Ame-a e deixe-a ser o que quiser: São Paulo

Uma foto andou circulando no facebook e causou discórdia entre as duas administradoras deste singelo blog:

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A questão é que uma delas, Raquel, concorda visceralmente com esta afirmação. Ela se sente sufocada pela cidade em si, pelas noticias da cidade, pelo que se fala pela cidade, pelo o que a cidade pensa de si, pela maneira como os i/migrantes são tratados por aqui, pelos espaços, pela (i)mobilidade urbana,por tudo. Ela se identifica como exilada do mar, ou seja, para ela não há lar que preste longe do mar. Detalhe: esta senhorita NASCEU em São Paulo e passou grande parte da vida EM São Paulo. Vive dilacerada, dizendo que por aqui há coisas muito bacanas –a noite, a vida cultural, a comida – mas que se paga um preço muito alto por isso. Qualidade de vida é o sonho que passa nas cabeças de quem passa mais tempo no trânsito do que dormindo – exageros à parte.

Para Raquel, São Paulo é uma cidade excludente. Você pode pagar R$ 3,00 OU R$ 25,00 num pão com mortadela dependendo do lugar onde compra. Não porque a mortadela de um lugar seja melhor do que de outro, ou que o pãozinho tenha sido feito com a farinha dos deuses… isso é uma iniciativa indireta de se excluir pessoas de determinadas classes sociais dos lugares onde elas não podem estar (a não ser que seja funcionário). Aliás, a própria (i)mobilidade urbana segue a lógica de exclusão. Se você tem carro, apesar do trânsito, você tem liberdade para circular na cidade, mas a (i)lógica dos transportes públicos colocam àqueles que dependem dele numa restrição de horários e lugares para onde pode sair. Ou será que depois de pegar ônibus/metrô/trem lotados e morosos a galera ainda tem que ter ânimo para ir numa vernissage?
Para além, Raquel tem suas dúvidas se a vida de metrópole, com todas as coisas ‘empolgantes’, é realmente um caminho para uma realização pessoal na vida de alguém. Enfim, mas isto é outra história…

Já a outra, Sandra, pensa o oposto… Ela sempre estudou e trabalhou em São Paulo. Mas não mora em São Paulo, em Diadema, que também é longe do mar. Em Diadema há imensos problemas, como na periferia de São Paulo. Mas não tem metade do que há em São Paulo, mesmo sendo tão pertinho. Ela pensa que, talvez, os problemas não estejam em São Paulo exatamente, mas na vida de metrópole, de cidade grande etc. Ou será que a maioria das pessoas que moram em Diadema vive ali simplesmente porque prefere, diante da opressão da cidade paulistana?

Sandra não mora em São Paulo, mas vive suas possibilidades. Em São Paulo ela pode estudar e trabalhar com o que quer e gosta. Em muitas cidades não. E há bares, restaurantes, milhares de lugares caros ou baratos para ir. E bar – ou boteco de bairro – só pode ficar aberto até às 23:00, por causa da lei seca). Já os bares grandes… eles não existem por lá, e também teriam que seguir a lei. (Em Diadema, o primeiro e único Mc Donalds abriu faz uns dez anos, imagina então outras possibilidades…). Em São Paulo, ainda que concentrados, existem diversos museus, galerias, centros culturais, cinemas, teatros… Coisas que a Sandra gosta tanto, mas mal vê na cidade-morada.

Há, claro, o problema do trânsito, o transporte público, ônibus lotados, metrô com fila quilométrica. Imagina para ela, que vem de outra cidade e usa o sistema do EMTU. Ônibus a cada 40 minutos não é pra qualquer um. Só pra quem é da região metropolitana ou do interior, onde não há tanta (não?) demanda como em São Paulo. Apesar dos perrengues de transporte e trânsito, a tudo se dá um jeito. Se fosse morar em Céu Azul, cidade paranaense onde sua avó vive, jamais teria feito faculdade nas redondezas e não iria com frequência a teatros e museus, pois não há tantos por lá. A maior atração da região são as Cataratas do Iguaçu, distante cerca de duas horas em carro. E Sandra garante que não abdicaria das mazelas de São Paulo para ver as cataratas todos os dias, depois de dirigir duas horas de carro. Até porque ela não dirige, e para pegar o ônibus mais próximo, ela teria que caminhar cerca de oito quilômetros.

E quem está certa? É questão de um ter tido experiências melhores que a outra? É o copo meio cheio ou meio vazio? E para você, como é São Paulo?

Raquel Foresti
Sandra Oliveira

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4 comentários sobre “Ame-a e deixe-a ser o que quiser: São Paulo

  1. Sinceramente..eu nem sei mais o que acho de São Paulo. Sempre preferi o mar, sempre preferi o litoral, acho o caos, a pressa, a cobrança por carreira e sucesso que habitam são paulo sufocantes..então eu me afastei disso tudo sem mudar de cidade, e aí passei a conviver melhor com São Paulo. A cidade não ficou menos caótica e nem menos suja ou poluída por causa disso, inclusive eu passo bem mal com o clima de SP ainda, mas já dá pra encarar de outra forma.

    Essa coisa de ter filmes e shows interessantes, museus, teatro pra caramba pra mim não compensa a falta do mar por perto, nem da brisa da maresia no rosto..mas ir no Ibirapuera dar uma corrida dá uma ajudinha..Acho que pelo fato de achar que cultura é tudo que se produz e arte se faz com ou sem erudição, não acredito que se tenha mais cultura em SP do que na Bahia ou Manaus..acho q temos aqui mais equipamentos de cultura, mas a cultura local já foi faz tempo pra dar lugar a esse rótulo cosmopolita que SP tanto curte.

    Eu acho q a cidade é a gente que faz também né?! E cada um lida com a cidade dentro dos seus limites..eu reconheço q tenho dificuldades..não valorizo o que SP tem de valor real..e me interesso pouco pelo que a cidade tem a oferecer..é isso..

    beijo e quero ver mais postagens nesse blog hein galera..! 😉
    maneco

  2. L Prado

    Nunca morei em outro lugar a não ser aqui. Vivo constantemente achando que SP não tem mais jeito. Por todos os motivos que vc falou, também me irrito com SP.
    Amo São Paulo, mas sonho com qualidade de vida…

  3. A opinião das autoras partiu apenas de uma interpretação da frase: da que a cidade limita muito a vida, que já é curta.
    Mas pensou em outra interpretação? A de que a cidade é tão diversa e multifacetada, com tantas experiências e possibilidades que apenas uma vida não é suficiente para viver a cidade em sua plenitude.

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