Muquifinho Pós-Moderno

Uma lembrança azul-esverdeada me vem quando penso naquele lugar.

Éramos ratas do Centro Cultural São Paulo – CCSP. Nosso ponto de encontro, nosso lugar para estudar, para música, teatro. E num desses encontros, quando a fome de “comer qualquer coisinha” bateu, descobrimos o lugar que batizamos de “Muquifinho pós-moderno”.

Na Vergueiro em meio ao vai e vem dos carros, ônibus, da presença do metrô sob os nossos pés, entramos numa portinha. Parecia o único lugar que vendia quitutinhos. Então nos sentimos, talvez, numa cena do “De volta pro futuro”. O detalhe é que todas as viagem brasileiras que poderiam ser feitas pelo DeLorean reuniam-se naquele lugar.

As paredes eram meio azuladas-esverdeadas. Tinha docinhos pra vender, frutas, bolachas industrializadas, bebes, um atendente (não me lembro o sexo) já de idade, com jeito de “carcomido da roça”; uma televisão ligada, também velha, jornais, coisas de plástico. Era um lugar pequenino. Um pouco sujinho. E em uma das paredes, uma reprodução de quadro modernista…  tocava uma música da Flora Purim,

– Ahn?

Nos olhamos, Raquel e eu. Rimos. Era muito engraçado e curioso ver um quadro modernista em meio a tudo aquilo. Em meio aquele muquifo verde-azulado taciturno, se a memória não me falha, havia um Tarsila do Amaral.

Estávamos surpresas pois achávamos que encontraríamos água, refri, kisuco, paçoca, bananinha e chiclete. E o muquifinho oferecia aos nossos olhos uma miscelânea de pequenas porções de todo tipo, toda época, sem relação entre si. Tudo que o Brasil tem o dom de miscigenar.

O muquifinho parecia ter a voz de Mário de Andrade. Parecia dizer “Só a antropofagia nos une”. E para nós, duas meninas recém entradas na FFLCH… aquilo foi surreal,  comicamente surreal. E nos fez refletir sobre a cidade. Deve ter sido a primeira conversa sobre a cidade que tive com a Raquel.

Ao colocar os pés pra fora do muquifinho, me senti saindo de um looping na espiral do tempo. Voltaram subitamente todos os ônibus, carros, metrôs que não faziam parte do muquifinho. Não entravam lá.

Provavelmente o dono nem pensava em nada disso. Se pudesse, com certeza até um fusquinha ele venderia por lá. Talvez com uma foto de D. Pedro I colada em cima de um adesivo de campanha escrito “Lula lá”.

Anos depois procuramos pelo muquifinho.

Não resistiu ao tempo. Construíram um prédio no lugar. Perfeitamente sintonizado com os carros, ônibus, metrôs e vai e vens da Vergueiro.

Mas para sempre será emblemático em nossa memória, salve o muquifinho pós-moderno!

Hilda Maria

sobre nossa vizinha: Hilda Maria é cantora e compositora com duas cidades no coração: Santos e São Paulo.

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