Ensaio sobre o muro

Diversas funções são atribuídas aos muros. Além de demarcar fronteiras entre o público e o privado, serve também como um lugar de expressões e sentimentos que, podem estar “reprimidos” ou não são expressos nas conversas do cotidiano.  Nos muros pichados podemos observar declarações de amor, palavras de ordem, xenófobas e de marcação de território.

É claro que o ato de pichar é comum na maioria das culturas urbanas nas grandes cidades do mundo. O que difere é a forma, a mensagem, o modo como esse ato é construído. Tudo depende de um contexto que vai além da latinha de spray e da coragem de consumir o fato. Cada lugar possui suas particularidades socioculturais e econômicas (por que não?!).

Diferentemente de São Paulo, onde a pichação tem uma cultura própria com suas gangs, modos de pichar, códigos, etc., ou seja, uma estrutura organizada, em Braga [Portugal] o ato de pichar significa usar o muro para exprimir um desejo, tornar público aquilo que é apenas da pessoa que picha.

O uso do grafite, como expressão de “arte” urbana, é muito pouco utilizado ou conhecido na cidade de Braga. Podem-se encontrar algumas obras que poderiam ser classificadas como proto-grafite, mas com os dizeres meramente pessoais, ou seja, são declarações de amor.

 

Outra função interessante dos muros em Braga é de servir como um lugar de preces e orações. Em diversas ruas, A fé é um caminho de mão dupla.geralmente próximas de igrejas católicas, existem muros no qual há uma espécie de santuário de um determinado santo católico, que mede aproximadamente um metro e meio de largura por dois de altura, onde as pessoas acendem velas e oram.

Braga é uma cidade extremamente católica com diversas igrejas em torno da cidade. Faço uma brincadeira (com todo respeito a Deus, ou seja lá o que for) sobre as igrejas de Braga. Se na música de Zeca Afonso – Grândola, Vila Morena – encontramos a frase “Em cada esquina um amigo”, na cidade de Braga encontramos em cada esquina uma igreja. Não bastasse as igrejas, ainda temos os altares nos muros da cidade. Cidade abençoada e super protegida. Diria até que as igrejas da cidade de Braga servem como um grande panóptico, no mesmo sentido usado por Jeremy Bentham e Michel Foucault. Mas essa já é outra história…

Ao andar pelas ruas de Braga, senti que estava sendo vigiado pelos santos católicos diante desses altares murais. Era também uma espécie de aviso sobre as opiniões de conformismo e resistência perante os imigrantes residentes em Portugal, a solidão, a dolência e a melancolia presentes nos corações bracarenses.

G.Stoner

Sobre nosso vizinho: 

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Gótico: entre Bauhaus, Duby e outras viagens possíveis

Quando eu era criança, gótico era uma pessoa como meu primo, que se vestia de preto e ouvia músicas de bandas estranhas como Bauhaus. Demorou um pouco para eu saber que tinha outro significado, mais antigo. Naquela época, não havia internet (pelo menos para mim) e a fotocópia era totalmente liberada. Foi a partir de um texto de xérox que descobri as igrejas góticas. Tão grandes e altas, em preto e branco. Olhando para a imagem com pouca definição de meu xérox, fazia sentido quando eu ouvia que a Idade Média fora a “idade das trevas”.

Demorou um pouco mais para eu ver uma imagem colorida de uma igreja gótica. Imagine minha surpresa. Foi como se, depois de séculos e séculos, tivessem tirado a poeira dos vitrais, e eu pudesse, enfim, ver a luz passando por eles. Era grandioso, incrível, sublime. Foi Duby que me explicou, através de seu livro O tempo das catedrais, que ali tinha sido criada a primeira arquitetura alinhada a uma teologia. E, convenhamos, como foi eficiente. A catedral gótica passa essa sensação de que o ser humano é pequeno e deus é luz, imaterial e grandioso.

