Os portões que meus avós criaram

A princípio, a ideia era viajar para o local onde meu pai nasceu.

Ele é alagoano, de União dos Palmares, terra do Quilombo na Zona da Mata. Mas saiu de lá bem novinho com a família, rumo ao norte do Paraná. Com 18 anos já estava em São Paulo, desbravando a cidade grande. Da terra onde nasceu, pouco se lembra. Meus avós também não me contaram muito, não puderam. Morreram antes de eu completar sete anos. Quem me falou mais foi minha tia, irmã mais velha de meu pai. Ela contava sobre a fazenda que moravam, tão desenvolvida que tinha de tudo o que tinha em uma cidade. Até energia elétrica própria tinha. E o que não tinha, um caixeiro sempre trazia. Brinquedo, máquina de tirar foto, qualquer novidade. E havia o parque com roda gigante e um rádio no centro da praça. Lá tocavam músicas do Cauby Peixoto, que ela parava pra ouvir… Com 18 anos, já estava trabalhando em Recife, e lá a música era o rock.

Minha tia contou também sobre seus avós. Alguns eram filhos de portugueses, família rica que foi perdendo tudo. Outros, eram índios… Essa era a parte que mais me encantava. Porque os índios conhecem segredos. Conhecem plantas. Sabem das coisas que a gente não sabe. Igual minha tia, umbandista.

Cresci me achando mais nordestina do que meu pai, que bebia chimarrão. Na busca por saber o que era nordestino, eu procurei o tal do “mangue beat” na adolescência. Depois, minhas antenas passaram ao forró de rabeca de Pernambuco, os maracatus, as cirandas… E em 2009, conheci Pernambuco.

Era como se eu fosse recifense. Mas não era. Era filha de alagoano.

Foi em 2012 que decidi ir. Estava certa. Vou descobrir o que tem em Alagoas.

Quando falei ao meu pai, me recomendou a não procurar a fazenda. Já não havia mais nada por lá, o dono entrou em depressão após a morte da esposa e hoje já  nem é mais produtiva. Pra chegar lá, só de mototaxi. E como uma moça ir sozinha? Não, não é recomendável.

Então fiz outros roteiros, pronta para descobrir o que tinha em Alagoas. Maceió e suas praias, o interior com a caatinga e o rio São Francisco. Nada de Zona da Mata.

E lá fui.

Cada paisagem linda, cada praia encantadora…! Foi o garçom sorridente do restaurante que disse pra eu esquecer as agências de viagem e procurar uma pessoa da terra. Disse que qualquer alagoano me ajudaria e me mostraria praias muito mais lindas.

Procurei o Museu do Folclore e organizador me disse que pouco se divulga sobre as festas tradicionais, ameaçadas de ficar no esquecimento. E que eu não poderia ver nada. Mas segui viagem.

O rio São Francisco, quanta beleza! Claro, profundo, rodeado de paredões de pedras… E cheio de alagoanos orgulhosos por aquelas belezas. Gente simpática que deu cerveja (muitas), fez piada, elogiou meu carinho com o namorado, convidou pra um bate papo na sua cidade.

E a caatinga, tão linda… Retorcida, espinhosa, cheia de sementes e segredos que uma moça urbana não enxerga. Mas que um senhor de 73 anos, homem do sertão, contou tudo, numa desenvoltura que nos espantou quando disse que era analfabeto. E a hospitalidade? Ah! Aquilo não era hospitalidade, era… era como se fossemos parentes que foram visitá-lo.

E no meio de toda essa gente que puxava papo, eu olhava com a desconfiança paulistana. Mas depois sorria. Era uma gente tão simpática que não vi em lugar algum. Gente, talvez como meu tio, que é amigo de todo mundo e sempre convida pra puxar um bar. Ou gente como meu pai, disposto a explicar tudo, com destreza e simplicidade. Ou gente como minha tia, que conhece as plantas. Ou gente como outros tios, tias, primos de meu pai, distantes, mas que me lembro: dão risada e conversam de um jeito gostoso. Ou como meu avô, com aquele rosto meio afinalado. Eu só tinha três anos, mas eu me lembro. Ele era assim.

No fim, eu entendi. Se tivesse ido à fazenda, tão afastada e tão deserta, não teria encontrado o que é a terra de meu pai, o que é ser alagoano. E se tivesse assistido a uma apresentação de folclore, talvez também não. Ai eu observei que foi nas conversas daquela gente tão receptiva que estava o que eu procurava. E me vi muito distante daquilo, presa em minha desconfiança paulistana. Mas isso não me desanimou. Só me trouxe mais vontade de conhecer aquelas terras, aquela gente.

