Ensaio sobre uma avenida morta

Gosto muito da Avenida Paes de Barros na Mooca. Há nela, sim, a loucura do trânsito, dos corredores de ônibus, das blitz da lei seca. Só que acredito que as suas árvores no canteiro central a amenizam, as pessoas mais velhas a conversar nas esquinas, padocas e botecos, escolas de inglês, apartamentos e casas, lojas de vestido de noiva, sim… tem shopping e concessionárias mas elas não chegam a estragar a paisagem. A Avenida Paes de Barros é uma avenida viva.

Quando converso sobre essa avenida com meus pais eles dizem que ela já foi mais bonita, que o corredor de ônibus feito na época da Erundina meio que enfeiou tudo (ah, as metrópoles…) e que antes ela era repleta de belos sobrados, grandes casas… as pessoas passeavam pela Paes de Barros e ficavam apontando qual era a casa mais bonita, qual deveria ser a sua casa. Claro que esta Paes de Barros da década de 1960 não existe mais, só que ela ainda possui certa beleza, certa harmonia… e confesso que os prédios de apartamentos de lá, feitos em fins da década de 1970, também são belíssimos.

Em SP também existe outra categoria de avenida: as mortas. Acredito ser o caso da Avenida do Estado, Ricardo Jafet e a Santo Amaro. Na Avenida do Estado, especificamente, há cemitérios e cemitérios de galpões, concessionárias feiosas, calçadas sujas e o rio Tamanduateí bizarramente retificado. Fora isso, temos nela um elevado exclusivo para ônibus chamado Fura Fila, Paulistão, Expresso Tiradentes… enfim, você escolhe um nome. Esse expresso foi ‘decorado’ como se fosse um cano amarelo – cano amarelo caganeira, como diria minha mãe – que, apesar de servir bem aos habitantes da Vila Prudente e São Matheus, esteticamente é medonho. E acredito que só colocaram essa coisa medonha nesta avenida porque já a consideram morta. Nela ninguém caminha, se há vida é apenas nas favelas que as margeiam e raros governos se preocupam com as nossas favelas.

Talvez eu seja romântica mas acredito que os lugares precisam ser agradáveis, mesmo as avenidas, os corredores de ônibus, as padarias. É preciso ter harmonia para haver vida. Na Paes de Barros essa harmonia existe. Pobre Avenida do Estado…

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