prédios históricos. E que houvesse, como há pelo centro velho de Havana, a presença da “Oficina del Historiador”. O que pouca gente sabe é que Vedado, o maior bairro da Cidade, cresceu muito depois da Revolução, e conta com prédios altos, modernos, além da harmonia do urbanismo com qualidade de vida em suas ruas arborizadas.

Mas uma cidade – e um país! – não é feita apenas de prédios, mas principalmente por pessoas. Antes da Revolução, na época da ditadura de Fulgencio Batista, da população de 5,5 milhões, aproximadamente 40% estava desempregada. 30 mil mulheres estavam fichadas como prostitutas (8% da população). Imagine que, em 1959, nascer mulher numa família pobre já tinha praticamente destino. Felizmente Cuba não parou no tempo e hoje há emprego e vida digna para todos. Homens e mulheres.

Um mini shoppping em Havana
Um mini shoppping em Havana

O que não há (muito) é o consumo como conhecemos cá deste lado da economia, onde nós e outros poucos somos privilegiados a desfrutá-lo. Outra diferença (crescente) do Brasil é que nos últimos anos, as classes mais baixas têm tido acesso a crédito, podendo comprar carro, casa, TV 32 polegadas e até um perfume importado dividido em 12 vezes sem juros. Enquanto isso, seus filhos têm aulas em salas lotadas (chegam a 50 alunos por sala em São Paulo) e professores são desrespeitados em greves não reconhecidas.

Em Cuba há escola e educação de qualidade. A ONU disse, e saiu até no site da Globo.

Há médicos também. E medicação. Alimentação subsidiada a todos os cubanos. E não se engane: não verá apenas carros “velhos” por lá. Verá também lindos carros antigos de dar inveja a qualquer admirador. E carros novos franceses e chineses. E outros tantos eletrodomésticos novos chineses, como os da sua casa.

Infelizmente, em Havana ainda não há ciclovia. Também não há uma política de descarte de lixo doméstico, com sacolinhas verdes e cinzas. Aliás, tem gente que sai da padaria sem embrulhar o pão. Mas todos saem com pão, garantido pelo governo.

Los Nardos
Los Nardos

Nem todo cubano almoça em restaurante. Mas em Los Nardos à noite você vai ver famílias com sua melhor roupa para comemorar algum acontecimento especial, ao som de piano, flauta e violino, preço justo e lugar privilegiado em relação aos turistas.

Há também pequenos empreendedores (sim, cubanos), como aqueles que alugam quartos em suas casas para turistas. Havia geladeira e ar-condicionado no quarto onde fiquei, além de empregada na casa, com o patrão chateado porque ele não consegue comprar um perfume importado.  É uma pena que haja gente assim em todo lugar.

Mas há gente generosa. Aliás, é o que eles mais dizem sobre si mesmos, que cubanos são muito generosos. São também simpáticos e adoram conversar. Orgulham-se de ter educação e sistema de saúde garantidos, e de que quase não há violência nas ruas – há dias em que sequer são registrados roubos na província.

Ateliê particular de escultura
Ateliê particular de escultura

O que também se fala é sobre a expectativa do fim do embargo. Imagine que estão a 100 km dos Estados Unidos, e dali não podem importar nada. O comércio é realizado apenas com as nações amigas, e por ser um país pequeno e com pouca indústria, quase tudo deve ser importado de países distantes. Imagine o custo. Agora, imagine que com o fim embargo, poderá ser economizado muito com a facilidade da importação. Bom para os cubanos, que terão acesso a mais benefícios ou mais qualidade de produtos. Bom para os Estados Unidos, que terão um novo mercado consumidor ao lado de casa.

Mas como disse, cubanos são generosos. Fora aqueles poucos que estão interessados no perfume importado, a maioria espera que continuem tendo acesso à educação, saúde, segurança e alimentação a todos. Esperam que a essência do governo não mude.

E assim desejamos nós também 🙂

Sandra Oliveira

Cada lugar que chego*

Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano. Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.

