O graffiti fora da rua

No dia 02/02 estive no MuBE para prestigiar a II Bienal do Graffiti Fine Art. Cresci convivendo com o graffiti na minha vida, e até me arrisquei a fazer alguns, mas meu

talento sempre foi pouco, especialmente perto de amigos que até hoje são artistas e vivem disso.Travei grandes discussões em minhas aulas na pós-graduação de Gestão da Cultura sobre o papel do graffiti dentro do “mercado” de arte. Nunca aceitei o fato de que algo que nasceu pra ser marginal, que trouxe pra rua e pra todos a qualidade de um bom trabalho artístico sem que pra isso precisasse pagar ou entender tudo sobre arte, fosse agora tratado como um “produto”. Não admitia que o graffiti saísse do muro e fosse parar numa galeria, pra ser vendido por milhares de reais; afinal, se é graffiti, é da rua, não é pra estar Foto Deborah Nevesem casa, privado e privatizado.

Pois bem, sempre me criticaram por essa minha postura com o argumento de que o artista deve pagar contas e por isso, era válido vender seu trabalho. Embora o argumento seja justo e compreensível, nunca me esquecia de Chico Science e seu refrão “Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”.

Meu pensamento não mudou – e sei que sou criticada por isso; o artista do graffiti deve vender sua arte sim pra sobreviver, como qualquer outro trabalhador, mas não gosto de artistas que deixam de pintar na rua pra pintar quadros carésimos. Pra mim, eles deixaram de ser graffiteiros quando optaram por abandonar aquela que primeiro deu a oportunidade de expressão: a rua. É um ato de gratidão o cara continuar pintando os muros da cidade mesmo depois de virar “famoso”, como é o caso de Minhau, Chivitz, Zezão, Onesto, Kobra e de tantos outros que nos deliciam com sua arte.

A diferença aqui foi que a II Bienal do MuBE me mostrou que os artistas dali não fizeram sua arte pra ser exposta no Museu, mas trouxeram a essência das ruas pra dentro da galeria, sem adaptações de linguagem, sem restrições. Senti-me na rua, senti que aquela exposição subverteu o sentido dela própria: levou a rua pra dentro de um espaço fechado, com suas denúncias e marginalidade, não se adaptou ao “mundinho” das galerias. Talvez muita gente que nunca olhou um trabalho daqueles artistas nos muros da cidade passe a valorizar o artista popular, mesmo que para isso o graffiti tenha que ter assumido ares formais de exposição. Outros talvez tenham Foto Deborah Nevesapenas “consumido” e não compreendido o que viram.

Meu desejo é que essa Bienal mostre as possibilidades de uma cidade mais humana e real para aqueles que se limitam a ocupar seus carros e bairros nobres. Que mais graffiteiros se sintam no direito de se apropriar do espaço público para adoçar os dias de cada pedestre, e para que o graffiti nunca saia das ruas, lugar a que pertencem!

Deborah Neves

Nossa vizinha já passou por estas paragens num texto sobre a Cracolândia.

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