Falam por ai… City Jaraguá

Em julho de 2012, publicamos o texto do professor e vizinho nosso João Goto. Desde então, Um ônibus chamado destino… Destino City Jaraguá, como alguns outros textos que moram aqui no Cidadeando, é alvo de buscas cotidianas… de gente querendo saber do lugar, que ônibus passa por lá, como se chega de carro… enfim, coisas do Google.

Só que há dois dias percebemos buscas pra lá de específicas, termos como “confronto com a polícia”, “invasão”, “ônibus queimados”…. Como não achamos nada, mandamos um e-mail para o João perguntando o que estava se passando neste bairro. Segue a resposta que recebemos.

Pois é, a chapa esquentou ontem [dia 04/12]… Na quinta da semana passada, a polícia estava perseguindo dois rapazes de moto e, ao entrarem na rua da escola na qual trabalho, parece que um dos policiais atirou no pneu da moto e os dois rapazes cairam. Como eles estavam sem capacete, bateram a cabeça no chão e morreram. Isso aconteceu bem na frente do portão de entrada da escola.
Ontem, um pequeno grupo de pessoas, inclusive alguns familiares dos rapazes, foram até o local, escreveram algumas mensagens no chão e iniciaram uma passeata pela paz. Ao mesmo tempo, parece-me que a polícia estourou uma refinaria de cocaína na Arábia, um conjunto de ruas muito próximo da escola e do local da morte dos dois rapazes. Enfim, quando deu umas 16h30 / 17h, a casa caiu. Os policiais fecharam as duas únicas ruas que dão acesso ao bairro, os moradores atearam fogo nas ruas e a choque foi acionada… Ainda bem que nada sério aconteceu – não houve troca de tiros e ninguém morreu. Contudo, os professores que lá estavam neste momento ficaram ilhados, pois não podiam sair e nem entrar, tanto de ônibus como de carro.
 Hoje o clima estava horrível. De manhã, o sliêncio na rua era absurdo… Havia muita tensão no ar. Mas deu tudo certo. Acabei de chegar de lá e à tarde as coisas acalmaram bastante, apesar da presença constante da polícia dentro do bairro.
Coisas que só acontecem na periferia…
O próprio João acabou encaminhando uma mensagem com um link, um exemplo de como a mesmíssima coisa foi noticiada pela mídia, pelos grandes portais:

http://noticias.r7.com/sao-paulo/grupo-incendeia-onibus-e-bloqueia-via-em-protesto-no-bairro-do-jaragua-04122012

Termos como “bloquear o trânsito” não são exatamente novidade  nestes portais… mas assusta a frequencia de relatos como este:

“De acordo com o motorista de um dos ônibus incendiados, a ação dos criminosos foi rápida e, entre os passageiros, havia criança.— Tinha criança e obrigaram a gente a descer. Eu peguei a criança e sai correndo. Eles invadiram o ônibus, apedrejaram e botaram fogo. Foi tudo muito rápido, todo mundo correndo.”

Sinceramente, tendemos a acreditar nas palavras de um professor, que sabemos quem é, do que da grande imprensa. Mas, refém dos portais de informação, como saber o que realmente está acontecendo nesta onda de violência paulistana? Complicado, viu…

Raquel Foresti
Sandra Oliveira

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Um ônibus chamado destino… Destino City Jaraguá

Não vou contar uma breve história ou um fato que aconteceu comigo, mas sim  tentar encontrar um sentido, por menor que seja, para aquilo que podemos chamar de vida.

Do momento em que nasci até os meus 21 anos, morei no apartamento 41, do Bloco Marcia, do Condomínio Super Quadra Jaguaré, localizado na Av. Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo. Foi naquele lugar que fiz as minhas melhores amizades, que briguei, que refiz as pazes, que brinquei, que rodei peão, que joguei bolinha de gude, que aprendi a jogar futebol, a andar de bicicleta, a empinar pipa, que dei meu primeiro beijo e que arrumei a minha primeira namoradinha, entre outras cicatrizes visíveis e invisíveis que carrego comigo.

Lembro-me que até 1996, a favela São Remo se estendia dos muros da Universidade de São Paulo, passava por trás do Batalhão da Polícia Militar e da 93º DP e chegava até a Av. Jaguaré. Naquele ano, Paulo Maluf, então prefeito da cidade de São Paulo, removeu parte da São Remo para dar lugar à continuação da Av. Escola Politécnica e ao McDonald’s da Av. Jaguaré. Na época, eu tinha apenas 12 anos e não entendia ainda muito bem como as coisas funcionavam, tanto que a lembrança mais forte é a alegria com a qual todas as crianças da SQJ comemoraram a chegada do McDonald’s. Afinal, ter um restaurante desses na frente da sua casa era um privilégio para poucos.

Os anos passaram: Fundamental II, Ensino Médio, vestibular, faculdade, trabalho, mudança do Jaguaré, morar sozinho em São Paulo… Vida de gente grande.

Apesar de ter escolhido cursar História para, um dia, dedicar-me à carreira docente, esta não foi a minha primeira opção de trabalho – desde o segundo ano da faculdade até 2010, dediquei-me a área de memória empresarial. Só em 2009, após fazer um grande balanço decidi ir atrás daquela ideia inicial, ou seja, tornar-me um professor. Aproveitei o fato da prefeitura de São Paulo ter aberto um grande concurso para contratação de professores,  estudei e passei, vindo a assumir o cargo já em 2010.

No dia da atribuição (escolha da escola onde iria lecionar) fui até um prédio na Av. Angélica, onde recebi um manual do Sindicato dos Professores da Prefeitura de São Paulo com o nome, endereço e telefone de todas as escolas da cidade e, já na sala de atribuição, apesar da minha boa classificação, notei que não conhecia o nome de nenhuma das escolas com vagas disponíveis. Neste momento, uma pergunta não podia deixar de ecoar em minha cabeça: “e agora, o que fazer?”

Foi então que um nome diferente chamou a minha atenção no quadro de escolas (diferente porque não era o nome de um professor, de um personagem famoso da história etc.): EMEF City Jaraguá IV. Neste instante, lembrei-me que havia um ônibus com este nome (City Jaraguá) que saía justamente do Jaguaré, passava pela minha atual residência, na Vila Leopoldina, e que, muito provavelmente, me deixaria perto da escola.

Apesar de não ter a menor ideia de onde ficava, escolhi aquela escola sem nenhum sinal de dúvida.

Quando chegou o dia de começar a minha nova fase de vida, a do professor, peguei o ônibus City Jaraguá, desci no ponto final e informei-me com algumas pessoas que estavam pela rua onde ficava a EMEF City Jaraguá IV. Então, após longos anos, finalmente encontrava-me em frente a uma escola pública da periferia de São Paulo pronto para iniciar um trabalho.

Meu início na carreira docente não foi diferente do início dos demais professores, ou seja, cheio de dúvidas, incertezas, mais erros do que acertos etc. Com o passar do tempo, fui entendendo melhor a comunidade onde lecionava e, numa conversa com alguns funcionários que residem próximos à escola, descobri que parte dos moradores do City Jaraguá são aqueles que foram removidos da São Remo em 1996.

Muitos podem acreditar que este relato traz apenas coincidências da vida na cidade grande. Contudo, eu prefiro optar por uma palavra mais simples e muito mais bonita: destino.

João Goto

sobre nosso vizinho: Um professor cético, mas que ama a beleza improvável do destino.