Igrejas, Cinemas e Shoppings ou o medo dos deuses que virão.

Confesso, quando me sinto perdida, solitária, sem opções, corro para um shopping. Lá me sinto segura pois, em qualquer lugar do Ocidente conhecido há um shopping como todos os outros.

Quando nos sentimos inseguros precisamos de lugares conhecidos. Acredito que séculos atrás, esse era o lugar da Igreja – Católica Apostólica Romana, em especial. As imagens eram a palavra para uma sociedade iletrada, os bancos o repouso, o confessionário a expiação ou a confirmação de uma culpa que nunca larga. A Igreja, o edifício, a sua disposição era o lugar conhecido… onde se poderia, talvez, buscar refúgio como fez Margarida em Fausto – para sua desgraça.

Há um século talvez esse lugar tenha se alterado… depois de ver Cinema Paradiso, ficamos com a impressão que Nossa Senhora de Fátima foi substituída por outras senhoras sem santidade alguma: Bardot, Cardinale, Dietrich. O refúgio era o cinema. A angústia substituída pelo sonho projetado, pela imagem pensada, pela história creditada. Aquelas antigas poltronas não serviam para o conforto e controle absoluto como nos cinema insípidos de hoje, lá éramos testemunhas satisfeitas pelo irreal. A entrada era pelas calçadas, como nas Igrejas, lá conhecíamos novos desejos, tudo era mais possível.

Hoje nosso deus é o consumo e o Shopping nosso refúgio. Há aqueles que são refúgios dos refúgios, apenas os munidos de carros podem entrar. É artificial, feito para suprir o deus da aparência. É ilusão. A segurança para um ser que nasce, vive e morre é também uma ilusão. A Igreja e o cinema nunca nos enganaram sobre a condição humana – nos enganaram em outras coisas… – mas o consumo maqueia o grito que deixamos de dar, o final que todos um dia iremos ter.

Raquel Foresti

Quando fui a Buenos Aires

Fui a Buenos Aires duas vezes. Uma em 2006 e outra em 2010.

Na primeira vez, poucos de meus amigos conheciam a cidade porteña. Hoje, muitas vezes é mais barato ir para lá do que visitar o nordeste brasileiro. Por isso, é comum quando andamos por ruas como a Calle Florida e encontramos mais gente falando português do que espanhol.

Mas é inegável, a cidade é encantadora. É encantadora de dar dois suspiros! Lembro-me de passear com a Raquel por suas pequenas ruas, observar os pequenos prédios, aquelas casas tão antigas com um ar nostálgico e as pessoas com a velocidade de uma metrópole. É claro que nos perdemos algumas vezes. Mas era fácil olhar naqueles pequenos guias de bolso e encontrar onde estávamos. E lá seguíamos nós. Cinema na Corrientes, curiosidade no Barrio Chino, feria de San Telmo e Recoleta, as faculdades tão altas e majestosas (Por fora. Por dentro elas tinham problemas tão próximos aos das universidades brasileiras).

Ah e o tango… Além do Café Tortoni, lindo e suntuoso, cheio de turistas como yo… Como era lindo ouvir o tango nas ruas! Durante a feira de San Telmo, a orquestra típica El Afronte faz suas apresentações de tango. É lindo, tem bandoneon, violoncelo, piano, vocalista estiloso e tudo mais. Tudo isso na frente da igreja de San Pedro Telmo. Raquel e eu adentramos para uma visita guiada na igreja jesuítica, ao som da orquestra que tocava lá fora. Juro, era lindo. Encantador.

E em outros pontos da feira e em outras ruas também havia tanguistas, uns menos equipados, na verdade. Sabe, houve momentos em que comparamos nossos ambulantes que tocam forró com os tocaderes de tango das ruas de Buenos Aires. Eles ficam lá, com aquele olhar de nostalgia e dor, que só tango proporciona, fazendo música no meio da rua enquanto pedem dinheiro aos passantes… e os brasileiros, tocados por aquela cena, contribuem… ah, como somo empáticos com nossos hermanos argentinos!