Alagoanos.

Sandra Oliveira

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Águas de Alagoas

A primeira coisa a se considerar para uma viagem a Alagoas é que lá estação das chuvas funciona bem. Ela começa com as águas de março e vai até o fim do inverno. E não são chuvas de dez minutos. Algumas duram a manhã ou tarde toda, ou te pegam de surpresa durante a noite em um passeio pela orla. Então, por experiência própria, digo que a melhor época para conhecer Alagoas, em especial o litoral, é no verão e primavera.

Maceió tem suas belas praias, mas como a maioria das praias urbanas, são impróprias para o banho. Na orla da praia de Pajuçara há um mercado de artesanatos, com grande variedade e preços justos. Indo da Pajuçara para o centro há uma calçada por onde você pode observar o mar, mas quase não há quiosques e pouquíssimos restaurantes. Da Pajuçara para a Ponta Verde já vemos mais movimentação e lugares onde se pode comer e beber.

Mas são fora de Maceió que estão as praias mais bonitas. O ideal é alugar um carro, pois há lugares lindos que as agências não vão. Com uma agência, você conhece pouco, vai num ônibus com um guia feliz que não para de falar, às oito da manhã e tem que sair de lá por volta das três da tarde, quando você está feliz e pronto para esticar mais um pouco.

Indo para o sul de Maceió, estão as conhecidas Praia do Francês, Barra de São Miguel e Gunga. São muito bonitas, com águas verdes e calmas. As Dunas de Marapé são dunas fixas pela vegetação, e por isso, é proibido andar de buggy por lá. Mas vale a vista de uma paisagem quase deserta. Há pouquíssimos quiosques por lá, mas há tanto a opção para quem gosta de curtir um axé na beira da praia quanto caminhar um pouco e chegar a algum ponto em que não se ouve barulhos além do mar. Outra coisa interessante dessa praia é o passeio pelo rio que leva ao mangue e sua vegetação exótica. Pra quem tem coragem, é interessante entrar na lama!

Indo para o norte de Maceió está a belíssima Maragogi e suas piscinas naturais. Devido às chuvas (fui em julho), quando cheguei lá o mar estava escuro e barrento. Após o barco entrar no mar, as águas mudaram de cor, e já nem parecia a mesma área. E de fato não era! O barco entra no mar por cerca de 40 minutos, até chegar em águas calmas e cristalinas… Há peixinhos por ali e é possível até fazer um pequeno mergulho. Maragogi é linda. Mas atenção! Só vale ir à Maragogi se fizer o passeio até as piscinas naturais (R$50,00 no barco). Se não for, vale muito mais conhecer outras praias…

Entre uma praia e outra, passamos por diversas lagoas e lagunas, que deram o nome do Estado. É interessante observar toda essa água que há por lá. Mas chega a ser estranho quando vamos em direção ao interior e nos deparamos com os rios sazonais. No caminho para Piranhas (cerca de 270 km da capital), vimos muitos rios secos, que me davam um misto de curiosidade e pavor. Imagine que aquele rio passa a metade do ano seco!

Piranhas é uma cidadezinha no oeste do Estado. Sua principal atração é o Rio São Francisco, que banha a cidade. Antigamente, o rio tinha apenas um metro de profundidade naquela área. Hoje, represado, chega a 50 metros. Ficamos hospedados na Pousada Trilha do Velho Chico (R$120,00 a diária do casal), à beira do rio. À noite, levamos um vinho (e repelente) para umas espreguiçadeiras, enquanto contemplávamos o rio e as estrelas. Simplesmente fantástico.

Pela manhã, pegando um barco (R$35,00), passamos pelo rio e chegamos a uma base, onde dá para tomar banho em uma prainha deliciosamente límpida. Dalí, é possível fazer uma trilha simples (R$4,00) que passa pelo meio da caatinga e vai até a Grota do Angico, o local onde Lampião foi assassinado. Tive a sorte de fazer a trilha com um grupo de estudantes de uma universidade de Petrolina (PE), dos cursos de História, Geografia e Biologia. Quando o guia acabou o relato sobre a história do Lampião, os pesquisadores praticamente começaram um debate. Foi realmente bacana, palavra de historiadora rs.

O outro passeio imperdível é a visita ao cânion do Xingó. Na verdade, o barco sai da cidade de Canindé de São Francisco (SE). Adentra-se no rio, enquanto observamos a paisagem dos paredões da caatinga. É incrível como há tanta água no rio e a vegetação tão seca lá em cima. Os paredões vão se estreitando até chegar ao cânion. É uma beleza indizível. E, claro, nadar por ali é fantástico, no meio daquela paisagem rústica e diferente. Uma base permite que os banhistas aproveitem a água com profundidade de 25 m. Para os que não sabem nadar, há os coletes salva-vidas e uma “piscina” montada, com apenas um metro. Foi ali que eu fiquei rs.

