Gótico: entre Bauhaus, Duby e outras viagens possíveis

Quando eu era criança, gótico era uma pessoa como meu primo, que se vestia de preto e ouvia músicas de bandas estranhas como Bauhaus. Demorou um pouco para eu saber que tinha outro significado, mais antigo. Naquela época, não havia internet (pelo menos para mim) e a fotocópia era totalmente liberada. Foi a partir de um texto de xérox que descobri as igrejas góticas. Tão grandes e altas, em preto e branco. Olhando para a imagem com pouca definição de meu xérox, fazia sentido quando eu ouvia que a Idade Média fora a “idade das trevas”.

Demorou um pouco mais para eu ver uma imagem colorida de uma igreja gótica. Imagine minha surpresa. Foi como se, depois de séculos e séculos, tivessem tirado a poeira dos vitrais, e eu pudesse, enfim, ver a luz passando por eles. Era grandioso, incrível, sublime. Foi Duby que me explicou, através de seu livro O tempo das catedrais, que ali tinha sido criada a primeira arquitetura alinhada a uma teologia. E, convenhamos, como foi eficiente. A catedral gótica passa essa sensação de que o ser humano é pequeno e deus é luz, imaterial e grandioso.

Ainda não tive oportunidade de visitar uma catedral gótica de fato, mas apenas as construções que guardam suas referências aqui no Novo Mundo (mais precisamente a catedral da Sé, em São Paulo, a Catedral de Belo Horizonte e a de Fortaleza). Fico com as ideias de Duby, e reflito sobre isso cada vez que me vejo diante de algo grandioso – e não apenas as catedrais.

Sandra Oliveira

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Embu das Artes

À primeira vista, a cidade é bonita. Quando a conheci eu ainda era criança. Era a cidade preferida dos meus pais e ainda é até hoje.

Foi lá que comprei meu primeiro LP (disco de vinil), ainda em 1994, com os 10 reais que meu pai me dava e que deveria durar um mês (era a minha gorda mesada na época). O vinil? Era o primeiro disco dos Beatles. Claro! A feirinha de artes encantava qualquer um. Minha mãe ainda tem bugigangas compradas lá que ainda funcionam bem.

Voltei à cidade somente em 2009 mas, dessa vez seria mais do que um passeio, seria minha segunda morada onde ficaria mais de 8 horas por dia, seria a cidade que me acolheria até em alguns fins de semana.

Por conta dessa nova relação, conheci também outros lados da mesma cidade. O centro bonitinho era muito pequeno perto de tudo que a cidade me oferecia. Muito além das artes, era a cidade das favelas.

Em dois anos conheci muitas pessoas que sequer sabiam da existência da feirinha de artes. Conheci pessoas que sabiam mais de São Paulo que da própria cidade. Porque ir ao centro da cidade, a parte bonita, não valia a pena se não tivesse retorno financeiro. Era melhor guardar dinheiro para trabalhar em Pinheiros do que gastá-lo vendo coisas que não lhes eram atrativas, de forma alguma. Coisas que nada significavam para eles.

Nesta cidade, aprendi a ver a beleza na periferia, a ver o desafio humano de ocupação em áreas de risco, a ver morros e morros, leitos de córregos – todos ocupados. Aprendi a ver que havia favelas no centro também e que elas disputavam lugar junto à linda vegetação. Aprendi que loteamentos irregulares de alto padrão em áreas públicas são encarados de maneira muito diferente das ocupações populares em terrenos particulares.

Embu das Artes, neste tempo, se tornou uma cidade muito especial para mim. Com uma beleza ímpar, que acho que só urbanistas (e) idealistas conseguem perceber.

Embu lida com desafios que não serão resolvidos em pouco tempo e que merecem um tratamento melhor do poder público. A cidade está nas mãos de quem joga com a sorte para a obtenção do máximo lucro – situação não muito diferente de qualquer outra cidade da região metropolitana de São Paulo.

Embu me fez crescer muito. Me fez ter a segunda experiência de engajamento e apego na vida. Me fez ter bons amigos, me fez ter a certeza do que fazer na vida, me fez ter certeza da cidadã que quero ser e que não consigo. Me fez entender coisas que um curso de arquitetura jamais conseguiria ensinar.

                                                                                                   Leila Petrini

Sobre nossa vizinha:  arquiteta e urbanista, movida a cerveja, rock’n’roll, café e bacon

Mariana

Mariana não é Ouro Preto. Ouro Preto não é Mariana.