Cecilia Meireles

sobre nossa vizinha:Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”

*Trecho da última entrevista dada por Cecilia Meireles. Disponível na íntegra em http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles

Os portões que meus avós criaram

A princípio, a ideia era viajar para o local onde meu pai nasceu.

Ele é alagoano, de União dos Palmares, terra do Quilombo na Zona da Mata. Mas saiu de lá bem novinho com a família, rumo ao norte do Paraná. Com 18 anos já estava em São Paulo, desbravando a cidade grande. Da terra onde nasceu, pouco se lembra. Meus avós também não me contaram muito, não puderam. Morreram antes de eu completar sete anos. Quem me falou mais foi minha tia, irmã mais velha de meu pai. Ela contava sobre a fazenda que moravam, tão desenvolvida que tinha de tudo o que tinha em uma cidade. Até energia elétrica própria tinha. E o que não tinha, um caixeiro sempre trazia. Brinquedo, máquina de tirar foto, qualquer novidade. E havia o parque com roda gigante e um rádio no centro da praça. Lá tocavam músicas do Cauby Peixoto, que ela parava pra ouvir… Com 18 anos, já estava trabalhando em Recife, e lá a música era o rock.

Minha tia contou também sobre seus avós. Alguns eram filhos de portugueses, família rica que foi perdendo tudo. Outros, eram índios… Essa era a parte que mais me encantava. Porque os índios conhecem segredos. Conhecem plantas. Sabem das coisas que a gente não sabe. Igual minha tia, umbandista.

Cresci me achando mais nordestina do que meu pai, que bebia chimarrão. Na busca por saber o que era nordestino, eu procurei o tal do “mangue beat” na adolescência. Depois, minhas antenas passaram ao forró de rabeca de Pernambuco, os maracatus, as cirandas… E em 2009, conheci Pernambuco.

Era como se eu fosse recifense. Mas não era. Era filha de alagoano.

Foi em 2012 que decidi ir. Estava certa. Vou descobrir o que tem em Alagoas.

Quando falei ao meu pai, me recomendou a não procurar a fazenda. Já não havia mais nada por lá, o dono entrou em depressão após a morte da esposa e hoje já  nem é mais produtiva. Pra chegar lá, só de mototaxi. E como uma moça ir sozinha? Não, não é recomendável.

Então fiz outros roteiros, pronta para descobrir o que tinha em Alagoas. Maceió e suas praias, o interior com a caatinga e o rio São Francisco. Nada de Zona da Mata.

E lá fui.

Cada paisagem linda, cada praia encantadora…! Foi o garçom sorridente do restaurante que disse pra eu esquecer as agências de viagem e procurar uma pessoa da terra. Disse que qualquer alagoano me ajudaria e me mostraria praias muito mais lindas.

Procurei o Museu do Folclore e organizador me disse que pouco se divulga sobre as festas tradicionais, ameaçadas de ficar no esquecimento. E que eu não poderia ver nada. Mas segui viagem.

O rio São Francisco, quanta beleza! Claro, profundo, rodeado de paredões de pedras… E cheio de alagoanos orgulhosos por aquelas belezas. Gente simpática que deu cerveja (muitas), fez piada, elogiou meu carinho com o namorado, convidou pra um bate papo na sua cidade.

E a caatinga, tão linda… Retorcida, espinhosa, cheia de sementes e segredos que uma moça urbana não enxerga. Mas que um senhor de 73 anos, homem do sertão, contou tudo, numa desenvoltura que nos espantou quando disse que era analfabeto. E a hospitalidade? Ah! Aquilo não era hospitalidade, era… era como se fossemos parentes que foram visitá-lo.

E no meio de toda essa gente que puxava papo, eu olhava com a desconfiança paulistana. Mas depois sorria. Era uma gente tão simpática que não vi em lugar algum. Gente, talvez como meu tio, que é amigo de todo mundo e sempre convida pra puxar um bar. Ou gente como meu pai, disposto a explicar tudo, com destreza e simplicidade. Ou gente como minha tia, que conhece as plantas. Ou gente como outros tios, tias, primos de meu pai, distantes, mas que me lembro: dão risada e conversam de um jeito gostoso. Ou como meu avô, com aquele rosto meio afinalado. Eu só tinha três anos, mas eu me lembro. Ele era assim.

