Previsões sociológicas para 2013: Jardim Alzira Mesquita

Previsões sociológicas 2013, baseadas numa história verídica e recente:

A “Zelith” da Mooca vai recortar o pedaço em torno do shopping e vai chamá-lo de Jardim Alzira Mesquita, em homenagem à senhora feudal mais eminente do bairro. Os mooquenses tentarão cada vez mais ampliar a região englobada pelo perímetro ao dizerem que são residentes do Jardim em questão, ainda que o bairro não exista nos registros oficiais.

Empreendimentos imobiliários de milhões de reais serão iniciados nos arredores do centro de compras e as rotas de ônibus serão desviadas do local propositalmente. A estação Bresser-Mooca será demolida por atrair muita gente diferenciada à região. Nenhuma tentativa de estabelecer qualquer tipo de foco cultural no lugar dará certo. Aos olhos do mundo todo, o Jardim Alzira Mesquita será a segunda joia representante da evolução da ZL, um embaixador dos burgos na terra dos maloqueiros. Aos olhos do resto dos indignados, será apenas mais um bairro que sucumbe aos imperdoáveis não-espaços porcamente planejados da nossa querida Sampa City.

O mooquense que antes batia no peito, exaltava sua herança italiana, vibrava pelo Juventus e tinha uma das identidades culturais mais belas do estado vai simplesmente se esvair na mesmice das modinhas pseudo-elitistas, e terá ojeriza de dizer “eu amo a Mooca!”. A Mooca vai morrer, e eu sentirei sua falta…

Rodrigo Bravo

Nosso vizinho já passou por aqui com o texto Piano, vá dar uma olhadinha…

Ônibus 333 e os mano que entenderam tudo

Hoje de manhã. Campinas. Ônibus 333. Sentada no penúltimo banco. Dois molecotes-manos-de-boné conversando, eu começo a prestar atenção no debate dos dois:
-Mas essa marcha é legal.
-A marcha das vadias, né mano?
-É, loco!
– Mas você sabe por que que teve isso?
– Ah, foi lá em Barão né…
– Não, mano! O que aconteceu é que, tá ligado, uma mina lá foi estrupada e…
-Estuprada.
-Estrupada.
-Es-TU-prada!
-E o que eu falei?
-Es-TRU-pada.
-Não, mano, falei estrupada.
-Haha, aí ó,  fala de novo!
-Então, aí ela foi na delegacia e os policial invés de falar “pooooorra, onde foi? como foi? vamo atrás do cara…, pãns, falaro assim “ah… tamém, né!
-Ah, véi, eles nem aí com a mina, ela deve ter ficado injuriada!
-Não, véi, então, aí as mina organizaro essa marcha, pá, fala assim que tem o direito de anda, assim, tipo, semi-nua, tá ligado, e sem ser estrupada! Por isso que as mina tava, tipo, sem ropa… era pra falar que elas tem direito, tá ligado?
-Lógico, mano! As mina tem que podê anda do jeito que elas qué! Acho massa! Mas você sabe, essa marcha das vadias não é daqui não, já tinha lá na Europa…
-É memo?
-É. Lá o povo tem essa coisa de fazer protesto peladão, tá ligado?
-É memo? Hahaha… não sabia!
-É. Lá, tipo assim, quando a população tá pedindo, sei lá, vamo dizê… melhoria pras bicicleta: eles vão tudo anda de bicicleta pelado!
-Hahaha! Que dahora!
-É, só que nessa marcha das vadia faz sentido elas tarem sem rôpa, né, é tipo o protesto memo… pra elas poderem andar do jeito que elas quiser!
-E sem encherem o saco… sem serem estrupada!
-Estuprada, mano…
-Então, o q eu falei?
-Es-TRU-pada!
-Não mano…falei normal!
-Então repete!
-Esss….trrru…tupa…prada.
-Não, mano! TU! TUUU!
– Estrupada (falando rápido)… á lá, eu falo certo… é que quando fala rapidão parece que tá errado…
-Hahaha! Pode crê…

Ainda bem que eu estava ouvindo essa conversa! Além de rir pra caralho, ainda fiquei mais feliz com a população masculina que tem mais dois representantes que se mostraram capazes de entender um protesto feminino!

Thais Fonsechi

sobre nossa vizinha: Thaís Fonsechi é uma estudante de arquitetura e urbanismo que gosta de humor ácido, de discussões difíceis e de ver mais samba no som que vem da rua.

