O bairro

Todas as noites eu fazia o meu trajeto de ônibus predileto: tomava o Cemitério dos Pinheiros lá na Mooca, o ônibus cortava por um pedaço do Brás, passava pelo Pari – onde as pessoas terminavam o dia sentadas no degrau em frente à porta da sala -, descia em Santana e lá podia escolher entre os dois “Casa Verde” ou o Ana Rosa. Eu preferia o Casa Verde “H”, aquele que dava a volta ao mundo antes de chegar ao ponto final. Justamente pelo caminho mais longo por dentro da zona norte nas noites da semana em que as casas estavam com as suas nossa senhoras iluminadas e a luz azulada da televisão tingia o interior dos sobrados. Uma ou outra pessoa na rua, os cachorros e os pontinhos luminosos que nasciam por dentro de um abismo qualquer no lugar mais alto antes de penetrar na Casa Verde Alta. Correr pela avenida Casa Verde e entrar naqueles trechos de ladeiras e lombadas – a minha adolescência e os skates zunindo, uma banda tocando Ramones em alguma garagem, as pipas enroscadas nos fios, os botecos e as escolas de samba e as rodas de samba às sextas em todas as esquinas; a letra de Adoniran Barbosa que só  entendíamos ao cortar a Casa Verde de cima a baixo a bordo do ônibus que nunca chegava ao destino final. Os sobrados e as velhinhas e os balões queimando no céu escuro, as roseiras gigantescas e os gatos gordos nos muros, as fachadas dos estabelecimentos pintadas pelo mesmo artista enigmático, as padarias, o velho do Realejo. Os mesmos mendigos que sobem e descem as ladeiras descalços por anos com toda a poeira do bairro solidificada em seus calcanhares. A lua cheia como que pendurada por entre as copas das árvores da minha praça. Árvores que me abraçam desde os quinze anos em choros e risos e acompanharam os meus passos até o colégio, de volta pra casa. Até os morcegos que invadem o céu da Casa Verde assim que se faz noite parecem gostar do samba das esquinas que nunca aparece na televisão, que nunca atrai os mais descolados da cidade. Todo salão de cabeleireira pertence a alguma Vera. Os taxistas escutam samba rock dos anos setenta nos toca-fitas. Antigamente havia a Manchete e a Pracinha da Manchete, ponto de encontro dos skatistas e dos punks. Onde troquei as minhas primeiras fitas K7 e onde me roubaram um beijo que me fez sentir vergonha ao chegar à escola na manhã seguinte. O Playcenter do outro lado do rio e a roda gigante dourada refletida nas águas mortas do Tietê – as mesmas águas que levavam embora os sofás vermelhos e as bolas dos meninos nos dias de enchente. A quermesse da igreja, no alto da minha rua, em que tiros eram disparados e um amigo me deu um urso de pelúcia horrível enquanto a multidão corria apavorada ladeira abaixo. Os bêbados e os loucos que falavam com postes ornados por mariposas sedentas de luz artificial. A espera no portão por alguém que demora, mas sempre aparece. A minha primeira tatuagem e tantos sonhos ao descer a rua rumo a algum lugar. Os meus primeiros-tudo aconteceram em várias subidas e descidas e praças da Casa Verde e no silêncio de morte das duas da manhã eu fazia como todas as meninas de catorze, quinze, dezessete anos e fumava na janela observando o Campo de Marte cheio de luzes, as estrelas, a roda gigante, e, do outro lado da ponte, “A Cidade”.

No sereno da madrugada os nossos sonhos flutuavam para além da ponte. Para lugar nenhum.

Desirée Furoni

Nossa vizinha já publicou conosco Ainda sobre o viaduto. Vá conferir!

*Texto originalmente publicado no blog da autora, Espresso e Puro.

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