E teve o dia em que procuramos um boteco. Sim, boteco com mesinha pra tomar cerveja, sabe? Não, não era um café que procurávamos. Era um boteco. Até bife de soja encontramos fácil, mas o tal do boteco foi difícil. E quando achamos, fomos tratadas a pão de ló e media luna. Éramos “gringas”, nas palavras do garçom rs.

Teve também o dia que quis descobrir o que era um pomelo. Não havia suco de laranja, só pomelos. Foi um custo só achar um pomelo. E foi o professor de espanhol da Raquel que explicou que “pomelo” não é lá palavra de se ficar falando assim. Algum argentino poderia achar que eu queria ver os seios de alguém. Claro, vexames a gente vê por aqui.

Foi também o professor da Raquel que nos explicou o drama imobiliário de Buenos Aires. Antes, ali naquele centro, viviam milhares de famílias, a maioria de baixa ou média renda. Mas ai teve uma reestruturação. Todo mundo sabe que a Argentina já passou bocados de crises, e é claro, a galera precisava arrumar uma grana. Inclusive com turismo. Passaram a cotar os aluguéis e imóveis em dólar (e muitos dólares), e aquela gente toda foi expulsa de lá. Só mora no centro agora quem tem dinheiro! E pra combinar com o visual, acabaram com os mendigos. No centro. Porque a cidade é para todos, então tem que ter opção pra todo mundo. Se quiser mendigar, que vá para o outro lado da cidade! Os únicos pobres que não foram expulsos de suas moradas foram os do Caminito. Mas é claro, aquelas casas exóticas (e distantes do centro) atraem curiosos. E tem tango! Como turista gosta de tango!

Mesmo com todas essas coisas, voltei a Buenos Aires em 2010, só pra desmistificar. Infelizmente, a pobreza não foi erradicada, mas também ninguém conseguiu segurar os pobres nos entornos. Já havia mendigos no centro, junto com os milhares de brasileiros, os alfajores, os shoppings e o tango.

O tango, dessa vez, eu vi no La Viruta, uma casa onde os porteños e alguns turistas ousados vão aprender a bailar. Distante do centro, sem fachada bonita, mas com muita gente. La Viruta é incrível, como toda manifestação autêntica. Manifestação, não, me desculpe. Como a vida do dia a dia. Lá conheci pessoas ótimas, dei risada, pisei no pé de alguém, aprendi a bailar. Despedia-me e voltava no outro dia. Estavam todos lá. Dos amigos que fiz, peguei carona duas vezes. O carro era antigo, como aqueles que vemos por suas ruas. Mas contrastando com o charme dos carros antigos, assustei-me com a trava de segurança. Não me lembro de ter visto algo daquele jeito nem quando eu era criança. Talvez o carro fosse mesmo da época que eu era criança, época que eu nem reparava em sistemas de segurança de automóveis, pobreza e riqueza, exploração de turismo, tangos e pomelos.

Em 2010 eu caminhei diferente por Buenos Aires. É claro que as ruas ainda são lindas, os prédios são lindos, a música é linda, os livros são baratos, as ruas são planas e tudo isso favorece a flanerie… Mas eu não podia deixar de pensar que os antigos moradores daquelas casas tiveram que sair de lá pra eu chegar.

E, ao invés de dois suspiros, dei um suspiro e meio.

 Sandra Oliveira

Ensaio sobre o muro

Diversas funções são atribuídas aos muros. Além de demarcar fronteiras entre o público e o privado, serve também como um lugar de expressões e sentimentos que, podem estar “reprimidos” ou não são expressos nas conversas do cotidiano.  Nos muros pichados podemos observar declarações de amor, palavras de ordem, xenófobas e de marcação de território.

