Viagem a Cuba: um pouco de contexto

É difícil escolher por onde começar a falar sobre Cuba. Mas adianto: foi uma viagem muito especial.

Além de ser um desejo antigo conhecer a Ilha, estamos passando por um momento de transformações políticas e econômicas em Cuba, como as negociações para o fim do embargo econômico.

Para visitar Cuba é preciso mais do que ser um turista comum. É preciso ter os olhos atentos, ouvidos abertos e que a alma não seja pequena. Se souber um pouco da história, ajuda muito.

Trânsito em Havana
Trânsito em Havana

A coisa mais lugar comum que se ouve de visitantes desatentos é que Cuba parou no tempo. Só porque o centro de Havana é dominado por prédios construídos antes de 1959, ano da Revolução. Quiséramos nós, historiadores, que todos os lugares “parassem no tempo” e conservassem muitos de seus prédios históricos. E que houvesse, como há pelo centro velho de Havana, a presença da “Oficina del Historiador”. O que pouca gente sabe é que Vedado, o maior bairro da Cidade, cresceu muito depois da Revolução, e conta com prédios altos, modernos, além da harmonia do urbanismo com qualidade de vida em suas ruas arborizadas.

Mas uma cidade – e um país! – não é feita apenas de prédios, mas principalmente por pessoas. Antes da Revolução, na época da ditadura de Fulgencio Batista, da população de 5,5 milhões, aproximadamente 40% estava desempregada. 30 mil mulheres estavam fichadas como prostitutas (8% da população). Imagine que, em 1959, nascer mulher numa família pobre já tinha praticamente destino. Felizmente Cuba não parou no tempo e hoje há emprego e vida digna para todos. Homens e mulheres.

Um mini shoppping em Havana
Um mini shoppping em Havana

O que não há (muito) é o consumo como conhecemos cá deste lado da economia, onde nós e outros poucos somos privilegiados a desfrutá-lo. Outra diferença (crescente) do Brasil é que nos últimos anos, as classes mais baixas têm tido acesso a crédito, podendo comprar carro, casa, TV 32 polegadas e até um perfume importado dividido em 12 vezes sem juros. Enquanto isso, seus filhos têm aulas em salas lotadas (chegam a 50 alunos por sala em São Paulo) e professores são desrespeitados em greves não reconhecidas.

Em Cuba há escola e educação de qualidade. A ONU disse, e saiu até no site da Globo.

Há médicos também. E medicação. Alimentação subsidiada a todos os cubanos. E não se engane: não verá apenas carros “velhos” por lá. Verá também lindos carros antigos de dar inveja a qualquer admirador. E carros novos franceses e chineses. E outros tantos eletrodomésticos novos chineses, como os da sua casa.

Infelizmente, em Havana ainda não há ciclovia. Também não há uma política de descarte de lixo doméstico, com sacolinhas verdes e cinzas. Aliás, tem gente que sai da padaria sem embrulhar o pão. Mas todos saem com pão, garantido pelo governo.

Los Nardos
Los Nardos

Nem todo cubano almoça em restaurante. Mas em Los Nardos à noite você vai ver famílias com sua melhor roupa para comemorar algum acontecimento especial, ao som de piano, flauta e violino, preço justo e lugar privilegiado em relação aos turistas.

Há também pequenos empreendedores (sim, cubanos), como aqueles que alugam quartos em suas casas para turistas. Havia geladeira e ar-condicionado no quarto onde fiquei, além de empregada na casa, com o patrão chateado porque ele não consegue comprar um perfume importado.  É uma pena que haja gente assim em todo lugar.

Mas há gente generosa. Aliás, é o que eles mais dizem sobre si mesmos, que cubanos são muito generosos. São também simpáticos e adoram conversar. Orgulham-se de ter educação e sistema de saúde garantidos, e de que quase não há violência nas ruas – há dias em que sequer são registrados roubos na província.

Ateliê particular de escultura
Ateliê particular de escultura

O que também se fala é sobre a expectativa do fim do embargo. Imagine que estão a 100 km dos Estados Unidos, e dali não podem importar nada. O comércio é realizado apenas com as nações amigas, e por ser um país pequeno e com pouca indústria, quase tudo deve ser importado de países distantes. Imagine o custo. Agora, imagine que com o fim embargo, poderá ser economizado muito com a facilidade da importação. Bom para os cubanos, que terão acesso a mais benefícios ou mais qualidade de produtos. Bom para os Estados Unidos, que terão um novo mercado consumidor ao lado de casa.

Mas como disse, cubanos são generosos. Fora aqueles poucos que estão interessados no perfume importado, a maioria espera que continuem tendo acesso à educação, saúde, segurança e alimentação a todos. Esperam que a essência do governo não mude.

E assim desejamos nós também 🙂

Sandra Oliveira

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