Origem e Destino: MARCO ZERO

autoEm 2012, quando ensaiávamos o espetáculo Origem Destino com a Companhia Auto-Retrato, estive trabalhando nas arestas dos poemas que publiquei, ao lado de Caetano Gotardo e Marco Dutra, no livro Matéria. Não pude não misturar um trabalho a outro e, dos ensaios no Marco Zero, em frente à Catedral da Sé, me saiu este poema, em que tento traduzir uma impressão sonora (e um afeto) daquele espaço que habitei tão vivamente por mais de um ano, ao lado dos meus parceiros de trabalho.
Convidada a escrever desta experiência, escolhi este poema. Acho que ele mantém aberto uma espécie de vão entre mim e minha vontade de falar deste espetáculo e, por isso, não poderia ser mais preciso. Nossa última expedição rumo à Santo Amaro neste ano parte dia 17.12.2013, terça-feira, ao meio-dia.

MARCO ZERO

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Aqui, precisamente, no centro da praça onde passa o aprendiz de engraxate, sob uma sirene que cai sobre os carros, os ônibus, a voz que passa a duas quadras, Cinco, sete. Ali, ao lado do salto que corre para o farol que se abre, caem três palitos de fósforo no chão. Não, Ninguém os ouviu cair, e eles não soaram em vão.

Carla Kinzo

Sobre nossa vizinha: É atriz da Companhia Auto-Retrato. Formada em Cinema pela ECA e em Letras, pela FFLCH, é mestranda em Estudos Comparados na FFLCH/USP. Seu livro de poemas, “Matéria”, escrito em parceria com Caetano Gotardo e Marco Dutra, foi publicado pela 7Letras com apoio do ProAC de Primeira Publicação de Livro da Secretaria do Estado de Cultura de São Paulo.

SOBRE O ESPETÁCULO

Origem Destino (nono espetáculo da Companhia Auto-Retrato) propõe ao público um deslocamento pela cidade de São Paulo, partindo da Praça da Sé (Origem) com destino ao bairro de Santo Amaro (Destino), acompanhado por oito atores da Companhia e mais quatro músicos do quarteto instrumental À Deriva, num trajeto que acompanha o fluxo dos principais rios da cidade de São Paulo, como o Anhangabaú, o Saracura (ambos soterrados) e o Pinheiros (um dos mais poluídos do país).

A pesquisa da Companhia Auto-Retrato – que completa uma década de existência –, está conectada à cidade de São Paulo –  sua arquitetura, suas histórias e suas geografias (física e humana) e, tanto a dramaturgia quanto a oImagemcupação artística de suas ações são pensadas por meio da relação com cada lugar, especificamente, a partir de seus habitantes, de suas histórias, de seu desenvolvimento urbano e de sua relação com o rio (entendido aqui como ponto fundamental da estruturação geográfica e social da cidade).

Construído a partir do material recolhido pela companhia no programa performático “Ouço Histórias” – realizado originalmente na Praça da Sé e no Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, no decorrer de 2012 –  Origem Destino é a reelaboração criativa da escuta de narrativas e de depoimentos colhidos na rua neste período que deram origem a personagens ficcionais (baseados em relatos reais).

O espetáculo é dividido em duas partes; a primeira realizada a pé, partindo da Praça da Sé com destino ao Terminal Bandeira e a segunda; realizada de ônibus, seguindo pelo corredor da Avenida Nove de Julho e da Marginal do Rio Pinheiros, até o Terminal Santo Amaro, com duração total de  aproximadamente 2 horas e 30 minutos.

A direção é de Andrea Tedesco e Mauricio Veloso. A dramaturgia é de Marcos Gomes.

O espetáculo é gratuito e, quem quiser nos seguir até Santo Amaro, deve apenas trazer seu bilhete único. Nossa última expedição rumo à Santo Amaro neste ano parte dia 17.12.2013, terça-feira, ao meio-dia.

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O Centro da Cidade Mágica

Quando eu era pequena, meu pai adorava me levar no centro velho de São Paulo. Com ele, conheci o chafariz da Praça da Sé com aquelas águas jorrando tão altas (acho que nem eram tão altas assim, na verdade a minha altura é que era pouca ainda). A Rua Direita, o Mercado Municipal e a Rua General Carneiro sempre foram muito presentes na minha infância. Na época do Natal, os presépios e os enfeites que eram montados em frente às igrejas e também nas praças, tornavam-se um show à parte. Através de meu pai descobri o que realmente era o Pátio do Colégio que todo mundo falava e eu ainda não entendia. Meu pai, culto como sempre foi, era meu guia turístico naquele lugar.

