A cidade do revide

E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina. 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos.

Caetano Veloso

Amar não é o suficiente. Ame-a ou deixe-a, São Paulo? Apropriar-se talvez seja mais legítimo.

APROPRIE-SE DE SUA CIDADE, POR FAVOR

Eis o meu manifesto, algo ou tudo o que eu poderia dizer sobre a nova guerra, essa guerra de cidade.

Sabemos que tudo começa quando 111. 111 de que? 111 de Carandiru. Lá, 111 assassinados e nenhuma justiça. Ninguém é culpado pelas mortes. Antes, os que matam réus pretos são considerados heróis.

PORQUE ERAM QUASE TODOS PRETOS.

Vi hoje, PCC pode ser representado pelos números 16 3 3 (P=16/ C=3). A polícia, 111 mesmo.

“Pois, Veja, só morreu bandido! Só morre quem reage! É justiça, não percebe?” Não, não percebo.

‘Santos’ ou ‘não santos’, bandidos ou não, polícia ou não, é gente que morre. 111 gentes. E hoje, neste conflito silencioso que permeia a cidade, quantas gentes morrem? Quem é que morre?

PORQUE ERAM QUASE TODOS PRETOS.

Pensei no Haiti. Rezei pelo Haiti. Pensei em São Paulo. Rezei por São Paulo.

Ninguém é bobo: a justiça não é uma demanda nova, funciona quase como default para “santos” e “não-santos”, todos mártires urbanos. Mas quando o Estado, aquele que detém o monopólio da violência e do julgar, se omite, as portas se abrem para o revide.

São Paulo é a cidade do revide.

E ninguém sabe realmente o que fazer… o revide não é racional, não há o que prever.

Não vou propor nada suicida, todos nós queremos continuar vivos. Mas penso que o revide só pode ser vencido quando os cidadãos, estes que habitam a cidade, começarem a se apropriar do lugar onde vivem, ter consciência de si, consciência do outro, pois O LUGAR ME/NOS PERTENCE. Não digo estar no lugar apenas fisicamente…  precisamos nos reconhecer, sentir que há poder em nós e não aceitar o revide. Somos todos pretos!

Mais amor, por favor? Amor não é suficiente. Consciência de classe te soa anacrônico?

Se você não aceita o revide, a morte de nossos pretos, de qualquer um, seja ‘santo’ ou ‘não santo’, já deu um passo. O próximo? Ocupar a cidade para dela não sentir mais medo. Saber quem somos e onde estamos.

São Paulo precisa se encarar, precisa perceber que o sangue nas ruas diz muito sobre as coisas que não nos preocupamos no dia a dia, diz muito sobre o que não é conversa apropriada para a sala de jantar.

Raquel Foresti

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4 comentários sobre “A cidade do revide

  1. Quando terminei de escrever este texto, o senti incompleto. Quando pedi a opinião de alguns colegas sobre ele, percebi que partilhavam da mesma impressão. Acontece que uma das bases de argumentação é a busca pela justiça: policiais ou membros do PCC, segundo o texto, precisam ser igualmente julgados e penalizados por seus crimes. Não deve haver distinção, grupos de extermínio ou crime organizado, os dois nos aterrorizam e necessitamos de um basta. Mas, quem acredita na justiça? É como a criança que quer fazer logo 16 anos para votar… acredita, a pobre, que irá contribuir, que este é seu exercício de cidadania. Já adultos sacamos que a ‘festa da democracia’ simplesmente não existe, a luta por direito é cotidiana, árdua, cheia de imensos obstáculos e coletiva… um título de eleitor não basta. Como adultos, sabemos disso. E como adultos, sabemos que a justiça não existe. Acredito que a sensação de meu texto estar incompleto reside nisso: não acreditamos na justiça. O Estado, os 3 poderes… tudo… são instituições burguesas que por mais que em sua origem preguem o ideal da igualdade sabemos que na prática isso não existe. Vivemos, globalmente, na cultura do privilégio, onde uns tem mais direitos do que outros. Não há justiça, há privilégio: o adolescente de classe média nunca será julgado na mesma medida que um garoto de rua. É fato. Então… pedir por justiça? Justiça de quem? As instituições e seus valores precisam ser revogados, a luta é outra. O caos urbano que vivemos é consequência de algo maior, de uma crise que excede a dinâmica da ‘segurança pública’, do ‘urbano’… como resolver esta equação? Estamos pensando no agora, no paliativo… mas isso também é incompleto.

    1. Então, isso que eu fico maquinando dia e noite, o que fazer? Se a justiça favorece quem paga por ela. Paga no sentido corrupto do termo, pq todos pagam por ela com os impostos. Mas tem que paga mais, e isso viciou o sistema. A gente tá num mar de desigualdade e não tem solução fácil. Só conheço a solução que o levante pode trazer, mas não vai ser agradável pra quase ninguém isso…e depois do levante o que virá?! É triste…

  2. Será que a revolução não seria agradável para a maioria? Acho que obrigaria eu e vc a nos mover… nosso sapato aperta, mas a gente ainda consegue andar…. enfim, somos classe média. Mas não penso que para a maioria seria algo – enfim, como vc disse – não agradável. Qt ao resto, enfim… o problema de toda a revolução é o dia seguinte… problema, não… a parte mais dificil… foi o Che Guevara quem disse isso?…

  3. Bom Raquel, creio que seu texto vai de encontro com o noticiado recentemente pela Folha:
    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1193080-n-de-assassinatos-de-negros-no-pais-sobe-em-oito-anos.shtml

    Honestamente, será raro encontrar um texto que dê conta de uma crise gravíssima como a que estamos enfrentando. O tema é complexo e arrisco afirmar que a ação investigativa e de polícia vinda da esfera Federal já está demorando para chegar: não vislumbro outra alternativa para um contexto fora de controle.

    No texto que expus em meu pequeno blog, no item “O FIM (OU LIMITE) DO PRAGMATISMO POLÍTICO”, tento expor uma possível interpretação do contexto atual a partir de uma perspectiva histórica mais longa. A guerra que temos no momento é herança, em partes, da ditadura militar, haja visto que todos os governadores após a abertura “democrática” em SP tiveram como bandeira principal de campanha o reforço de segurança e armamento.

    Assim, não só clamamos por um sistema de justiça mais justo, igualitário, mas por um sistema político que, à Direita ou à Esquerda, faça prevalecer em primeiro lugar o bem-estar da população, e não o benefício de grupelhos com quem se negociou durante o período eleitoral…

    Bom, espero ter colaborado. Obrigado pelo convite.

    http://celiobiker.multiply.com/tag/banho%20de%20sangue

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