Lisboa

Eu nunca tinha visto uma cidade em flor. Sim, flores. Nunca vi tantas flores como em Lisboa. Depois fiquei sabendo que era porque no hemisfério norte as estações do ano são mais bem marcadas. Vivenciar isto… a primavera e, mais, sua transição para o verão… ver a cidade em flor transfigurar-se numa explosão de calor e luz foi tão chocante que caí doente por insolação por 2 dias.

Aliás, sobre a luz… aprendi em Lisboa que o sol do hemisfério norte não corre como o do hemisfério sul. Quando era adolescente ouvi alguns refugiados da Sérvia dizer que o sol do Brasil caía de repente do céu (fiz uma imagem mental de uma bola de basquete entrando numa cesta, enfim, eu gostava de basquete). Claro, só fui entender o que era isso em Lisboa. 10 horas da noite e ainda era dia (pelo menos para mim). E me perguntava, por que aquele povo parava de trabalhar se ainda tinha luz do sol!? Para mim, a presença de luz significava possibilidade de trabalho. Também lá aprendi que não é bem assim.

Em Lisboa vi que a ida aos cafés é quase cronometrada. Por volta das 9 horas da manhã e das 5 horas da tarde todos os proletários engravatados invadem os cafés e não pedem cafés, pedem a bica (que é café, na verdade). Tinha a impressão de que os donos destes estabelecimentos precisariam trabalhar apenas 2 horas por dia para ganhar a feria. Depois, era só curtir o dia na Rua Augusta (é, lá tem uma também… só que outra, bem outra).

Mas, o que me impressionou realmente foi algo que ouvi de todos os professores, bancários, mendigos, motorneiros, estudantes, da dona da minha pensão… a língua portuguesa falada pelos portugueses. Isso porque tive um avô português, Seu José Soares. Desde quando me conheço por gente até meus 14 anos (quando ele morreu), não entendia lhufas do que ele falava, o sotaque era indecifrável. Ele percebia minha cara de desespero e culpava a má qualidade das escolas brasileiras… ele surtava e eu sorria tentando esconder o meu medo daquele senhor português, imenso, gordo, de bigodes e muito bravo.

E Lisboa nisso tudo? Ah, Lisboa… som de Lisboa. Desde o primeiro minuto que lá cheguei, conversando com o cara que me encostava na parede para saber se eu não iria me tornar uma imigrante ilegal, até me despedir do professor Salgado de Matos eu compreendi tudo. Tudo. Com uma clareza, como se fosse água (limpa). E essa língua, partilhada nestes 2 hemisférios, era meu mar calmo diante do caos que havia dentro de mim.

Raquel Foresti

Anúncios