Ainda não tive oportunidade de visitar uma catedral gótica de fato, mas apenas as construções que guardam suas referências aqui no Novo Mundo (mais precisamente a catedral da Sé, em São Paulo, a Catedral de Belo Horizonte e a de Fortaleza). Fico com as ideias de Duby, e reflito sobre isso cada vez que me vejo diante de algo grandioso – e não apenas as catedrais.

Sandra Oliveira

Vida cigana

Nasci quase na estrada, e com o nome Luiza cresci de cidade em cidade. Já adulta, vestida numa saia vermelha com flores, fui batizada por uma badjá (avó) cigana manoushe, que soprou, em meus ouvidos, meu novo nome: Jade Amud. As cores, os perfumes e a emoção que senti são indescritíveis. Se tenho sangue cigano? Não sei, mas sei que tenho e sempre tive uma vida cigana.

Aquele que foi meu pai era mineiro de Ouro Fino, um negociante esperto, dentista, professor de História, um admirável músico, advogado e principalmente um piadista e ótimo cozinheiro; era filho de um português com uma filha de italianos. Quando resolveu investir num posto de gasolina em Matão (SP), apaixonou-se pela jovem de cabelos longos e avermelhados que lá trabalhava.

Minha mãe e sua família eram da Itália, imigrantes que vieram para São Carlos (SP) trabalhar nas lavouras de café e fazer a América. Ela tinha vinte e dois anos, e ele, quarenta e dois. Uniram-se espiritualmente por um xamã, em Campinas (SP). Ela não conseguia segurar os filhos em seu útero, mas em sua quarta tentativa, me concebeu. Fui gerada na estrada, pois meu pai rodava de carro o Brasil inteiro, em busca de terras e negócios.

Então, nasci em Campinas, assim como meus dois irmãos, e com dois anos fomos para São Carlos, cidade fundada pelo Conde do Pinhal, situada num platô paulista, cercada pelas fazendas de café, e que antigamente abrigavam florestas de paineiras e pinheiros do Paraná. Fui imensamente feliz nessa cidade até meus oito anos, quando meu pai resolveu comprar outro posto de gasolina situado na estrada próxima da cidade de Aguaí (SP). Aguaí era muito diferente de São Carlos, cidade muito quente e pequenina, mas logo descobrimos o Clube de Campo da cidade. Lembro-me com carinho dos passeios no Clube de Campo, das amigas de escola e dos almoços no restaurante do posto Jaguari – o posto de meu pai. Admirava os caminhoneiros, e queria ser como eles, só que uma caminhoneira.

Em 1989, meu pai vendeu o posto Jaguari e comprou uma chácara e um sítio em Casa Branca (SP). Assim, fomos viver lá, naquela cidade, onde o centro ainda é uma pequena praça com coreto, rodeada por lindas e conservadas casas do século XIX, com suas ruas estreitas e largas de paralelepípedos. Toda minha adolescência grunge aconteceu nessa cidade.

Outra coisa marcou minha adolescência: naquela época, nossa casa estava sempre lotada em reuniões de amigos, de familiares e de desconhecidos, eram reuniões de cartomância, todas realizadas na grande e iluminada cozinha, cuja janela larga era a moldura de mangueiras e abacateiros, e sabiás, gralhas, anus pretos e pardos, tesourinhas… bem-te-vis… rolinhas… Quem tirava as cartas era minha mãe e às vezes, eu. Minha bisavó, que veio de Gênova, na Itália, era cartomante; minha mãe desenvolveu a linguagem oracular das cartas aos onze anos. E eu aprendi a cartomancia aos doze.

Cresci indo ainda para Goiás, Brasília, Minas Gerais, São Paulo e litoral paulista. Meu pai colocava a gente na caminhonete F1000 dupla e rodávamos longos quilômetros, sempre ouvindo Frank Sinatra, Beatles e Ray Connif.

Meus pais nos ensinaram muitas coisas boas, principalmente a não criarmos raízes, a desvendar lugares; o desapêgo do mundo, a viver sempre o “agora”. Hoje, ao escrever estas saudosas lembranças, vejo em minha mente meu pai sorrindo sempre com aquele filete de ouro em seus dentes fortes, e a voz macia e alta de minha mãe. Ouço em meu coração as nossas gargalhadas na estrada e na cozinha de Casa Branca. Agora, eles devem estar rodando pelo céu, entre planetas e galáxias do universo, e talvez, numa caminhonete.