No fim, eu entendi. Se tivesse ido à fazenda, tão afastada e tão deserta, não teria encontrado o que é a terra de meu pai, o que é ser alagoano. E se tivesse assistido a uma apresentação de folclore, talvez também não. Ai eu observei que foi nas conversas daquela gente tão receptiva que estava o que eu procurava. E me vi muito distante daquilo, presa em minha desconfiança paulistana. Mas isso não me desanimou. Só me trouxe mais vontade de conhecer aquelas terras, aquela gente.

Alagoanos.

Sandra Oliveira

Compartilhando experiências com bagagens…

Quando comecei a escrever esse artigo, ri de mim mesma… mas é tão bom podermos rir de nós mesmos!

Pois é, soa bastante estranho eu escrever dicas de como arrumar uma mala de viagem, já que, ao longo de minhas viagens, tive situações bem desagradáveis. Nunca fui boa em arrumar malas. Sempre quis levar a minha casa toda, e cada vez que ficava na dúvida entre levar uma peça de roupa a mais para aquela ocasião especial (que sempre acabava não usando) ou deixar outra peça para trás, acabava levando as duas. Meu pensamento sempre era: na dúvida, leva tudo!

E isso me trouxe situações desagradáveis, ao ponto de até atrapalhar alguns momentos de minhas viagens e chegar a pagar excesso de peso no aeroporto (e não foi apenas uma vez).

Os últimos acontecimentos foram na minha viagem à Espanha e ao Marrocos (outubro a novembro de 2011) onde passaria 30 dias viajando. Fiz uma mala de 17 quilos, além da bagagem de mão (aquela malinha especial onde colocamos quase tudo que não coube na mala máster) e minha bolsa. Achei que estava levando poucos quilos, já que, para a Europa, é permitido voar com duas bagagens de 32 quilos e uma bagagem de mão, e eu estava viajando APENAS com uma mala de 17 quilos e ainda havia muito espaço nessa bagagem.

Quando cheguei em Barcelona, minha amiga Cibele, que é uma viajante frequente, olhou para minha bagagem e falou: “Nossa…como irá se movimentar sozinha com essa malona?

E aí a minha ficha começou a cair… pois não havia considerado que estava viajando sozinha, iria me deslocar para diversas cidades e com diferentes meios de transportes e, consequentemente, diferentes limites de peso de bagagem. Entre uma cidade e outra, até mesmo companhia aérea de baixo custo eu iria utilizar, e o limite de peso permitido nessas companhias é de apenas 10 quilos.

Quando cheguei em Granada, aconteceu a primeira experiência ruim com minha malona. O taxi não entrava na rua do albergue que eu iria ficar, uma rua estreita de paralelepípedos. Fui obrigada a levar minha malona, minha bagagem de mão e minha bolsa, sozinha, andando até o albergue. Quando cheguei lá, a recepcionista olhou para minha mala e disse: “MAMA MIA!” Que raiva senti de mim mesma!

Além disso, meu apartamento era no quarto andar e o albergue não tinha elevador, algo comum na Europa. Comecei a observar as europeias viajando com uma única mochila nas costas e isso me causou inveja… Pensava: será que elas também irão passar 30 dias viajando?

Quando cheguei a Sevilha, comecei a ficar mais preocupada, pois já tinha passado alguns perrengues e o pior estava por vir, pois iria cruzar o Estreito de Gibraltar até o Marrocos, e sozinha. Foi aí que decidi despachar minhas coisas por correio, pois ao longo da viagem pela Espanha já havia feito algumas comprinhas, especialmente para o flamenco, e os 17 quilos já haviam se tornado muito mais.

O dia estava chuvoso. Peguei um táxi e fui até o primeiro escritório de correio. Quando cheguei lá, perguntei os procedimentos para despachar minhas coisas ao Brasil e descobri que o correio na Espanha estava com falta de caixas. Sai buscando caixas em outras oficinas e não encontrei nada. Então comecei a entrar em padarias e lojas, atrás de uma caixa (lembrando que estava chovendo muito). Até que consegui uma caixa e fita adesiva. Voltei ao hotel, coloquei tudo dentro e peguei novamente um taxi para voltar ao correio. A caixa estava muuuito pesada, a chuva não parava e ninguém me ajudou. Cheguei ao correio e consegui despachá-la. No final, meu despacho pesava 19 quilos.

