Sport Club Corinthians Paulista, a praia paulistana

A cidade de São Paulo, um lugar de grande diversidade e números exorbitantes, carrega em sua magnanimidade muitas mazelas e profundos contrastes que refletem a dialética social em todos os espaços e setores, revelando seus abismos e pontos de tensão que ciclicamente são deflagrados, eclodindo em violência, protestos e comoção pública. A violência urbana, em sua amplitude causal, seja pela xenofobia, homofobia, racismo, criminalidade, revela justamente a ausência de integração cultural, territorial e étnica mais profunda entre os diversos moradores que compõem esta diversa e não tão homogênea cidade.

Ao contrário de São Paulo, muitas metrópoles, como o Rio de Janeiro e Salvador, gozam do privilégio natural que as circunda, a praia, e o utilizam como instrumento de mediação social. Os trajes que se usam nestes lugares dificilmente diferenciam as pessoas em suas classes e isso facilita a integração social. Em Sampa, os territórios, inclusive públicos, são verdadeiros feudos e, assim, frequentados pelas pessoas de maneira segmentada. A segregação espacial tácita se mostra em muitos locais.

A maior interferência na precária mediação social da terra da garoa se dá exatamente na torcida do Corinthians. Todas as classes e espaços da cidade se unem em torno desta verdadeira legião de torcedores que, sem perceber,  realiza uma função social, representando um dos pontos de regulação das diferenças e, talvez, um dos amenizadores das tensões sociais que, sem este bando de loucos, poderiam se tornar insuportáveis.

Na torcida, ou na devoção corintiana, as diversas classes, gêneros, culturas se encontram. O porteiro de um grande condomínio tem contato próximo com o morador rico e, juntos, eles relaxam, comemoram e se indignam com a mesma causa. O uniforme da torcida, a camisa corintiana, não difere socialmente ninguém. Quando o Corinthians conquista um título ou apenas uma vitória sobre um rival os cumprimentos espontâneos entre os torcedores se espalham por toda a cidade.

Uma linguagem própria toma conta das ruas e conseguimos ver na diversidade traços de igualdade, os quais podem servir para amenizar as tensões sociais que a cidade experimenta no dia a dia. Os símbolos corintianos, seja nos jargões, comportamentos ou, até, no brasão estampado nas camisas e corpos, convertem-se em uma senha de comunicação entre as mais variadas pessoas. Algo em comum pode ser notado e compartilhado entre elas.

São Paulo continua sendo um lugar de grandes diferenças, mas certamente seria bem pior se não houvesse essa bandeira em comum que congrega pobres e ricos, todos os seus territórios e que é mais que uma mera torcida, desempenha uma função social básica nas relações entre os cidadãos. A torcida do Corinthians estabelece uma comunicação essencial na perspectiva social e cria um ambiente comum entre os vários setores da sociedade. Ela caracteriza uma espinha dorsal que cria um mínimo de estabilidade em meio ao caos urbano.

Sócrates Magno Torres

Nosso vizinho já publicou pelo Cidadeando sobres skates e políticas publicas e também sobre uma tal Síndrome de Sucupira. Vá conferir!

Anúncios

11 comentários sobre “Sport Club Corinthians Paulista, a praia paulistana

  1. Deca Neves

    Sócrates, nome do autor, nome do doutor, nome do meu gato. Corinthiana que sou, concordo pelnamente com vc. Costume dizer que a experiência de ir a um jogo do corinthians é antropológica e quase transcendental. Contagia, ilumina, alegra o sisudo e elitista bairro do Pacaembu, cujos moradores querem ver o futebol bem longe de seus quintais. Quando o itaquerão estiver pronto, esta congregação de pobres e ricos estará ainda mais latente. A partir dali, os ricos é que entrarão no mundo dos pobres. como será? E os moradores do Pacaembu, pobres serão eles, que não terão mais o bonito espetáculo de ver o corinthians ali, por perto!

    1. Sócrates Magno Torres

      Essa capacidade de interferir na urbanidade também é bem lembrada, Deca. Na verdade existem diversos aspectos em que, mais que o time em si, a torcida toma forma e que pode criar nichos para grandes estudos.

    1. Sócrates Magno Torres

      Li seu texto, Lucas.Muito bom. Na verdade temos este pensamento muito difuso no inconsciente coletivo. A torcida, muito mais até que a instituição futebol ou clubes, tem este papel.

