O órgão da Sé…

Dizem que música é arquitetura líquida. E só pode ser. É só ver o órgão da Igreja da Sé de Mariana. Já nos primeiros acordes do concerto, entre graves e agudos, senti aquela quase vontade de chorar.

Imaginei os fiéis nos séculos passados, pessoas simples e iletradas, ali sentados para assistir à missa falada em latim. As imagens e a música ultrapassam essa barreira. Em suas dobras e desdobras, subidas e decidas do Barroco, a arquitetura e a música falam em conjunto. A música dá luz às imagens. Algumas, com suas vestes esvoaçantes, chegam quase a voar. Com tantos sons, notas e cores, me pergunto qual deveria ser o som da corneta do anjo no alto do órgão.

Sandra Oliveira

Orgao da Se

 

 

 

 

 

 

 

http://www.orgaodase.com.br/

Catedral da Sé – Mariana – MG

Mariana

Mariana não é Ouro Preto. Ouro Preto não é Mariana.

Ouro Preto, popular. Mariana… caseira, silenciosa.

Ouro Preto, tantas ladeiras. Mariana, nem tantas assim.

Mariana, quase natural.

Te aprendi, Mariana, em alguns dias … costumo permanecer dias em lugares onde os turistas passam horas, meia hora, um quarto de hora.

E, Mariana, você era minha.

Na sua Rua Direita – turística, sim e não – caminhei. Cheguei até a Igreja da Sé que não era igual à Catedral que conhecia. Finquei-me longos minutos frente ao seu quebra-vento. Olhava, mirava… muito, muito pausadamente… Quanto sentido há na existência de um quebra-vento!

Mas eu tinha – << tinha!!, segundo padrões ocidentais>> que prosseguir. Continuar, ir adentro, ultrapassar, prosseguir, desvendar.

Paguei 2 reais. Entrei na sua Sé. E quase … não, quase não… Gritei. Por dentro, pelos poros, pela minha respiração, com minha voz.

Coisas que não são cotidianas. Mariana, você não é cotidiana. Mariana não pode ser cotidiana. Ah, aquelas paredes, suas paredes… não as posso revelar porque elas me disseram coisas que não posso partilhar.

Mariana, Mariana, Mariana…Sussurra-me….

Raquel Foresti

O Barroco e o leite derramado

Não me lembro a primeira vez que ouvi falar sobre Barroco. Mas me lembro da primeira exposição que visitei. Era O universo mágico do barroco brasileiro, em 1998, no prédio da Fiesp. Sim, era de fato mágico. Dois anos depois, na Mostra Brasil +500, novamente me deparei com uma exposição sobre o Barroco, que me fez, enfim, me apaixonar por aquilo tudo. O som, a luz. Entre troncos de árvores que simulavam uma floresta, lá estavam imagem de santos, santas e nossas senhoras da conceição, sempre com suas saias esvoaçantes, num movimento que não se acaba, pois não há calma no Barroco.

Foi nessa exposição que percebi que minha educação católica na infância me ajudaria a compreender códigos da arte. O caminho das flores roxas que eram substituídas pelas amarelas me lembrava o período da quaresma que antecede a Páscoa, a ressurreição de Cristo. Aquilo era o Barroco: o se afundar no escuro, na dor, para depois ter a alegria de uma páscoa, a certeza, uma fé explosiva e talvez impositiva, mas que de tão bela, inunda a todos e cala as reflexões racionais. O Barroco era estonteante.

Depois disso, viajei muitas vezes para cidades que abrigam obras barrocas, e olhando para o horizonte das cidades mineiras, entendi porque eram também cidades barrocas. Não apenas por abrigar as obras. Mas por serem essas cidades também como suas obras – opulentas, ondulares, cheias de dobras e desdobras, como disse Deleuze.

Na cidade barroca a arte não se contém na obra. Ela sai, transborda, como o leite fervente que sai da jarra. Foi talvez a primeira vez que me deparei com a ideia da cidade enquanto obra de arte.

Sandra Oliveira