É claro que o ato de pichar é comum na maioria das culturas urbanas nas grandes cidades do mundo. O que difere é a forma, a mensagem, o modo como esse ato é construído. Tudo depende de um contexto que vai além da latinha de spray e da coragem de consumir o fato. Cada lugar possui suas particularidades socioculturais e econômicas (por que não?!).

Diferentemente de São Paulo, onde a pichação tem uma cultura própria com suas gangs, modos de pichar, códigos, etc., ou seja, uma estrutura organizada, em Braga [Portugal] o ato de pichar significa usar o muro para exprimir um desejo, tornar público aquilo que é apenas da pessoa que picha.

O uso do grafite, como expressão de “arte” urbana, é muito pouco utilizado ou conhecido na cidade de Braga. Podem-se encontrar algumas obras que poderiam ser classificadas como proto-grafite, mas com os dizeres meramente pessoais, ou seja, são declarações de amor.

 

Outra função interessante dos muros em Braga é de servir como um lugar de preces e orações. Em diversas ruas, A fé é um caminho de mão dupla.geralmente próximas de igrejas católicas, existem muros no qual há uma espécie de santuário de um determinado santo católico, que mede aproximadamente um metro e meio de largura por dois de altura, onde as pessoas acendem velas e oram.

Braga é uma cidade extremamente católica com diversas igrejas em torno da cidade. Faço uma brincadeira (com todo respeito a Deus, ou seja lá o que for) sobre as igrejas de Braga. Se na música de Zeca Afonso – Grândola, Vila Morena – encontramos a frase “Em cada esquina um amigo”, na cidade de Braga encontramos em cada esquina uma igreja. Não bastasse as igrejas, ainda temos os altares nos muros da cidade. Cidade abençoada e super protegida. Diria até que as igrejas da cidade de Braga servem como um grande panóptico, no mesmo sentido usado por Jeremy Bentham e Michel Foucault. Mas essa já é outra história…

Ao andar pelas ruas de Braga, senti que estava sendo vigiado pelos santos católicos diante desses altares murais. Era também uma espécie de aviso sobre as opiniões de conformismo e resistência perante os imigrantes residentes em Portugal, a solidão, a dolência e a melancolia presentes nos corações bracarenses.

G.Stoner

Sobre nosso vizinho: 

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Gótico: entre Bauhaus, Duby e outras viagens possíveis

Quando eu era criança, gótico era uma pessoa como meu primo, que se vestia de preto e ouvia músicas de bandas estranhas como Bauhaus. Demorou um pouco para eu saber que tinha outro significado, mais antigo. Naquela época, não havia internet (pelo menos para mim) e a fotocópia era totalmente liberada. Foi a partir de um texto de xérox que descobri as igrejas góticas. Tão grandes e altas, em preto e branco. Olhando para a imagem com pouca definição de meu xérox, fazia sentido quando eu ouvia que a Idade Média fora a “idade das trevas”.

Demorou um pouco mais para eu ver uma imagem colorida de uma igreja gótica. Imagine minha surpresa. Foi como se, depois de séculos e séculos, tivessem tirado a poeira dos vitrais, e eu pudesse, enfim, ver a luz passando por eles. Era grandioso, incrível, sublime. Foi Duby que me explicou, através de seu livro O tempo das catedrais, que ali tinha sido criada a primeira arquitetura alinhada a uma teologia. E, convenhamos, como foi eficiente. A catedral gótica passa essa sensação de que o ser humano é pequeno e deus é luz, imaterial e grandioso.

Ainda não tive oportunidade de visitar uma catedral gótica de fato, mas apenas as construções que guardam suas referências aqui no Novo Mundo (mais precisamente a catedral da Sé, em São Paulo, a Catedral de Belo Horizonte e a de Fortaleza). Fico com as ideias de Duby, e reflito sobre isso cada vez que me vejo diante de algo grandioso – e não apenas as catedrais.

Sandra Oliveira