Jardim botânico ou o verde controlado

Difícil dizer o que realmente aconteceu – tudo naquele lugar foi programado para o deleite do olhar. Olhar que se dirige à natureza pouco selvagem – podada, escolhida, delimitada.

Assim é o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, construído para D. João VI e sua conhecida esposa, Carlota Joaquina, serve hoje em dia a qualquer cidadão que possa pagar os seis paus de entrada.

Vi raras flores, tudo era majoritariamente verde, verde frondoso, verde complexo. Me peguei 15 minutos olhando para as estátuas de Narciso e Eco, me surpreendi com os belos chafarizes que lá habitam, tropiquei nas pedras plantadas pelo caminho, deitei num banco qualquer para ver o sol.

Tudo era contemplação, o silêncio e o movimento lento daquela beleza controlada faziam meu coração quase explodir de emoção. Era imenso, grande demais para que coubesse em qualquer breve compreensão minha. Tanto que foi no ‘lugar comum’, que há em tantos parques pelo mundo, que as lágrimas em mim abundaram. Foi no Jardim Japonês.

E como disfarçar? Estava sozinha, esfregava os olhos simulando uma irritação – o que os outros vão pensar da boba? Os outros… aos outros digo:

<<Ou fui esmagada pela beleza ou estava num dia de hipersensibilidade>>

Vai saber…

 

ps: azul, branco e vermelho… só para avisar.

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Impune

[escrito em 17/09/2011]

Não era esse texto que programava publicar… aliás, faz 15 dias em que trabalho e agonizo em um que me engasgou … era para parir o coitado hoje, mas… estou no RJ.

Não esperava que em poucas horas por aqui já gerasse algo… só que estou a tremer, a cabeça dói, a garganta fechou… Não por parir o texto. Mas pelo simples fato de ter escolhido ficar em Santa Teresa – lugar que mais amo no Rio. Em um lugar que está a menos de 20 metros do descarrilhamento do bonde, do lugar onde essas pessoas morreram pois quem deveria se importar com as suas vidas (de quem trabalha no transporte público e de quem o utiliza) passou essa responsabilidade para frente.

Como em todo lugar de tragédia, fotos, tecidos negros, velas… e uma faixa enorme escrito mais ou menos isso: “Você acha que ele é o culpado?” Não transcrevi exatamente… mas sei que é exatamente a foto do maquinista que está na faixa, sorrindo em sua camisa semi-aberta.

Conversei com um gari que estava trabalhando por perto… de cabeça baixa, me disse que aquele senhor da foto havia morrido na tragédia… também baixei minha cabeça, pois conheci aquele senhor em julho passado, quando passei meus dias em Santa Teresa.

 De repente a dor que eu sentia em SP virou outra em RJ. Ela se expandiu, escorrendo pela rua Riachuelo, pelo beco do Rato, pelas paredes, escadarias, casarões, mendigos… pelo trilho do bonde.

Raquel Foresti

Bueiros

Há dias em que quero que tudo vá pelos ares! Óculos, facebook, expectativas, olhares … mas não de repente. Não. Não quero a bomba H. Quero aos poucos, bueiro a bueiro, como no Rio de Janeiro. Despedaçando turistas, executivos… que se explodam a pressa e a produção! O previsto e calculado! Um a um. Cargo a cargo. O movimento articulado, o ar desgraçado…Há dias que quero que tudo vá pelos ares, de repente, num sumiço inocente calculado apenas pela dinâmica dos bueiros da cidade. Há dias em que não quero que tenha 24 horas. Há dias que não quero que existam dias. Só silêncio. Muito silêncio… e vontade de fazer nada. Não, hoje eu não preciso me divertir. Nem sofrer. Nem esperar. Só preciso parar, que tudo pare!, para poder ver a grama da Pça Julio Prestes crescer e só ela, só nela.

Raquel Foresti