Paguei o equivalente a 120 euros, mas foi a melhor coisa que eu fiz, pois viajei com pouquíssima bagagem ao Marrocos e não preciseimais me preocupar com esse tema.

Depois de quase 10 dias viajando pelo Marrocos, cheguei ao meu destino final, que era o deserto do Sahara, me sentindo leve… Ao chegar ao deserto, a primeira paisagem que me deparei foi com uma família de beduínos vivendo com o mínimo… E, incrivelmente, eles são felizes. Perguntei à senhora que estava na tenda e servia o chá aos viajantes, se ela teria coragem de sair de lá, caso tivesse a oportunidade. A resposta foi clara e objetiva: “Não, essa é minha terra, é aqui que sou feliz”. Naquele momento pude entender a mensagem que o Universo estava querendo me mostrar: buscamos a felicidade no lugar errado. Viajar com mais bagagem não tornaria a minha viagem melhor, pelo contrário… É preciso livrar-se dos excessos e buscar a felicidade e a paz dentro de nós.

Sentei, contemplei aquela imensidão de areia e o por do sol no Sahara, senti a brisa bater em meu rosto, orei e conversei com Deus…

Foi a partir dessa experiência que resolvi mudar meus hábitos de viajar com muita bagagem. Comecei a ler artigos, ver vídeos de dicas e passei a praticá-las, tornando minhas experiências muito mais agradáveis.

E mais, fiz uma faxina geral em casa… doei tudo que não usava mais e abri as portas para o novo.

Graziella Esposito

Sobre nossa vizinha: Turismóloga, nascida na cidade de São Paulo. Apaixonada por dança, especialmente o flamenco, e pelas relações humanas. Acredita que viajar é um dos melhores investimentos, pois possibilita o autoconhecimento, novas experiências e descobertas, tornando a vida muito mais interessante.

Águas de Alagoas

A primeira coisa a se considerar para uma viagem a Alagoas é que lá estação das chuvas funciona bem. Ela começa com as águas de março e vai até o fim do inverno. E não são chuvas de dez minutos. Algumas duram a manhã ou tarde toda, ou te pegam de surpresa durante a noite em um passeio pela orla. Então, por experiência própria, digo que a melhor época para conhecer Alagoas, em especial o litoral, é no verão e primavera.

Maceió tem suas belas praias, mas como a maioria das praias urbanas, são impróprias para o banho. Na orla da praia de Pajuçara há um mercado de artesanatos, com grande variedade e preços justos. Indo da Pajuçara para o centro há uma calçada por onde você pode observar o mar, mas quase não há quiosques e pouquíssimos restaurantes. Da Pajuçara para a Ponta Verde já vemos mais movimentação e lugares onde se pode comer e beber.

Mas são fora de Maceió que estão as praias mais bonitas. O ideal é alugar um carro, pois há lugares lindos que as agências não vão. Com uma agência, você conhece pouco, vai num ônibus com um guia feliz que não para de falar, às oito da manhã e tem que sair de lá por volta das três da tarde, quando você está feliz e pronto para esticar mais um pouco.

Indo para o sul de Maceió, estão as conhecidas Praia do Francês, Barra de São Miguel e Gunga. São muito bonitas, com águas verdes e calmas. As Dunas de Marapé são dunas fixas pela vegetação, e por isso, é proibido andar de buggy por lá. Mas vale a vista de uma paisagem quase deserta. Há pouquíssimos quiosques por lá, mas há tanto a opção para quem gosta de curtir um axé na beira da praia quanto caminhar um pouco e chegar a algum ponto em que não se ouve barulhos além do mar. Outra coisa interessante dessa praia é o passeio pelo rio que leva ao mangue e sua vegetação exótica. Pra quem tem coragem, é interessante entrar na lama!

