Síndrome de Sucupira

O dramaturgo Dias Gomes escreveu no início dos anos 1960 uma obra que ficou imortalizada pela grande interpretação de Paulo Gracindo, pela crítica sagaz e bem humorada ao modelo coronelista de fazer política e da maneira pouco republicana e ortodoxa de administrar a rés publica. Trata-se da novela O Bem Amado. Grande sucesso de audiência, o folhetim televisivo ganhou as graças do povo por retratar uma realidade brasileira desde os rincões mais esquecidos até as os bastidores da política dos generais dos anos de chumbo.

Passadas décadas desde sua exibição nos deparamos com uma realidade muito próxima do que víamos retratado naqueles idos tempos. Seja na maneira típica de fazer política que caracterizava as oligarquias udenistas, seja no perfil rocambolesco de proferir discursos fáceis e proselitistas, no caráter fanfarrão e corrupto que caracterizam a figura do Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia cidade do interior da Bahia, podemos observar, sem sermos tão atentos, que muito pouco mudou neste modus operandi deprimente que nos acompanha.

Muitas cidades com invejáveis perfis econômicos, vocação turística, áreas de manancial para exploração sustentável de recursos naturais, com orçamentos dignos de capitais de alguns estados ou de cidades importantes no âmbito nacional não conseguem se desenvolver utilizando o seu potencial nato. Por serem acometidas de um complexo de inferioridade que não as permitem deslanchar na qualidade de vida de seus cidadãos, estas cidades amargam índices de desigualdade, violência, baixa escolaridade, saúde precária, desordem institucional e legal, que as colocam em verdadeiras linhas de flagelos nacionais.

O povo está a cada dia mais atento a este tipo de gestão duvidosa. Muitas cidades estão conseguindo se livrar das dinastias feudais. Estas que sempre usaram a mão de ferro para imporem de forma ditatorial um poder mantido a custas dos cofres públicos e da venda de ilusões e projetos faraônicos e pessoais.

As cidades estão aprendendo a dizer “Não!” aos Odoricos Paraguaçus da vida real e acabando de uma vez por todas com esta mazela que dizima a auto estima e o sonho de um futuro melhor para o seu povo. Esta Síndrome de Sucupira está sendo tratada de forma cidadã, lançando-se mão de um aparato legal e institucional que nos permite a aplicação de um dos princípios democráticos mais primordiais: a alternância de poder. Não apenas a troca de “seis por meia dúzia”. Uma ruptura com lógicas perversas que nos fazem acreditar em propostas farsantes de melhorias e que se revelam uma cópia caricata de tudo de ruim que já foi aplicado em nossas pobres ricas cidades. Qualquer semelhança da trama e dos seus personagens com o nosso dia a dia não é mera coincidência.

 

Sócrates Magno Torres

 

Sobre nosso vizinho: Educador social, sociólogo em rumo, palpiteiro de plantão que possuiu a irresponsabilidade necessária para opinar sobre os mais diversos temas. Alguém que acha que tudo e cada coisa são as mesmas coisas. Acredita em vida antes da morte e se dispôs a ter as marcas e sorrisos dos que optaram em caminhar entre roseiras. Aroma, beleza e espinhos…

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3 comentários sobre “Síndrome de Sucupira

  1. Apesar dos pesares nosso país está mudando para melhor. Falta muito mas há uma direção. Para entender bem o texto do Sócrates acho que vale a pena assistir Morte por Terra do Adrian Cowell. Fala bem das oligarquias e de como o povo luta e morre para que as ‘Sucupiras’ deixem de existir.

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