Ouro Preto, popular. Mariana… caseira, silenciosa.

Ouro Preto, tantas ladeiras. Mariana, nem tantas assim.

Mariana, quase natural.

Te aprendi, Mariana, em alguns dias … costumo permanecer dias em lugares onde os turistas passam horas, meia hora, um quarto de hora.

E, Mariana, você era minha.

Na sua Rua Direita – turística, sim e não – caminhei. Cheguei até a Igreja da Sé que não era igual à Catedral que conhecia. Finquei-me longos minutos frente ao seu quebra-vento. Olhava, mirava… muito, muito pausadamente… Quanto sentido há na existência de um quebra-vento!

Mas eu tinha – << tinha!!, segundo padrões ocidentais>> que prosseguir. Continuar, ir adentro, ultrapassar, prosseguir, desvendar.

Paguei 2 reais. Entrei na sua Sé. E quase … não, quase não… Gritei. Por dentro, pelos poros, pela minha respiração, com minha voz.

Coisas que não são cotidianas. Mariana, você não é cotidiana. Mariana não pode ser cotidiana. Ah, aquelas paredes, suas paredes… não as posso revelar porque elas me disseram coisas que não posso partilhar.

Mariana, Mariana, Mariana…Sussurra-me….

Raquel Foresti

Oh Linda!

Já fazia muito tempo que eu desejava conhecer Olinda. Desde a época em que a expressão Mangue Beat fazia sentido pra mim. Mas se passaram muitos anos – quase dez! – e eu ainda não tinha conhecido tal cidade. Até que em 2009 fiz minha viagem pelo nordeste, e então me hospedei em Olinda.

Era quase como se eu a conhecesse. Suas ladeiras, suas cores, suas formas. Tão familiar, e ao mesmo tempo, tão surpreendente. Do alto da colina, não pude deixar de dizer “Oh linda!”. Era a visão de uma cidade entre árvores e protegida pelo mar. Às minhas costas, um casarão em estilo barroco, alguma igreja, árvores, chão de pedra e gente sorrindo.

Não, Olinda não é como as cidades barrocas mineiras, nem como a litorânea Salvador; não tente comparar. As ladeiras de Olinda carregam as alfaias, as janelas parecem cantar suas músicas, as fachadas coloridas sopram os metais. É ver a cidade e ouvir seus frevos e  batuques.

Alguém disse uma vez “Música é arquitetura líquida… ou a arquitetura não passa de música congelada. No caso de Olinda, não é congelada. Talvez ela seja plasma. Talvez ela seja única.

 Sandra Oliveira

O Barroco e o leite derramado

Não me lembro a primeira vez que ouvi falar sobre Barroco. Mas me lembro da primeira exposição que visitei. Era O universo mágico do barroco brasileiro, em 1998, no prédio da Fiesp. Sim, era de fato mágico. Dois anos depois, na Mostra Brasil +500, novamente me deparei com uma exposição sobre o Barroco, que me fez, enfim, me apaixonar por aquilo tudo. O som, a luz. Entre troncos de árvores que simulavam uma floresta, lá estavam imagem de santos, santas e nossas senhoras da conceição, sempre com suas saias esvoaçantes, num movimento que não se acaba, pois não há calma no Barroco.

Foi nessa exposição que percebi que minha educação católica na infância me ajudaria a compreender códigos da arte. O caminho das flores roxas que eram substituídas pelas amarelas me lembrava o período da quaresma que antecede a Páscoa, a ressurreição de Cristo. Aquilo era o Barroco: o se afundar no escuro, na dor, para depois ter a alegria de uma páscoa, a certeza, uma fé explosiva e talvez impositiva, mas que de tão bela, inunda a todos e cala as reflexões racionais. O Barroco era estonteante.

Depois disso, viajei muitas vezes para cidades que abrigam obras barrocas, e olhando para o horizonte das cidades mineiras, entendi porque eram também cidades barrocas. Não apenas por abrigar as obras. Mas por serem essas cidades também como suas obras – opulentas, ondulares, cheias de dobras e desdobras, como disse Deleuze.

Na cidade barroca a arte não se contém na obra. Ela sai, transborda, como o leite fervente que sai da jarra. Foi talvez a primeira vez que me deparei com a ideia da cidade enquanto obra de arte.

Sandra Oliveira