Indo para o norte de Maceió está a belíssima Maragogi e suas piscinas naturais. Devido às chuvas (fui em julho), quando cheguei lá o mar estava escuro e barrento. Após o barco entrar no mar, as águas mudaram de cor, e já nem parecia a mesma área. E de fato não era! O barco entra no mar por cerca de 40 minutos, até chegar em águas calmas e cristalinas… Há peixinhos por ali e é possível até fazer um pequeno mergulho. Maragogi é linda. Mas atenção! Só vale ir à Maragogi se fizer o passeio até as piscinas naturais (R$50,00 no barco). Se não for, vale muito mais conhecer outras praias…

Entre uma praia e outra, passamos por diversas lagoas e lagunas, que deram o nome do Estado. É interessante observar toda essa água que há por lá. Mas chega a ser estranho quando vamos em direção ao interior e nos deparamos com os rios sazonais. No caminho para Piranhas (cerca de 270 km da capital), vimos muitos rios secos, que me davam um misto de curiosidade e pavor. Imagine que aquele rio passa a metade do ano seco!

Piranhas é uma cidadezinha no oeste do Estado. Sua principal atração é o Rio São Francisco, que banha a cidade. Antigamente, o rio tinha apenas um metro de profundidade naquela área. Hoje, represado, chega a 50 metros. Ficamos hospedados na Pousada Trilha do Velho Chico (R$120,00 a diária do casal), à beira do rio. À noite, levamos um vinho (e repelente) para umas espreguiçadeiras, enquanto contemplávamos o rio e as estrelas. Simplesmente fantástico.

Pela manhã, pegando um barco (R$35,00), passamos pelo rio e chegamos a uma base, onde dá para tomar banho em uma prainha deliciosamente límpida. Dalí, é possível fazer uma trilha simples (R$4,00) que passa pelo meio da caatinga e vai até a Grota do Angico, o local onde Lampião foi assassinado. Tive a sorte de fazer a trilha com um grupo de estudantes de uma universidade de Petrolina (PE), dos cursos de História, Geografia e Biologia. Quando o guia acabou o relato sobre a história do Lampião, os pesquisadores praticamente começaram um debate. Foi realmente bacana, palavra de historiadora rs.

O outro passeio imperdível é a visita ao cânion do Xingó. Na verdade, o barco sai da cidade de Canindé de São Francisco (SE). Adentra-se no rio, enquanto observamos a paisagem dos paredões da caatinga. É incrível como há tanta água no rio e a vegetação tão seca lá em cima. Os paredões vão se estreitando até chegar ao cânion. É uma beleza indizível. E, claro, nadar por ali é fantástico, no meio daquela paisagem rústica e diferente. Uma base permite que os banhistas aproveitem a água com profundidade de 25 m. Para os que não sabem nadar, há os coletes salva-vidas e uma “piscina” montada, com apenas um metro. Foi ali que eu fiquei rs.

Um pequeno barquinho (R$5,00) te leva até uma parte mais estreita entre os paredões. O passeio é curto, mas vale a pena. Dali, observamos uma pequena trilha e perguntei ao mocinho do barco como chegar até lá. E ele me falou que deveríamos procurar o Mirante do Talhado, onde é possível observar o cânion de cima.

Após o passeio no cânion, fomos em busca do Mirante. É necessário voltar à base em Canindé de São Francisco, pegar a estrada rumo a Delmiro Gouveia e mais cerca de 10 km de estrada de terra. O Mirante do Talhado é uma pousada com restaurante, construído por um simpático senhor de 73 anos, seu Zé Francisco. Ele toca tudo com a esposa, que cozinha MA-RA-VI-LHO-AS-MENTE e cuida dos três chalés. Seu Zé Francisco diz que seu sonho é construir mais sete chalés, o que faz com as próprias mãos, assim como a piscina que está em construção e outras melhorias para a área.