Um pequeno barquinho (R$5,00) te leva até uma parte mais estreita entre os paredões. O passeio é curto, mas vale a pena. Dali, observamos uma pequena trilha e perguntei ao mocinho do barco como chegar até lá. E ele me falou que deveríamos procurar o Mirante do Talhado, onde é possível observar o cânion de cima.

Após o passeio no cânion, fomos em busca do Mirante. É necessário voltar à base em Canindé de São Francisco, pegar a estrada rumo a Delmiro Gouveia e mais cerca de 10 km de estrada de terra. O Mirante do Talhado é uma pousada com restaurante, construído por um simpático senhor de 73 anos, seu Zé Francisco. Ele toca tudo com a esposa, que cozinha MA-RA-VI-LHO-AS-MENTE e cuida dos três chalés. Seu Zé Francisco diz que seu sonho é construir mais sete chalés, o que faz com as próprias mãos, assim como a piscina que está em construção e outras melhorias para a área.

É seu Zé Francisco também que nos leva pela trilha de até 2,5 km (R$15,00) pelo meio da caatinga, contando como aquela vegetação foi e ainda é útil ao homem da região. Fala sobre sua família, história e meio ambiente, numa desenvoltura que nos deixa espantados quando ele diz que é analfabeto. Com parceiros, é possível fazer rapel, tirolesa e andar de barco também. Nas noites de lua cheia, o pessoal da pousada faz um lual ali, iluminado pela lua com vista para o rio. E de lá de cima, observamos a imensidão do rio. De lá foram gravadas cenas da novela Cordel Encantado, da qual Seu Zé guarda com carinho a carroça utilizada. No alto, o silêncio e a formação nos faz ouvir o eco de animais e o barulho da Terra. Seu Zé Francisco se diz apaixonado pelo rio. E como não poderia ser.

No meio do passeio, uma fina garoa nos presenteou. Seu Zé Francisco nos disse que há dias não chovia e muitos agricultores haviam perdido suas plantações. Torcemos para que não seja uma seca como a de 1932, pela qual seus pais passaram.

Outro local interessante é o bar Show da Natureza. Também fica no sentido de Delmiro Gouveia, mais cerca de 8 km de estrada de terra. De frente para o rio em outro ponto, a gente pode almoçar uma comida local, com peixe, galinha capoeira ou carne de bode. Como toda vegetariana persistente, a gente sempre dá um jeito!

Há outros passeios possíveis pela região, como conhecer a hidrelétrica de Xingó, Delmiro Gouveia, a primeira hidrelétrica do país – Angiquinho e as trilhas da Fazenda Novo Mundo. O único problema para as trilhas é que e isso ainda é pouco explorado, então há poucos guias pela região, e talvez você não consiga fazê-las.

Voltando em direção ao sul do litoral de Alagoas está Penedo, que foi o primeiro povoado do Estado. Com suas igrejas barrocas, casas coloniais e em art déco, a simpática cidade também é banhada pelo rio. Além de ter sido base para D. Pedro se hospedar, é base para quem quer conhecer a Foz do Rio São Francisco.

A saída é pela cidade de Piaçabuçu, a 25 km de Penedo. É possível fazer o passeio de barco (R$35,00) ou de buggy (R$40,00), sendo que nessa opção, os guias dão informações sobre história e meio ambiente. O passeio passa por praias desertas e protegidas até chegar à Foz. À primeira vista, é lindo. O rio claro, calmo e convidativo é encantador. Aos poucos vamos nos dando conta – com a ajuda do guia – de tudo o que ocorreu com o Velho Chico, que foi represado. Anos atrás, o rio era forte e até mesmo petroleiros entravam por ali. Hoje, apenas pequenos barcos. Turvo, era possível ver onde o rio de cor marrom entrava no mar claro. Hoje, o mar entra por baixo do rio e está salgando a água doce. Muitos peixes já não se reproduzem, já que não é possível subir até a nascente. Também os homens não podem subi-lo, já que o rio não tem eclusas. É um misto de maravilhamento e tristeza.

Por tudo, digo apenas que as águas de Alagoas encantam.  E posso dizer que foi uma das melhores viagens que já fiz… Daquelas que você volta já fazendo planos para voltar… Até mesmo para uma pessoa com fobia de nadar, como eu.

Sandra Oliveira