Anjo Terreno – Augusta Lado B

Augusta

Me aproximei com a pergunta de sempre: “oi tudo bem?”, mas ele me surpreendeu com o novo: “não, não ta tudo bem não… e sabe porque? Por causa da solidão”… foi assim que a conversa com o “pernambucano com muito orgulho”, seu Severiano, começou. Ele mora nas ruas do centro e nos conhecemos na minha querida Augusta. Seu Severiano disse que conhece quase todo o Brasil e que mora em São Paulo há muito anos.

Pela primeira vez na vida, fotografei um estranho a quem pedi que me olhasse nos olhos. Foi assim “seu Severiano, olha pra mim, bem no olho”. Pedi isso três vezes. Acho que ele desaprendeu a ser olhado. Os filhos, a família, as pessoas, ninguém olha seu Severiano como ele é. Eu aprendi que tocar, olhar e sentir o outro vem antes de dar o click.

O título da foto foi dado por Julio que sente um pouco de repulsão por retratos dele mesmo.

Silvia Soldi

Sobre nossa vizinha: Silvia Soldi é um monte de coisas que titularam por ai, tipo historiadora, pesquisadora, colaboradora e afins. Mas ela descobriu seu maior prazer em conhecer a Deus e em seguir Jesus (Yehoshua). E gosta mesmo é de gente, família, amigos, estranhos e gatos!

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Cine Belas Artes, mon amour

Na quarta-feira quis ter uma máquina do tempo – Delorean! – e voltar aos dias em que o Cine Belas Artes era vivo.  Estava na Rua Augusta, no cine Unibanco (que agora talvez seja Itaú), e senti uma dor na boca do estômago…

Como senti falta daquelas seis salas onde passavam filmes que quase não temos o direito de ver… com banheiros onde você mijava com vista para a Consolação… com suas cadeiras absurdamente desconfortáveis na sala Aleijadinho….

Eu queria era comprar a pipoca gordurenta na porta, porque era mais barata… conversar com os vendedores de poesia, sua poesia… folhear os posters caros que estavam a venda… rezar para a moça não perceber que minha carteirinha de estudante estava vencida…

Ah, que eu queria o noitão! Meus medos privados em lugares públicos! Queria meus amigos comigo, lá comigo. Queria estar sozinha para depois voar até a Paulista e pairar sobre uma banca de jornal, numa epifania cinéfila.

Queria voltar, voltar… tudo dói, estou aleijada, distante de um lugar de carinho que foi tomado (TOMADO!) pelo auto da propriedade privada.

Raquel Foresti

Românticas, a Augusta e eu

Outro dia eu estava em um bar na Augusta, e resolvi sair antes que os outros. Vendo que eu estava sem carro, uma amiga disse para eu ter cuidado ao andar pela rua. Cuidado? Sim, a Augusta é perigosa.

Nunca vi a Augusta como um lugar perigoso. Pelo total contrário… acho a Augusta um tanto… romântica. Foi ali que começaram meus namoros. Os melhores filmes que eu vi acompanhada foram por aqueles cinemas. E foram naqueles bares que se realizaram os primeiros e tantos outros encontros. Não havia melhor lugar do que lá para ter um dos meus fetiches preferidos: ver o pretendente destrinchar todo seu saber intelectual. Ah, isso é demais romântico! É como a moça que ficava na sacada ouvindo o amado dizer suas trovas. Era nas lojas de CDs que conversávamos sobre música, encontrávamos nossos gostos em comum, planejamos presentes musicais e outras delícias sonoras. Ali dei abraços apertados de saudade depois de pausas e distâncias. E foi por ali que senti mais segura minha mão nas mãos de outra pessoa. Foi nas redondezas que morei quando resolvi me casar. Ou foi nas redondezas que resolvi morar quando me casei. Nessa época, as primeiras pessoas que viam meu rosto cansado depois de um dia de trabalho, ao descer do ônibus, eram os seguranças dos puteiros da região. Eles tinham aquele olhar malicioso de quem paquera uma puta, mas eu me sentia bem e seguia. Era a Augusta, o quintal de minha casa.

Entre cervejas e sorrisos, vimos os bares serem reformados, crescerem, tornarem-se mais bonitos e cheios. Tristemente, vimos o casarão que sonhávamos restaurar ser colocado abaixo para virar um prédio. E, durante o luto do casamento acabado, não andei naquela rua.