É seu Zé Francisco também que nos leva pela trilha de até 2,5 km (R$15,00) pelo meio da caatinga, contando como aquela vegetação foi e ainda é útil ao homem da região. Fala sobre sua família, história e meio ambiente, numa desenvoltura que nos deixa espantados quando ele diz que é analfabeto. Com parceiros, é possível fazer rapel, tirolesa e andar de barco também. Nas noites de lua cheia, o pessoal da pousada faz um lual ali, iluminado pela lua com vista para o rio. E de lá de cima, observamos a imensidão do rio. De lá foram gravadas cenas da novela Cordel Encantado, da qual Seu Zé guarda com carinho a carroça utilizada. No alto, o silêncio e a formação nos faz ouvir o eco de animais e o barulho da Terra. Seu Zé Francisco se diz apaixonado pelo rio. E como não poderia ser.

No meio do passeio, uma fina garoa nos presenteou. Seu Zé Francisco nos disse que há dias não chovia e muitos agricultores haviam perdido suas plantações. Torcemos para que não seja uma seca como a de 1932, pela qual seus pais passaram.

Outro local interessante é o bar Show da Natureza. Também fica no sentido de Delmiro Gouveia, mais cerca de 8 km de estrada de terra. De frente para o rio em outro ponto, a gente pode almoçar uma comida local, com peixe, galinha capoeira ou carne de bode. Como toda vegetariana persistente, a gente sempre dá um jeito!

Há outros passeios possíveis pela região, como conhecer a hidrelétrica de Xingó, Delmiro Gouveia, a primeira hidrelétrica do país – Angiquinho e as trilhas da Fazenda Novo Mundo. O único problema para as trilhas é que e isso ainda é pouco explorado, então há poucos guias pela região, e talvez você não consiga fazê-las.

Voltando em direção ao sul do litoral de Alagoas está Penedo, que foi o primeiro povoado do Estado. Com suas igrejas barrocas, casas coloniais e em art déco, a simpática cidade também é banhada pelo rio. Além de ter sido base para D. Pedro se hospedar, é base para quem quer conhecer a Foz do Rio São Francisco.

A saída é pela cidade de Piaçabuçu, a 25 km de Penedo. É possível fazer o passeio de barco (R$35,00) ou de buggy (R$40,00), sendo que nessa opção, os guias dão informações sobre história e meio ambiente. O passeio passa por praias desertas e protegidas até chegar à Foz. À primeira vista, é lindo. O rio claro, calmo e convidativo é encantador. Aos poucos vamos nos dando conta – com a ajuda do guia – de tudo o que ocorreu com o Velho Chico, que foi represado. Anos atrás, o rio era forte e até mesmo petroleiros entravam por ali. Hoje, apenas pequenos barcos. Turvo, era possível ver onde o rio de cor marrom entrava no mar claro. Hoje, o mar entra por baixo do rio e está salgando a água doce. Muitos peixes já não se reproduzem, já que não é possível subir até a nascente. Também os homens não podem subi-lo, já que o rio não tem eclusas. É um misto de maravilhamento e tristeza.

Por tudo, digo apenas que as águas de Alagoas encantam.  E posso dizer que foi uma das melhores viagens que já fiz… Daquelas que você volta já fazendo planos para voltar… Até mesmo para uma pessoa com fobia de nadar, como eu.

Sandra Oliveira

Das viagens ou O dia em que eu estava à procura de passagens pra Pasárgada

Se eu pudesse dizer o quanto me representa uma viagem seria mais fácil. Mas acho que isso não cabe em palavras. Nem em fotos. Talvez em nada que se materialize.

É como a viagem que fiz para a Chapada Diamantina. Ela era linda, perfeita, incrível… grande… muito maior do que tudo o que eu já vi. Maior do que o horizonte calmo e plano. Maior, tão maior que minha alma, e me acalentava como se eu fosse uma filha pequena.

Houve também outras viagens que foram tão preciosas, mas sem ter esse esplendor da grandeza. Buenos Aires era forte, intensa, antiga e elegante. Andar por suas ruas era belo, aconchegante. Quase nostálgico.

Uma coisa que as viagens me proporcionam é segurança. Talvez seja uma falsa segurança, pois me sinto como se estivesse longe dos problemas, longe das dores, longe das crenças, das responsabilidades do cotidiano, longe do que se deve resolver. Meu sonho é poder viajar pra sempre, e nunca mais ter que voltar. Nunca mais recolher o que ficou pra trás e ter que acabar, me desfazer, reconstruir, reinventar.