Luiza Helena Monteiro (Jade Amud)

Sobre nossa vizinha: “Sou pisciana com lua em escorpião e ascendente em escorpião, por isso, sou movida pelas minhas emoções e pela minha intuição. Respiro arte e natureza. Defendo o meio ambiente, os animais, a justiça social e a cultura cigana.”

 

A face de Arafat

Os espaços são simbólicos. Em São Paulo podemos reconhecer… há o espaço dos ricos, dos novos ricos, da classe média, da nova classe média… até na Rua Augusta podemos delimitar quase milimetricamente as fronteiras invisíveis onde cada um pode estar. E ai daquele que desafia essas fronteiras… corre o risco de ilustrar até a capa da Vejinha.

Mas ainda se acredita na falácia de que no Brasil, portanto em São Paulo também, todo o ódio étnico, político, religioso que reina fora de nossas fronteiras políticas, aqui não se reproduz. Quem nunca viu uma reportagem no telejornal da tarde a imagem de um muçulmano e um judeu tomando café juntos?

Pois é, na real, a vida não é bem assim.

Deu na FolhaSP: em outubro, parte dos judeus do centro de São Paulo ficou incomodada com a restauração de um dos painéis da estação Marechal Deodoro do metrô. O principal motivo é a inclusão e destaque dado à imagem do líder palestino Yasser Arafat (1929-2004) em meio aos rostos que compõem o painel sobre a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de Gontran Guanaes Netto. Mais uma vez: INCLUSÃO E DESTAQUE. O rosto de Arafat não estava na obra original, foi incluída. Detalhe importante para quem não mora em SP: Metrô Marechal Deodoro é o que há de mais próximo do bairro de Higienópolis, onde vive grande parte dos judeus de São Paulo. Enfim, se quiser ler o causo todo o link é este.

Seria fácil e raso simplesmente dizer que judeus ou muçulmanos não podem delimitar espaços de atuação do artista na cidade. Só que isso não resolve a questão. Afinal, o que é a cidade para eles? Qual carga simbólica é incorporada a São Paulo? Onde a intervenção artística entra nisso tudo?

Poderíamos dizer que “aqui” (SP, Brasil), fora do território do conflito original, o artista deveria ter liberdade de inserir a face de quem bem entender no seu trabalho, inclusive a de Arafat. Mas não esqueçamos: definir o “aqui” não é tão simples assim. O “aqui” de um povo não é ligado a um território, necessariamente. Judeus e muçulmanos carregam suas crenças, valores e modo de vida para onde estiverem.

Uma de nós lembra-se de um israelense que falou emocionado que embaixo do muro das lamentações estaria o templo do rei Salomão e que aquele templo dava a ele sua identidade judaica. Já um amigo palestino disse com raiva que, por proibição de Israel, hoje não pode mais visitar o muro, sagrado aos muçulmanos. A outra se lembra de uma mesa organizada pelo Largo São Francisco para refletir sobre os seis meses posteriores ao 11 de setembro. Num ponto, um judeu e um muçulmano levantaram uma discussão quase silenciosa de como tanques são necessários, de como crianças com pedras são necessários.

Nas conversas destas duas blogueiras sempre se aponta para o fato de que não somos capazes de entender o emaranhado de significados – e emoções – que envolvem a história pessoal e coletiva de muçulmanos e judeus. Entendemos questões políticas, sociais, culturais… mas não sabemos o que é ser judeu, o que é ser muçulmano.

Apesar de reconhecermos que essa relação entre espaço e cultura é complexa, o conflito não deve ser legitimado, o que ocorreria caso a face de Arafat fosse retirada da obra de Gontran Guanaes Netto. Por isso, somos contra este tipo de ação que legitimaria esta fronteira invisível.

E esta discussão não termina aqui.

Raquel Foresti
Sandra Oliveira