Passou-se o tempo e trabalhei um ano ali no prédio da Secretaria da Fazenda, um prédio enorme, do ladinho da Praça da Sé, e me orgulhei muito por fazer parte de um lugar que meu pai dizia haver “mais funcionários do que populações de algumas cidadezinhas por aí”. Pude constatar que sim. Era uma correria só, gente subindo e descendo entre um andar e outro com todo tipo de documento que se pode imaginar.

De uma das janelas dali, conseguia ver o prédio do antigo Banco Banespa, que já foi um dos símbolos da cidade.

Atrás de mim, todos os dias, no final da tarde, a grande Avenida do Estado se apresentava, com as luzes dos carros me lembrando de que já estava perto da hora de ir embora e que estava bem longe de casa também…

Quanta saudade…

Aquilo tudo é de uma poesia incrível, e hoje, já sem meu pai para me guiar pela cidade, quando levo meu filho pra andar naquelas ruas, sempre vou com a esperança de que esta poesia não se acabe nunca. Mostro para ele tudo que um dia foi mágico para mim, sempre tentando passar o que seu avô, se estivesse aqui, passaria.

Falar do centro de São Paulo pra mim é sempre prazeroso, adoro quase tudo o que tem lá. E cada vez que retorno, vejo que há muito pra se conhecer ainda, mas não só porque há novos lugares ou somente porque a paisagem mudou, mas também porque agora a poesia mudou. Agora eu me tornei a guia. Aquela que talvez também consiga deixar boas lembranças na cabeça de uma criança, exatamente como meu pai conseguiu fazer comigo.

         Silvana Queiroz

Sobre nossa vizinha: Amante da natureza e da boa leitura, busca entendimento nos mais diversos assuntos. Adora risadas longas e se não existisse chocolate, tentaria criá-lo.

Kassab e a feira da sopa

O conhecido sopão que é servido por 48 instituições, de maneira voluntária, aos moradores de rua da região central de São Paulo pode, até o final do mês, ser proibido pela Prefeitura. Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, quem presta este serviço será passível de punição caso não aceite o ‘convite’  de distribuir o alimento em nove tendas, espaços de convivência social estabelecidos pela Prefeitura para atender a esta população.

Edsom Ortega, secretário de Segurança Urbana, afirmou que as instituições que insistirem em continuar oferecendo comida na via pública para a população de rua serão “enquadradas administrativamente e criminalmente”.

A declaração feita por Ortega foi durante reunião com representantes dos Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg) e da Associação Viva o Centro no dia 20 de junho. Quando foi questionado sobre qual que tipo de crime ou infração administrativa as entidades estariam cometendo, disse que não iria se antecipar.

São Paulo não me orgulha e percebo que raramente serve de modelo a outras cidades. Percebo que as estruturas desta cidade são absurdas, que mesmo ações de cidadania em relação à população de rua são ameaçadas devido a um tipo de visão que as excluem de qualquer interação com as outras populações.

Essas pessoas não vivem nas ruas do centro só porque recebem sopão de graça, e sim porque o centro possibilita que consigam dinheiro e/ou drogas com facilidade. O máximo que vão conseguir é problematizar um pouco a obtenção de comida por parte dos viciados. Por acaso a prefeitura quer matar os viciados de fome? Duvido que consigam, afinal, existem outros meios de se conseguir comida de graça. Se não conseguirem comida gratuitamente, a mendigagem vai aumentar, torrando a paciência da classe média ignorante e alheia aos problemas da cidade.

Sabemos que a prefeitura está desativando os abrigos mais próximos do centro da cidade, na tentativa de mandar os moradores de rua para longe, para as periferias. Os moradores não conseguem mais vagas próximas aos locais em que eles passam o dia. E, ao invés de melhorar a precária situação dessas pessoas, a prefeitura torna a sitação mais complicada para eles. Para alguns, o sopão era a única refeição quente do dia. Agora, em pleno inverno, nem isso terão mais. O que estamos assistindo é uma operação de eliminação dos pobres do centro da cidade, e com a ajuda da secretaria de assistência social. Uma vergonha.

As práticas higienistas no Centro constituem uma demonstração dos reais interesses que governam São Paulo: os da especulação imobiliária e os de demais dos grupos econômicos que praticamente mandam nos governos paulistas.

Erik Gomes

Sobre nosso vizinho: admirador da filosofia de Camus, gosta dos filmes de Bergman e Scola e é fã incondicional do velho rock progressivo dos anos 70.