Igrejas, Cinemas e Shoppings ou o medo dos deuses que virão.

Confesso, quando me sinto perdida, solitária, sem opções, corro para um shopping. Lá me sinto segura pois, em qualquer lugar do Ocidente conhecido há um shopping como todos os outros.

Quando nos sentimos inseguros precisamos de lugares conhecidos. Acredito que séculos atrás, esse era o lugar da Igreja – Católica Apostólica Romana, em especial. As imagens eram a palavra para uma sociedade iletrada, os bancos o repouso, o confessionário a expiação ou a confirmação de uma culpa que nunca larga. A Igreja, o edifício, a sua disposição era o lugar conhecido… onde se poderia, talvez, buscar refúgio como fez Margarida em Fausto – para sua desgraça.

Há um século talvez esse lugar tenha se alterado… depois de ver Cinema Paradiso, ficamos com a impressão que Nossa Senhora de Fátima foi substituída por outras senhoras sem santidade alguma: Bardot, Cardinale, Dietrich. O refúgio era o cinema. A angústia substituída pelo sonho projetado, pela imagem pensada, pela história creditada. Aquelas antigas poltronas não serviam para o conforto e controle absoluto como nos cinema insípidos de hoje, lá éramos testemunhas satisfeitas pelo irreal. A entrada era pelas calçadas, como nas Igrejas, lá conhecíamos novos desejos, tudo era mais possível.

Hoje nosso deus é o consumo e o Shopping nosso refúgio. Há aqueles que são refúgios dos refúgios, apenas os munidos de carros podem entrar. É artificial, feito para suprir o deus da aparência. É ilusão. A segurança para um ser que nasce, vive e morre é também uma ilusão. A Igreja e o cinema nunca nos enganaram sobre a condição humana – nos enganaram em outras coisas… – mas o consumo maqueia o grito que deixamos de dar, o final que todos um dia iremos ter.

Raquel Foresti

Na favela da Vila Prudente

Sou um desastre quando falo… toda minha ansiedade nervosismo me impedem de dizer tudo o que quero. É assim no amor, é assim sempre. Por isso prefiro me expressar escrevendo, me sinto mais à vontade neste meu mundinho de letra, papel e tela.

Ontem, na favela de Vila Prudente, foi a comprovação deste fato: o Feeh Ribeiro pegou a câmera, me deu um microfone e pediu para eu dar uma opinião sobre algo que estava rolando por lá: exibição de curtas-metragens dentro do Festival Internacional de Curtas. Quase morri: ‘ Meu nome é Raquel, sou professora da Vila Prudente e moradora da Prefeitura’… acredito que quem fizer a edição do vídeo vai rir bicas! Por isso, hoje, domingo, resolvi escrever um breve relato para dar conta do que aconteceu.

Nasci no bairro de Vila Prudente, conheço bem os cantos de cá, mas até ano passado não conhecia nada de um: a favela que é simplesmente a mais antiga de São Paulo e leva o mesmo nome do bairro. Antes apenas a observava de dentro do ônibus quando ele passava pela rua Dianópolis e percebia que, diferentemente do bairro, a favela tem vida 24 horas por dia: gente na rua, rindo, conversando, brincado, na roda. Por lá há botecos, açougues, igrejas… tudo, menos os moradores do restante da Vila Prudente.

Tinha a impressão de que a população do entorno fingia que a favela não existia: não se fala da favela fora da favela. Sempre achei estranho, a Vila Prudente é também a sua favela.

Essa minha angústia começou a ser curada por conta do projeto Eco Informação em parceria com as oficinas Kinoforum. Numa dessas oficinas realizadas no Centro Cultural São Paulo – meio longe da Vila Prudente – conheci o pessoal da favela. E foi assim que depois de muito trabalho da equipe do Eco Informação pude ir na favela assistir a curtas-metragens. Foi sensacional ver as pessoas de lá e me sentir bem-vinda. Foi sensacional ver como o cinema projetado a céu aberto, no coração de onde aquelas pessoas moram, ainda mobiliza e emociona.

Ontem ((18/08/2012)), fui à favela mais uma vez assistir filme com seus moradores. Sentar na cadeira, comer pipoca, tomar refri, rir, conversar com o pessoal do Eco Informação e pagar mico diante de uma câmera pronta a registrar a história sendo feita. Estava na alma vibrante de meu bairro, a alma que muitos moradores não querem saber se existe ou não.

Raquel Foresti

Socrática Augusta

Depois do filme, minha epifania cinéfila mudou minha direção. Da Paulista fui parar na baixa Augusta. Sempre. Depois de um filme pelas regiões é inevitável passar pela Augusta.

