Kennedy*

Ele parecia safo, era pequeno e magro com olhos verdes enormes numa cara permanentemente suja e cheia de feridas. Loirinho dos cabelos encaracolados, sorridente, todo maltrapilho. Andava sempre com um pedaço de madeira com o nome “Kennedy” marcado  à caneta.

– Você tem que tomar cuidado, Kennedy.

– Tia, ninguém mexe comigo. Eu durmo com esse pau aqui e ninguém mexe comigo.

– Sabe ler e escrever?

– Só aprendi a escrever o meu nome, tia.

– E você queria saber ler e escrever?

– Queria, sim.

Eu o encontrava quase diariamente pelos arredores da Praça Julio Prestes. Ao me ver, exclamava um “tia!” com um sorriso no rosto sujo e cheio de feridas, chegava perto de mim, pedia pra comprar qualquer coisa pra ele comer ali no mercado, ou no bar.

– Tia! Tia, tia, tia, compra um Danone pra mim?

Lembro do nosso primeiro encontro. De noite, na praça, eu a caminho do ponto de ônibus, cachimbos acendiam e apagavam no meio do mato. Pareciam vagalumes, mas eram os noias.  Cruzou o meu caminho aquela coisa mirrada, suja, descalça, cabelos loiros desgrenhados, sorriso num rosto desesperado:

– Tia! Não vou te assaltar, juro! Ó, tô até longe de você. Vamos comigo ali no bar, você compra uma quentinha pra mim? Eu tô com fome.

– Não tenho dinheiro hoje.

Apertei o passo. Ele veio atrás.

– Mas tia, eles aceitam cartão…

Passa outro menino, também conhecido na área, outrora bochechudo e sorridente e consumido pela pedra meses depois, e alerta:

– Não dá não tia, é pra fumar pedra.

A coisinha loira suja e desgrenhada começa a gritar que era mentira, e, no estilo criança-mimada-que-faz-birra porque não ganhará o brinquedo, vai atrás de mim até o ponto de ônibus choramingando “tia, to com fome…”, se joga no chão, bate com a cabeça no meio fio, abre um berreiro. E me constrange.

Todos olhavam pra mim, talvez tentando imaginar qual seria a crueldade que fiz com o pirralho ali. Subi no primeiro ônibus que passou, Kennedy ficou pra trás.

Nossos encontros se tornaram frequentes. Com certeza ele era muito esperto e se valia do sorriso bonito, dos cabelos loiros e dos olhos verdes para encantar “tias” talvez não tão encantadas pela maioria dos meninos da região, já acabados pelo crack.

Não era o meu caso. Até resistia mais ao pequeno galante por sacar a estratégia. O que mais me enternecia era o “tiiia” com sorriso gigante exclamado ao me encontrar. Eu exclamava um “Keeennedy” e minutos depois estava em algum pé sujo comprando uma marmita pra ele, ou o Danone no mercadinho,  o Oliver Twist da Cracolândia atrás de mim. Conversava vez ou outra com algum menino ou menina de cachimbo pendurado no pescoço. Havia, no entanto, a distância de realidades. Eles estavam lá antes do Kennedy. Este era o pedacinho de mazela social que me sorria, e conversávamos,  e ríamos e discutíamos.  Ainda que o objetivo final fosse um Danone.

Deve ter fumado muita pedra em cima do meu enternecimento: descobri tempos depois que as marmitas, danones e bolachas eram vendidos no “Bazar do Crack”.

E na minha ingenuidade, sonhava em salvar todos aqueles meninos e meninas, uma Apanhadora no Campo de Crack.

Um dia estávamos num desses pés sujos, o atendente olhando feio pro moleque – “mais uma otária que o pirralho traz aqui pra comprar marmita” – e uma cena de um jogo qualquer de vídeo game passava na TV do boteco. Kennedy se deteve na imagem, socava o ar, murmurava “vai, vai”.

– Você conhece esse jogo?

– Eu tinha esse jogo! É pro PS 2 e blablabla (não me recordo de todas as informaçõs técnicas que ele desatou a falar sobre o negócio)

– Kennedy, por que você tá aqui?

Silêncio.