Há um ar de sacralidade que envolve a Augusta. Essa sacralidade do romance. Nunca andei pela Augusta com alguém que não houvesse a possibilidade de uma ligação afetiva. Não, jamais. Ah, sim, com amigos é permitido. Porque entre amigos podemos compartilhar esses lugares que nos causam boas sensações.

Eu estava saindo de uma balada e me despedi das pessoas.

_Você vai sozinha? Não quer que eu te leve?

_Não, obrigada. Hoje eu vou sozinha.

A Augusta é romântica demais para eu andar acompanhada com alguém que representa apenas um encontro casual. E, devaneando, caminhei sozinha pela rua.

Sandra Oliveira

A noite, a cidade e uma sombra qualquer

Antes das onze da noite, Maia chega apressada em seu minúsculo apartamento de 30 metros quadrados na Rua Barata Ribeiro. É quinta-feira, noite quente de lua cheia. Daquelas luas cheias que brilham como se quisessem aparecer mais que as outras. Maia toma um banho rápido, sem lavar os cabelos, coloca um jeans e uma blusinha feita por uma amiga estilista. Pensa em colocar também seu clássico all-star, mas combina mais um tênis sem marca que herdou de sua irmã. Coloca sua mochila mais colorida nas costas e sai.

No caminho, andando pela Paulista, pega o celular, liga para sua namorada. [Ela se mudou mês passado para o Rio de Janeiro, ganhou uma bolsa de mestrado por lá]. Ninguém atende. Chateada, Maia olha para a tela do aparelho. Uma foto, um papel de parede. As duas em um abraço apertado.

“Já faz um mês”.
(…)

O pessoal da faculdade já deve estar no bar, de certo já estão alegres e eufóricos. Maia ainda não. Está atrasada. E já nem se lembra do nome do bar. Pega novamente o celular… e, de repente… a bateria acaba.

“Merda! E agora?”.

Em pleno século XXI e sem mais contato direto com o mundo. Desce a Augusta procurando seus amigos. A cada bar, aumenta a raiva. A cada esquina, a ansiedade. E também o medo da solidão, que vem caminhando vagarosamente, subindo a rua na direção contrária.

“Meu, por que não carreguei o celular antes? Que burra…”.

Talvez quisesse telefonar para seus amigos. Talvez quisesse apenas saber onde estão. Talvez quisesse apenas ouvir Clara dizer oi e sentir que está tudo bem.

“Que será que Clara está fazendo agora?”

Como se fosse num súbito, um sentimento estranho bate. Maia não quer mais encontrar ninguém, tão só ligar para Clara, tão distante, no Rio. A saudade quase estrangula seu peito. A insegurança põe a mão em seu ombro. E a solidão, que subia a rua vagarosamente, também.

Sem vacilar, muda a direção, sobe a rua, caminha de volta pra casa.

Maia era uma garota muito bem relacionada, sempre acompanhada de muitos amigos, tinha um papo ótimo, se dava bem com todos. Sabia o que de melhor acontecia na cena cultural de São Paulo, todos a seguiam em suas ideias e sugestões de eventos. O que estava acontecendo agora então? Por que se sentia tão sozinha? Tão deslocada do eixo da Terra?

Pega o celular novamente, na esperança de haver algum resquício de bateria. Nada. Apenas o maldito reflexo das luzes da rua. Aperta o passo. Quer falar com Clara o mais rápido possível. Quer matar a saudade e o amargo seco que agora saliva.

Maia já podia ver seu prédio quando todas as luzes se apagaram. Apagão, desses que afligem até a maior das cidades. Não há mais energia elétrica na região.

“Puta-que-o pariu!”

Sobe as escadas e entra no apartamento. Liga seu laptop. De fato ainda há bateria, mas não há internet. Não conseguiria falar com Clara. O celular dela não recebe chamadas a cobrar. Talvez sair para comprar um cartão telefônico. Mas não tem dinheiro, somente cartão de débito. E não há energia elétrica para usar o cartão.

O que tinha de perdida, agora se transforma no mais profundo desespero.

Não sabe o que fazer. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Vai até a geladeira, toma um copo de suco. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Põe pra tocar um som da Regina Spektor. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Deita no seu sofá amarelo. A música se cala, com o laptop já sem bateria.