  2. Felipe Fantin

    É um claro depoimento de um corintiano que não enxerga qualidades e a variedade nas outras torcidas. O Palmeiras, por exemplo, representa uma bandeira de resistência em São Paulo. Teve que mudar de nome, tentaram roubar seu estádio, é tachado de fascista mesmo congregando pessoas de todas as classes sob a bandeira alviverde. O Palmeiras representa a história de um povo italiano que chegou ao Brasil e ajudou a construí-lo, mas também representa a o preconceito do brasileiro em relação à sua própria história. A Itália e os italianos são desprezados pela mídia, a seleção italiana de futebol é odiada pela maioria. No Rio, com o Vasco, é semelhante. E se o Corinthians fosse tão auto-suficiente assim, não precisaria se aliar ao que há de pior no mundo do futebol: a CBF de Ricardo Teixeira, a Globo, bajular a Fifa, para conseguir crescer. O Corinthians acabou no momento em que jogou sua história no lixo em troca de um estádio, de mais dinheiro a emissora, de patrocínio de uma estatal. Gosto de Lula, mas o que ele fez pelo seu time de coração é ultrajante.

    1. o Sócrates não é corinthiano, Felipe. Acho que ele torce para o Vitória… Enfim, há várias coisas contestáveis nas ações da instituição, mas discussão aqui é sobre as pessoas que torcem por este time. Cada time tem a sua sociabilidade, a sua história e a sua importância. Aqui está inscrita apenas uma delas.

      1. Sócrates Magno Torres

        Caro Felipe,

        Ao contrário do que imaginas, não sou torcedor do Corinthians. Torço pelo Vitória. Sou baiano com muito orgulho. Acima de tudo não quis falar de futebol, deves ter percebido. Nem falei do time em si, do Corinthians, Utilizei a metáfora do seu nome, nomeando este como uma praia. Coloquei um olhar sociológico sobre a agregação residente neste fenômeno. Se o Lula, a Caixa, a CBF tem alguma relação com este time, não está no meu campo de explanação neste artigo. Nem tampouco, contraposição com algum rival ou aliado. Busquei a alteridade que cabe a um cientista social em formação para tecer estas linhas sobre esta torcida. Não me foquei no Palmeiras, que tem uma outra historia, outro mérito, ou outra equipe qualquer. Não utilizei de defesa alguma. O Palmeiras, o Vasco da Gama deve possuir seus méritos que podem ser descritos, inclusive por mim se debruçar-me em uma pesquisa mais profunda. Numa coisa discordo de você. Que haja preconceito contra italianos, a não ser que sejam de outros estrangeiros, aqui no Brasil. Muito pelo contrário. A seleção italiana sofre preconceito assim como muitas outras. A Itália tem um histórico, inclusive no futebol, de possuir e tolerar o racismo em seus estádios. O que talvez justifique algo. Israel sofreu também recentemente em um jogo contra o selecionado português. Mas sobre São Paulo, quem sofre discriminação nesta cidade são os próprios filhos deste país que são oriundos de outras regiões. Também os latino americanos, inclusive que trabalham em regime escravo em nossas barbas. O olha de torcedor rival talvez tenha ofuscado sua visão para outras coisas.Inclusive para o fato de este pode ser o fator alienante também. Um outro leitor atentou a este viés interessante. Segundo ele, esta torcida pode ser uma das responsáveis, dentre tantas variáveis, pelo conservadorismo instalado em São Paulo que impede que o Estado avance em diversas vertentes políticas e seja responsável por tanta desigualdade. Isso dá um bom debate se sairmos do reducionismos fanático que o futebol pode nos conferir.
        Agradeço a oportunidade do bom debate.

  3. Felipe Fantin

    Você é corintiano, sim, só não se deu conta. Olhar alienado é de quem ignora uma miríade de referências para provar um argumento vazio. Corinthians é a praia? Que praia? A inclusiva praia de Maresias ou o Boqueirão? Estamos falando de Búzios ou da velha e boa Praia do Forte? Esse conceito que a praia é o lugar mais democrático do planeta já caducou, é vazio, pois não se sustenta a não ser em uma conserva de padaria. Eu sou filho de italiano, nunca tolerei racismo na minha vida, mas ainda assim sou xingado quando digo que torço para a Seleção Italiana, por causa do meu pai. Brasileiros renegam suas influências, suas raízes, para se colocarem em papel constante de vítimas de isso e daquilo, sendo que o próprio brasileiro é o mais racista povo que já conheci, inclusive nordestinos e sulistas. Não entendi sobremaneira essa glamurização do Corinthians em seu texto. Se até os cientistas sociais estão contaminados com esse oba-oba em torno de um time de futebol, é que a coisa já atingiu proporções proibitivas. Tem porteiros, empresários, favelados, cadeirantes, alcoolatras em todas as torcidas. É eles quem eu abraço quando estou na arquibancada, Agora o Corinthians é o time do momento, é a Classe C ascendente de Itaquera, é o time que cresceu sem seus próprios esforços, usando dinheiro público, e conquistou um torcedor do Vitória.

