Por onde andei

Quando li o texto da Raquel sobre Portugal, senti algo como um alívio. Pensei em escrever um comentário, mas as ideias pulularam e veio o texto. Sobre nós transferirmos nossas sensações para os lugares, e eles se transformarem em símbolos de nossas alegrias ou de nossas tristezas.

Quando Raquel voltou de Lisboa, eu fiquei preocupada. Na época, pensava que vinha daquela cidade e de seus habitantes toda a angústia que ela sentia. Cheguei a ter raiva de Portugal. Agora, seis anos depois, ela escreve sobre como a cidade era bela. E que, mesmo entre os lusitanos tão difíceis de se relacionar, o idioma era o que trazia calma para sua alma tão cheia de conflitos. Não, não era culpa da cidade e seus habitantes. Ao escrever sobre isso, Raquel fez as pazes com Portugal. E eu revi minha ideia sobre a cidade, por consequência.

Também já passei por isso em diversas situações. A primeira vez que estive em Parati, a cidade parecia sem graça, sem cor, monótona e quase artificial. Não, eu não acreditava que aquela sensação tivesse relação com o momento conturbado de meu relacionamento. Dois anos depois, me propus o desafio de novamente visitar a cidade. E qual foi a minha surpresa quando vi uma Parati iluminada, onde cada rua trazia uma história, um conto, onde cada doce mordido era um sorriso, onde até a chuva parecia ser romântica, por nos obrigar a usar o mesmo guarda-chuva. Talvez fosse reflexo do novo momento apaixonado que eu vivia.

E também aconteceu em Buenos Aires. Da primeira vez que eu estive lá, a cidade me parecia muito provocadora e insinuante. Queria me desafiar a ir onde eu não podia ir, e me parecia ser o melhor lugar do mundo. Quatro anos depois estive lá novamente. Então solteira e mais segura, a cidade me pareceu muito mais inofensiva. Estava desmistificada. Se não fosse por ter as melhores milongas, jamais voltaria à cidade portenha.

Algo assim também aconteceu em São João del Rey. Estive uma vez de passagem, mas nem sabia direito onde estava. Nas poucas horas de minha visita, apenas olhei algumas de suas ruas. Uma esquina, em especial, me chamou atenção. Era a quina de duas casas antigas com uma igreja ao fundo, de paredes tão brancas que pareciam brilhar. Era lindo. Uma sensação de euforia me tomou. Anos depois, programei uma viagem a São João del Rey, sem me lembrar de que já tinha passado por lá. A viagem, que parecia estar fadada à minha tristeza, mudou completamente quando cheguei em frente à mesma esquina. Foi como se meu coração recebesse uma pancada de adrenalina, e tive a sensação de viver um déjà vu. Fiquei paralisada, olhando. Não tinha nada de especial aquela quina de paredes, mas incrivelmente sua luz me trazia uma alegria impronunciável. Então eu me lembrei de que estivera lá anos atrás, e tudo foi explicado: nada de déjà vu. Mas nem por isso a viagem foi ruim. Pelo contrário, foi um dos melhores finais de semana que passei naquele ano.

Já falei sobre a Augusta e das sensações que ela me dá. Estou ensaiando um texto sobre a Paulista, e indo mais para os “lugares íntimos”, talvez falasse até de como me trazia calma a luz do sol que entrava pela janela da casa na Vila Mariana. E de como essa janela sempre me trará calma… Mas diferente do que eu sinto cada vez que a luz atravessa o estrado de uma janela, e me mescla num listrado carinhoso de luz e sombra.

Por ser uma apaixonada por “lugares” e enchê-los de carga emocional, às vezes tenho que fazer um exercício para olhá-los de uma maneira mais crítica. E nesse exercício, consigo observar as idiossincrasias locais, e tento separar o que é afetivo do que é análise. Sei que, no fundo, não consigo afastar totalmente os dois pontos de vista. Estendendo também para a Raquel, temos percepção social – e das próprias emoções – de uma maneira profunda. Quando visitamos um lugar, não suportamos a bolha turística, e ela logo cai. Mas apesar da análise crítica, isso não anula nossas emoções.

Talvez essa percepção seja uma das missões do Cidadeando. Raquel e eu ficamos felizes cada vez que alguém lê nossos textos e comenta sobre como a cidade, o lugar onde vivemos, passou a ser visto de outra maneira. Não apenas como cenário de nossas vivências. Mas também como parte de nossas experiências.

San diz:
quero dar uma conclusão para o texto
mas simplesmente nao tenho rs
eu sei q a gente deposita nos lugares as nossas sensações
mas nao tenho conclusão
Raquel diz:
é que a gente leva algo da cidade e deixa algo de nós

Sandra Oliveira

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Lisboa

Eu nunca tinha visto uma cidade em flor. Sim, flores. Nunca vi tantas flores como em Lisboa. Depois fiquei sabendo que era porque no hemisfério norte as estações do ano são mais bem marcadas. Vivenciar isto… a primavera e, mais, sua transição para o verão… ver a cidade em flor transfigurar-se numa explosão de calor e luz foi tão chocante que caí doente por insolação por 2 dias.

Aliás, sobre a luz… aprendi em Lisboa que o sol do hemisfério norte não corre como o do hemisfério sul. Quando era adolescente ouvi alguns refugiados da Sérvia dizer que o sol do Brasil caía de repente do céu (fiz uma imagem mental de uma bola de basquete entrando numa cesta, enfim, eu gostava de basquete). Claro, só fui entender o que era isso em Lisboa. 10 horas da noite e ainda era dia (pelo menos para mim). E me perguntava, por que aquele povo parava de trabalhar se ainda tinha luz do sol!? Para mim, a presença de luz significava possibilidade de trabalho. Também lá aprendi que não é bem assim.

Em Lisboa vi que a ida aos cafés é quase cronometrada. Por volta das 9 horas da manhã e das 5 horas da tarde todos os proletários engravatados invadem os cafés e não pedem cafés, pedem a bica (que é café, na verdade). Tinha a impressão de que os donos destes estabelecimentos precisariam trabalhar apenas 2 horas por dia para ganhar a feria. Depois, era só curtir o dia na Rua Augusta (é, lá tem uma também… só que outra, bem outra).

Mas, o que me impressionou realmente foi algo que ouvi de todos os professores, bancários, mendigos, motorneiros, estudantes, da dona da minha pensão… a língua portuguesa falada pelos portugueses. Isso porque tive um avô português, Seu José Soares. Desde quando me conheço por gente até meus 14 anos (quando ele morreu), não entendia lhufas do que ele falava, o sotaque era indecifrável. Ele percebia minha cara de desespero e culpava a má qualidade das escolas brasileiras… ele surtava e eu sorria tentando esconder o meu medo daquele senhor português, imenso, gordo, de bigodes e muito bravo.

E Lisboa nisso tudo? Ah, Lisboa… som de Lisboa. Desde o primeiro minuto que lá cheguei, conversando com o cara que me encostava na parede para saber se eu não iria me tornar uma imigrante ilegal, até me despedir do professor Salgado de Matos eu compreendi tudo. Tudo. Com uma clareza, como se fosse água (limpa). E essa língua, partilhada nestes 2 hemisférios, era meu mar calmo diante do caos que havia dentro de mim.

Raquel Foresti