E essa mudança de direção me levou ao encontro com meu amigo Sócrates, numa doce embriaguez. E como filosofar sem beber antes?

Sócrates e eu travamos um diálogo trivial… Depois daquele filme, eu olhava para céu, para o copo de cerveja, sentia meu ombro que doía. Minha pulsação estava rápida, minha cabeça girava, eu tremia e mal conseguia manter-me presente. Era a cerveja e o Almodovar. Uma história, talvez só um filme…

Eu já não estava lá. Me despedi, marcamos outro dia. Mas Sócrates se manteve no boteco.

Desci mais a Augusta. Caminhei. Senti cheiro de tinta e as letras e desenhos surgiam nas paredes ao lado… Eu estava tonta, Augusta… pensei nas cores: azul, vermelho, branco… Augusta… França? Chile? Augusta… Mas também pensei em mim. Ou não… percebi o quanto me sinto sufocada na V. Prudente e o quanto a embriaguez dessa rua me atrai (ô baixa Augusta!) Comprei roupas coloridas, tomei uma coca-cola, li Pessoa e Iñigo, cuspi no papel palavras ansiosas…

Poeta barata que sou, poeta socrática… Mil perdões, senhorita… bebo pouco, mas o suficiente.

Te encontro depois, Sócrates… na mesma rua. Augusta.

Raquel Foresti

Cine Belas Artes, mon amour

Na quarta-feira quis ter uma máquina do tempo – Delorean! – e voltar aos dias em que o Cine Belas Artes era vivo.  Estava na Rua Augusta, no cine Unibanco (que agora talvez seja Itaú), e senti uma dor na boca do estômago…

Como senti falta daquelas seis salas onde passavam filmes que quase não temos o direito de ver… com banheiros onde você mijava com vista para a Consolação… com suas cadeiras absurdamente desconfortáveis na sala Aleijadinho….

Eu queria era comprar a pipoca gordurenta na porta, porque era mais barata… conversar com os vendedores de poesia, sua poesia… folhear os posters caros que estavam a venda… rezar para a moça não perceber que minha carteirinha de estudante estava vencida…

Ah, que eu queria o noitão! Meus medos privados em lugares públicos! Queria meus amigos comigo, lá comigo. Queria estar sozinha para depois voar até a Paulista e pairar sobre uma banca de jornal, numa epifania cinéfila.

Queria voltar, voltar… tudo dói, estou aleijada, distante de um lugar de carinho que foi tomado (TOMADO!) pelo auto da propriedade privada.

Raquel Foresti

Apesar dos contentes

Foi o ano das ruas, dos espaços ocupados por pessoas a refletir ou gritar por sentido, justiça, democracia… apesar de atrapalhar os contentes.

Apesar dos contentes, duas moças pré-balzaquianas também começaram a escrever sobre e por essas ruas… porque o espaço é vivo, político e também poético.

Cidadeando não surgiu num momento de empolgação, da mesma forma que nenhuma luta assim o surge. Foi gestado ao longo de quase 10 anos de amizade, conversas animadas ou desoladas, vivendo em uma cidade que elas ansiavam por ver seus espaços ocupados. Havia a necessidade de partilhar os papos travados desde a época da faculdade, na FFLCH, na rua Augusta, no Páteo do Colégio, na Praça da Sé… mas nada com uma direção específica.

A ideia do blog tomou forma quando assistiram na Cinemateca Brasileira a dois média-metragens que depois foram exibidos apenas pela TV Cultura ou em festivais: A Musa Impassível, de Marcela Lordy, e Segundo movimento para piano e costura, de Marco Del Fiol. Os filmes falam da relação das pessoas com o bairro do Bom Retiro, evidenciando o óbvio muitas vezes ignorado, revelando o que se esconde, as características desses espaços e de seus frequentadores, talvez de maneira um pouco estereotipada, mas com muita poesia. Ao final dos filmes, as duas entraram numa conversa de quase uma hora, da qual não pararam nem para tomar fôlego.

Daí o estalo: precisamos pôr no papel nossas reflexões sobre a cidade. Ou em um espaço virtual. Então nasceu o Cidadeando.

Para nossa surpresa, a proposta do blog não foi apenas compreendida, como obteve adesão através de comentários e textos produzidos por nossos leitores-vizinhos. O espaço virtual, alienado na maior parte das vezes, se tornou vivo, político e poético como o real.

Aprendemos demais nesses poucos meses e esperamos que em 2012 todos os processos iniciados ou não através do blog se aprofundem, trazendo esperança para aqueles que ocupam o espaço… apesar dos contentes.

Raquel Foresti
Sandra Oliveira