  4. Deborah Neves

    sou corinthiana, não torço pra seleção brasileira, não sou odiada pelos torcedores rivais e acho que o que o Sócrates (que deve ser corinthiano por conta do nome que carrega kkkk) quis apresentar aqui a multiplicidade na torcida do Corinthians e a beleza de se torcer num estádio. Não que ele seja torcedor deste ou daquele time, mas resolveu escrever sobre este. Acho muito complicado rotular que “palmeirenses são odiados por serem italianos”, quando eu mesma tenho familiares palmeirenses, ou quando escuto uma pessoa próxima e palmeirense falando que a torcida do corinthians é feia porque “tem muito preto” e que a do São Paulo “até tem uns pretos mas é muito mais clarinha que a do Corinthians”. Agora, ele falou isso por que é palmeirense? Ou será que falou isso porque é racista? Ou porque enxerga no corinthiano um pobre como ele, mas ele mesmo não se enxerga como pobre e discriminado tanto quanto o preto quando de sua chegada no Brasil?
    Lamento que tenha caido para esse lado um texto tão simpático. Embora no campo de futebol o Palmeiras seja o maior rival do meu time, tenho uma profunda admiração pela história do clue, cujas origens remontam ao mesmo bom retiro operário corinthiano, e que meu time também emprestou jogadores para o Palestra quando vários jogadores de origem italiana tiveram que ir à Europa lutar nos fronts.
    Quanto ao dinheiro público, meu caro, equivoca-se que o Corinthians seja o único beneficiado. São Paulo teve a compra do Canindé facilitada pelo poder público, bem como a compra do terreno e da construção do Morumbi. E divide até hoje, os muros do CT com o Palmeiras em um terreno cedido pela prefeitura de São Paulo. Portanto, todos os times de futebol deste país são beneficiados com dinheiro público, lamentavelmente (ou esqueces o patrocinador de décadas do Flamengo (petrobrás)? Que a Eletrobras e a liquigás patrocinaram o botafogo, o vasco… e no sul o Banrisul patrocina gremio e inter? e q caixa tb patrocina o Atlético paranaense?). Assim, o Corinthians está mais em evidência por seu momento histórico vivido agora, assim como foram Palmeiras na década de 1990 (com denuncias de corrupção da Parmalat e tudo) e São Paulo ao fim da década de 2000 (com favorecimentos da CBF inclusive mudando de mata-mata para pontos corridos por pressão quase exclusiva desse clube).
    Embora corinthiana, sei reconhecer os problemas do meu time, mas não aponte apenas os problemas do meu quando todos tem os mesmos ou até piores.
    E viva a praia paulista, que pode ser também o estádio de futebol…. Valeu, Sócrates!

  5. Quando eu cheguei em São Paulo em 2007, não haviam passado dois minutos e já tinha ganho o manto alvinegro. Porém virei corinthiano mesmo, meses depois, acompanhando a volta a serie A, depois do rebaixamento. Lembro do dia do retorno ao Brasileirão, eu sem perceber nem entender estava chorando. Minha paixão pelo Corinthians foi decretada e orgulhosamente louvada durante todos estes anos.

    Sociologicamente, falando de mim, foi o Corinthians que mais me ajudou me entrosar com o jeito paulistano (e brasileiro) de ser. Ganhei muitos amigos e outros “inimigos” mas de fato um reconhecimento positivo ou negativo, que me garantia uma visibilidade que com nenhum outro item da sociabilidade faziam sentido.

    Também reconheço, que aos poucos percebi que essa força dos times encontrasse na maioria dos outros times e torcidas, porém não com a mesma intensidade (sem fanatismo) mas que cada um dos times também é representado em todas as classes sociais como possbilidade de trânsito entre elas, também é um fato.

    Aqui, minhas impressões, hispanas de esse fato, meu querido parceiro Sócrates.
    https://entreduaslinguas.wordpress.com/2012/12/18/corinthians-de-mi-corazon/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s