Ferrovia Santos-Jundiaí

(Escrito em 18/12/2011)

A terra da uva – um dos portais do interior na época que as ferrovias eram amplamente usadas no país – nunca me despertou nenhum interesse. Mas nesse ano tive um interesse muito particular para ir pra Jundiaí: não era a cidade que me chamava, eram as conversas com uma amiga que mora por lá, uma das pessoas mais admiráveis que conheci profissionalmente.

Decidi ir de trem. Não exatamente por ser mais barato, mas pela viagem em si. Há tempos queria viajar de trem por ali, seja lá o quanto demorasse, e um domingo foi escolhido para isso.

Andar pela ferrovia Santos-Jundiaí era reviver um passado de concessões descaradas a barões do café. É, também, se deixar levar por inúmeras reflexões sobre nosso transporte público tão caótico.

Sair da estação da Luz é fascinante. Dá tempo de ver todos os detalhes arquitetônicos importados da Inglaterra. Dá tempo de ver a modernidade nos novos vagões de trem, agora com ar-condicionado e tudo mais.

A viagem não poderia ser melhor para uma urbanista: a cidade dos galpões abandonados e demolidos graças à enorme especulação imobiliária vai dando lugar à periferia, sempre com suas favelas morro acima. A periferia, enfim, dá lugar às cidades do interior. Não se vê mais prédios, não se vê favelas. Agora a vista é de pasto, de grama, de casinhas simples. De comércio local sem shoppings.

As pessoas são um caso à parte. Fazem compras de fim de ano em São Paulo, demoram mais de 40 minutos para chegar à cidade de origem, e ainda vão demorar mais pra chegar em casa (porque cidade do interior também tem periferia, só que mais escondida do que as das cidades grandes). Levam filhos, tias, celulares para falar com o marido, papeiam a viagem inteira com as comadres.

Jundiaí, depois de toda esssa viagem de ida, continuou me despertando pouca atenção, e assim foi até o final da viagem. Talvez Jundiaí esteja fadada a ser só mais uma cidade para mim, ofuscada por outras coisas muito mais importantes que só existem por causa dela.  O trajeto da viagem de trem me foi mais importante que a cidade, a conversa com minha amiga era mais importante que a cidade.

Leila Petrini

outro texto de nossa vizinha para o Cidadeando: Embu das Artes

Anúncios