– Eu tinha esse jogo em casa. Mas não quero mais voltar pra casa.

E fez cara de quem não permitia mais perguntas sobre o seu passado.

Nossos encontros eram pontuados pelas minhas perguntas e conselhos e broncas. Ele baixava a cabeça, quieto. Como quem ouve um pito da própria tia.

– Escuta, você fica fumando essa porcaria…e  não adianta falar que não fuma porque não sou idiota. Você fica fumando essa porcaria… quantos anos você tem?

– 12.

Doze. Eu dava uns sete pela estrutura física. Doze anos.

– Você não vai durar muito se não parar, Kennedy. Olha só, eu tenho asma…

– … então temos uma coisa em comum.

(e sorriu, malandreco.)

– Você tem asma e fuma pedra ainda?!

– Mas você também tem e fuma cigarro que eu já vi!

Bingo. Voadora na costela. Na época eu tinha voltado a fumar. Larguei o cigarro tempos depois.

– É, mas fumo muito menos cigarros por dia do que você deve fumar pedras. Então, ia falar sobre isso… na verdade, não sei o que ia falar sobre a minha asma.

Ele e sua moribundice me faziam desabafar, às vezes.

– Escuta, você quer voltar pra escola?

– Quero.

– Quer mesmo? Então a primeira coisa é sair daqui. Você tem que sair daqui, ouviu?

Uma noite, meu pai me deu carona até a minha casa. Cruzávamos a avenida Rio Branco quando algo pequeno, envolto num cobertor, pulou em frente ao carro tão logo o sinal fechou.

– Kennedy!

– Tiiiia!

E correu até a minha janela.

– Pai, esse é o Kennedy. Kennedy, esse é o meu pai.

– Tia, tem 1 real?

Meu pai, chocado demais, apalpava o bolso em busca de algum trocado.

– Escuta, você vai comer – é pra comer esse dinheiro, não é?

– Tia, lembra do que eu já falei pra você?

– O quê?

– Quando tiver dentro do carro, não fica com a bolsa no colo. Deixa no chão, perto do seu pé.

Olhei pra bolsa no meu colo. Não consegui falar nada.

Meu pai atordoado ao lado.

– Você não pensa em adotar, pensa?

Pior que pensava. Na minha inocência, me via como a “mãe burguesa” do moleque. Vivia preocupada. Havia o que fazer? Eu só conseguia alcançá-lo conversando. Sei lá porque ele me ouvia. E gostava de conversar comigo. Paternalismo? Espiação de culpa? Eu gostava dele. Havia certa pureza ainda não totalmente diluída pela vida no entorno da Julio Prestes.

– Tia, tia, olha, tomei banho hoje no albergue!

Um Kennedy mais limpinho, com um chapéu de marinheiro  mal encaixado na cabeça loira, me sorria logo cedo. Era o primeiro sorriso, muitas vezes o único, que eu via durante todo o dia.

Tempos depois, uma reportagem sobre a venda de crack no centro revelou um Kennedy que comprava e vendia pedras – reconheci pelas imagens feitas pela câmera de TV escondida em um dos prédios da região.

Ele sumiu. O boato era: Fundação Casa. Tentei descobrir o paradeiro, entrar em contato. Por quê? Era um moleque como tantos outros do centro, viciado em crack, não duraria muito. O que eu teria para falar a essa altura? Meses se passaram. Um Kennedy mais alto, mais magro e de cabeça raspada me aborda.

– Oi, tia.

– Onde você estava?

– Em Santo Amaro. Compra alguma coisa pra mim?

Uma amargura o envolvia. Como quem não quer mais conversa, porque conversa não salva ninguém.  Um olhar duro, de homem que viveu setenta anos numa guerra. Já devia estar com 13 anos. Alguém o teria  feito acreditar que já era um homem.

– Tô sem dinheiro…

Falou um “valeu, tia” e deu as costas, decepcionado. Nunca mais o vi.

Black sheep of the angels riding, riding down the line
We think there is a soul, we don’t know
That soul is hard to find

Desirée Furoni

Nossa vizinha já este conosco em duas outras oportunidades: O bairro e Ainda sobre o Viaduto.

*Texto publicado originalmente no blog da autora.

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