*texto publicado na timeline da vizinha em 10/08/2012 e compartilhado infinitamente até chegar em nossa humilde casinha.

Um ônibus chamado destino… Destino City Jaraguá

Não vou contar uma breve história ou um fato que aconteceu comigo, mas sim  tentar encontrar um sentido, por menor que seja, para aquilo que podemos chamar de vida.

Do momento em que nasci até os meus 21 anos, morei no apartamento 41, do Bloco Marcia, do Condomínio Super Quadra Jaguaré, localizado na Av. Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo. Foi naquele lugar que fiz as minhas melhores amizades, que briguei, que refiz as pazes, que brinquei, que rodei peão, que joguei bolinha de gude, que aprendi a jogar futebol, a andar de bicicleta, a empinar pipa, que dei meu primeiro beijo e que arrumei a minha primeira namoradinha, entre outras cicatrizes visíveis e invisíveis que carrego comigo.

Lembro-me que até 1996, a favela São Remo se estendia dos muros da Universidade de São Paulo, passava por trás do Batalhão da Polícia Militar e da 93º DP e chegava até a Av. Jaguaré. Naquele ano, Paulo Maluf, então prefeito da cidade de São Paulo, removeu parte da São Remo para dar lugar à continuação da Av. Escola Politécnica e ao McDonald’s da Av. Jaguaré. Na época, eu tinha apenas 12 anos e não entendia ainda muito bem como as coisas funcionavam, tanto que a lembrança mais forte é a alegria com a qual todas as crianças da SQJ comemoraram a chegada do McDonald’s. Afinal, ter um restaurante desses na frente da sua casa era um privilégio para poucos.

Os anos passaram: Fundamental II, Ensino Médio, vestibular, faculdade, trabalho, mudança do Jaguaré, morar sozinho em São Paulo… Vida de gente grande.

Apesar de ter escolhido cursar História para, um dia, dedicar-me à carreira docente, esta não foi a minha primeira opção de trabalho – desde o segundo ano da faculdade até 2010, dediquei-me a área de memória empresarial. Só em 2009, após fazer um grande balanço decidi ir atrás daquela ideia inicial, ou seja, tornar-me um professor. Aproveitei o fato da prefeitura de São Paulo ter aberto um grande concurso para contratação de professores,  estudei e passei, vindo a assumir o cargo já em 2010.

No dia da atribuição (escolha da escola onde iria lecionar) fui até um prédio na Av. Angélica, onde recebi um manual do Sindicato dos Professores da Prefeitura de São Paulo com o nome, endereço e telefone de todas as escolas da cidade e, já na sala de atribuição, apesar da minha boa classificação, notei que não conhecia o nome de nenhuma das escolas com vagas disponíveis. Neste momento, uma pergunta não podia deixar de ecoar em minha cabeça: “e agora, o que fazer?”

Foi então que um nome diferente chamou a minha atenção no quadro de escolas (diferente porque não era o nome de um professor, de um personagem famoso da história etc.): EMEF City Jaraguá IV. Neste instante, lembrei-me que havia um ônibus com este nome (City Jaraguá) que saía justamente do Jaguaré, passava pela minha atual residência, na Vila Leopoldina, e que, muito provavelmente, me deixaria perto da escola.

Apesar de não ter a menor ideia de onde ficava, escolhi aquela escola sem nenhum sinal de dúvida.

Quando chegou o dia de começar a minha nova fase de vida, a do professor, peguei o ônibus City Jaraguá, desci no ponto final e informei-me com algumas pessoas que estavam pela rua onde ficava a EMEF City Jaraguá IV. Então, após longos anos, finalmente encontrava-me em frente a uma escola pública da periferia de São Paulo pronto para iniciar um trabalho.

Meu início na carreira docente não foi diferente do início dos demais professores, ou seja, cheio de dúvidas, incertezas, mais erros do que acertos etc. Com o passar do tempo, fui entendendo melhor a comunidade onde lecionava e, numa conversa com alguns funcionários que residem próximos à escola, descobri que parte dos moradores do City Jaraguá são aqueles que foram removidos da São Remo em 1996.

Muitos podem acreditar que este relato traz apenas coincidências da vida na cidade grande. Contudo, eu prefiro optar por uma palavra mais simples e muito mais bonita: destino.

João Goto

sobre nosso vizinho: Um professor cético, mas que ama a beleza improvável do destino.