Em seu próprio silêncio, Maia para por cinco minutos. Além de sua respiração ofegante, só escuta o som das buzinas. Incessantes, devido ao caos que se formou lá fora. Abre a janela e vê os carros se acumulando, a cada espaço da rua. Buzinas e mais buzinas. Carros e mais carros. Tudo está caótico. A rua e o seu coração.

Deita novamente no sofá amarelo. Começa a chorar. Precisa chorar. Nem que seja por um minuto.

Horas madrugada adentro, todas as preocupações de Maia já se liquefizeram em lágrimas, que até já se secaram também. Agora não há mais carros buzinando. Talvez já não haja sequer pessoas na rua. De onde está, vê apenas janelas escuras do outro lado. O apagão continua.

Ainda deitada, meio de lado, com o braço direito esticado para fora, olha para a fita colorida do Senhor do Bonfim que está amarrada em seu pulso direito. Lembra-se de como foi boa aquela viagem. Faz um ano e meio, mais ou menos. A fitinha já está bem gasta, mas cheia de estilo. Um semissoriso aparece.

Sonolenta, Maia percebe a sombra do seu braço no piso de taco e tem um sobressalto.

“A energia está voltando?”.

Não, não está.

“Ah, é só a lua.”.

Adormece então, na companhia das sombras da cidade de São Paulo,

sozinha.

Flavio Siqueira
Sandra Oliveira

Criolo e seus públicos de São Paulo

Sim! Criolo, que se diz cantor de rap, tem me encantado, não apenas por suas músicas, sua performance, seu dinamismo para transitar entre os ritmos (o próprio rap, samba, dub e outros), mas também – e exatamente devido a esse dinamismo – por conquistar públicos muito distintos. É aquela coisa de que falei numa frase bem generalista “Ele conquista tanto a ‘perifa’ quanto a rua Augusta”.

Pouco tempo depois de discutir rapidamente com a Raquel, encontramos uma matéria na Folha dizendo que Criolo expandiu os limites de seu rap e fez um show na Rua Augusta.

Quando falei essa frase tinha claro já a que grupo pertencemos (Raquel e eu). É o da Augusta. Não conhecemos o Criolo a partir de onde moramos, mas apenas quando ele alcançou outros públicos. E disse “da Augusta”, ainda que o show que programávamos ir fosse em Pinheiros ou Vila Madalena, pois a chegada desse rapper ali me soava muito mais como um eco de sua aparição naquela rua. Fosse há dez anos, faria sentido dizer “público da Vila Madalena”. Mas hoje, pra mim, ele conquista o público da Augusta, aquele lugar aonde hoje as pessoas vão à procura de novos sons, misturas, novas cores, luzes, expressões. Isso quer dizer… eu estava tentando mapear os públicos na cidade. Como se fosse tão simples.

Talvez ele conheça muito bem esse público. Talvez ele seja também esse público, ainda sendo periferia.

Uma das diferenças – sem tirar o mérito de outros artistas que aparecem pela famigerada rua – é como bem disse Fernanda Mena, jornalista da folha: “para além do ‘hype’, de ser o atual objeto do desejo, na carne e na música, MC Criolo tem, sim, o que dizer e mostrar.” E sem meias palavras, ele não deixa de dar tapas na cara de aspirantes a intelectuais, frequentadores da Augusta – grupo que talvez eu me enquadre.

É assim que vejo a letra de Sucrilhos – nó na Garganta. É uma troca. Ele apresenta o seu som modernoso e sua performance que agrada tanto aos augustanos. Mas não deixa de passar seu recado de rapper da periferia.

Sandra Oliveira

Perifa Augusta

 
Frase de San Brigitte: Criolo atinge tanto a “Perifa” como a rua Augusta………….
 
Moro na Vila Prudente (VP!)… a 15 minutos do centro… e quando era criança, em inícios da década de 90, meu pai ainda dizia que iria à cidade quando iamos ao centro.
 
A VP já foi uma das periferias da cidade, um dos primeiros bairros operários ao lado da Moóca…. só que a cidade cresceu tanto que a periferia se expandiu… e mesmo o que não era mais periferia na década de 90 (como a VP), ainda não era cidade… a cidade era feita para quem era do centro.
 
Mas, aquele centro passou a ser periférico e a periferia se tornou a cidade.
 
Cidade-Perifa. Cidade-Augusta. Augusta-Perifa. Perifa-Augusta.
 
Criolo traduz essa posse. 
 
Sou perifa, sou cidade.
 
Raquel Foresti