Ver ou enxergar a cidade

De diversas formas, a cidade se manifesta aos olhos e ouvidos de quem nela vive. Prestar atenção nesse discurso pode resultar numa vida mais rica de histórias e significados

Jaguaré, que também é Jaguarex para quem conhece as entranhas do bairro (Foto: Sabrina Duran)

“Todo mundo precisa de um lugar para pensar”, diz a placa de metal fixada no banco de um passeio público em Londres. Numa rua de São Francisco, Califórnia, um colorido mural apresenta cenas cotidianas de casais gays, cenas que se reproduzem aos montes, ao vivo, naquela mesma rua onde está o mural, um conhecido reduto de militância pelos direitos dos homossexuais. No Jaguaré, zona oeste da periferia de São Paulo, a palavra “Jaguarex” escrita em um muro indica que naquele bairro, tanto quanto no Grajaú, “duas laje é triplex”.

A cidade se manifesta de diversas formas, e quem tem sentidos para ver e ouvir, leva uma vida muito mais rica no espaço urbano.

Mensagem em banco público de Londres, Inglaterra. (Foto: Sabrina Duran)
Mensagem em banco público de Londres, Inglaterra. (Foto: Sabrina Duran)

Dia desses conheci uma moça chamada Sandra Oliveira, uma das responsáveis pelo blog Cidadeando, que compila narrativas de pessoas comuns sobre o lugar onde vivem e circulam. São crônicas, ora amenas e felizes, ora tristes, densas – essa ambiguidade das cidades. Todas as narrativas, no entanto, têm em comum a observação do narrador, que detém o olhar em algo que sempre vê, mas daquela vez enxerga. ENXERGA. E por isso o dia comezinho ganha sentido, ou mais sentido.

Enxergar a cidade faz toda a diferença para quem não quer apenas passar por ela, mas sobretudo estar nela. Enxergar a cidade nos faz sentir parte do tecido urbano, e sentir-se parte de uma realidade é condição essencial para transformá-la.

Em reduto de militância gay em São Francisco, Califórnia, um mural fala da vida cotidiana daquele lugar (Foto: Sabrina Duran)
Em reduto de militância gay em São Francisco, Califórnia, um mural fala da vida cotidiana daquele lugar (Foto: Sabrina Duran)

Sabrina Duran

(texto originalmente publicado no blog Na Bike)

Sobre nossa vizinha: Sabrina é jornalista e mora no centro da cidade, lugar que, apesar dos prédios altos, tem a familiaridade e aconchego de uma vila.

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A cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há

José Carlos Ary dos Santos
sobre o autor:

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ensaio sobre uma avenida morta

Gosto muito da Avenida Paes de Barros na Mooca. Há nela, sim, a loucura do trânsito, dos corredores de ônibus, das blitz da lei seca. Só que acredito que as suas árvores no canteiro central a amenizam, as pessoas mais velhas a conversar nas esquinas, padocas e botecos, escolas de inglês, apartamentos e casas, lojas de vestido de noiva, sim… tem shopping e concessionárias mas elas não chegam a estragar a paisagem. A Avenida Paes de Barros é uma avenida viva.

Quando converso sobre essa avenida com meus pais eles dizem que ela já foi mais bonita, que o corredor de ônibus feito na época da Erundina meio que enfeiou tudo (ah, as metrópoles…) e que antes ela era repleta de belos sobrados, grandes casas… as pessoas passeavam pela Paes de Barros e ficavam apontando qual era a casa mais bonita, qual deveria ser a sua casa. Claro que esta Paes de Barros da década de 1960 não existe mais, só que ela ainda possui certa beleza, certa harmonia… e confesso que os prédios de apartamentos de lá, feitos em fins da década de 1970, também são belíssimos.

Em SP também existe outra categoria de avenida: as mortas. Acredito ser o caso da Avenida do Estado, Ricardo Jafet e a Santo Amaro. Na Avenida do Estado, especificamente, há cemitérios e cemitérios de galpões, concessionárias feiosas, calçadas sujas e o rio Tamanduateí bizarramente retificado. Fora isso, temos nela um elevado exclusivo para ônibus chamado Fura Fila, Paulistão, Expresso Tiradentes… enfim, você escolhe um nome. Esse expresso foi ‘decorado’ como se fosse um cano amarelo – cano amarelo caganeira, como diria minha mãe – que, apesar de servir bem aos habitantes da Vila Prudente e São Matheus, esteticamente é medonho. E acredito que só colocaram essa coisa medonha nesta avenida porque já a consideram morta. Nela ninguém caminha, se há vida é apenas nas favelas que as margeiam e raros governos se preocupam com as nossas favelas.

Talvez eu seja romântica mas acredito que os lugares precisam ser agradáveis, mesmo as avenidas, os corredores de ônibus, as padarias. É preciso ter harmonia para haver vida. Na Paes de Barros essa harmonia existe. Pobre Avenida do Estado…