Talvez minhas viagens sejam mesmo meus escapes.

Eu não me importo.

Prefiro o prazer de minha descoberta a cada viagem do que o dia a dia caótico e sem pausa.

Sandra Oliveira

A vida sobre motocicleta

Sempre desconfiei de tudo que anda sobre duas rodas. Motos, bicicletas, carrinhos de feira. Como poderia alguma coisa dessas se equilibrar? E o conforto? Muito melhor e mais seguro o automóvel e o carrinho de supermercado. E assim passei 29 anos de minha vida até conhecer – de verdade e de perto – uma motocicleta.

Andando de moto a gente percebe muito mais o trânsito. Percebe quando as pessoas estão agindo corretamente ou não. Percebe melhor os buracos da rua, as lombadas pouco sinalizadas. Percebe como anda – ou não – a cidade. Mas também é possível observar melhor os detalhes que estão fora da pista. Os prédios ficam mais próximos, as árvores fazem mais sombra, as cores são mais claras. Andar de moto é quase como um pedestre, no sentido de estar mais em contato com a cidade, longe da bolha que se transforma o automóvel.

Motocicleta até parece ser solitária, mas não é. Uma coisa bacana é a irmandade dos motociclistas. Motociclista é tudo camarada um com o outro. Se um cai, sofre um acidente, logo chegam outros, surgidos do meio dos carros apressados em não pegar trânsito com o acidente. E eles perguntam se está tudo certo, se ajudam e seguem seus caminhos.

E mesmo quando está tudo certo eles se reconhecem. Se no meio da estrada encontram outro motociclista [esse que tem moto porque gosta de moto e porque gosta de viajar de moto], sempre dão uma buzinadinha. É como antigamente, quando as pessoas cruzavam alguém pela rua e diziam “bom dia”. Motociclista vive em outro tempo. Sempre dá pra dar um “bom dia”. E se estão parados, melhor ainda. Conversam com o dono da outra moto, perguntam sobre modelo, motor, quilometragens, idade da moto, se andam pela cidade ou só na estrada. Nunca vi um dono de um pálio parar do lado de uma BMW e perguntar sobre o motor. Mas um motociclista, que parece malvado em sua jaqueta de couro e bandana de caveira na cabeça, sempre pode falar com outro motociclista. Em cinco minutos já estão amigos. Depois sobem em suas motos e seguem viagem.

E como é bom viajar de moto! Nunca me imaginei dizendo isso, mas é. Principalmente se for um dia quente, com vento fresco, numa estrada arborizada… descortinar a paisagem com uma moto é quase como fazer um trekking, mas em velocidade e na estrada. Cada curva, cada subida traz um presente. E por que isso é diferente do carro? Porque na moto a gente sente o vento no corpo, é como se fizéssemos parte dessa paisagem que se apresenta. E sim, quando tem chuva também é legal. Ela até pode assustar às vezes, mas chuva não morde. E confesso, é divertido perceber o tempo mudar, correr pra vestir a capa e continuar a viagem. Claro, é pra quem gosta de emoção na vida. E eu gosto.

Acredito que viajar em sua moto com um amigo em outra moto deve ser muito bacana. Cada um está lá na sua, mas estão conectados. Porque motociclista entende o outro. Eles se percebem, eles têm seus códigos. Mas viajar na mesma moto também é legal. Na moto todos participam, não dá pra ler um livro, ouvir música, dormir. Duas pessoas na mesma moto é algo diferente de duas pessoas no mesmo carro. Andar de moto é estar na moto – e para isso não importa se você é só passageiro.

E se tem algo melhor do que isso? É aprender a gostar de moto estando na garupa de alguém que a gente gosta. É sentir o vento, a paisagem, as mudanças do tempo e, quando tudo estiver gostoso, ali na garupa é possível abraçar a pessoa carinhosamente, como se dissesse “também estou aqui”.

E segue a viagem.

Sandra Oliveira