Um ônibus chamado destino… Destino City Jaraguá

Não vou contar uma breve história ou um fato que aconteceu comigo, mas sim  tentar encontrar um sentido, por menor que seja, para aquilo que podemos chamar de vida.

Do momento em que nasci até os meus 21 anos, morei no apartamento 41, do Bloco Marcia, do Condomínio Super Quadra Jaguaré, localizado na Av. Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo. Foi naquele lugar que fiz as minhas melhores amizades, que briguei, que refiz as pazes, que brinquei, que rodei peão, que joguei bolinha de gude, que aprendi a jogar futebol, a andar de bicicleta, a empinar pipa, que dei meu primeiro beijo e que arrumei a minha primeira namoradinha, entre outras cicatrizes visíveis e invisíveis que carrego comigo.

Lembro-me que até 1996, a favela São Remo se estendia dos muros da Universidade de São Paulo, passava por trás do Batalhão da Polícia Militar e da 93º DP e chegava até a Av. Jaguaré. Naquele ano, Paulo Maluf, então prefeito da cidade de São Paulo, removeu parte da São Remo para dar lugar à continuação da Av. Escola Politécnica e ao McDonald’s da Av. Jaguaré. Na época, eu tinha apenas 12 anos e não entendia ainda muito bem como as coisas funcionavam, tanto que a lembrança mais forte é a alegria com a qual todas as crianças da SQJ comemoraram a chegada do McDonald’s. Afinal, ter um restaurante desses na frente da sua casa era um privilégio para poucos.

Os anos passaram: Fundamental II, Ensino Médio, vestibular, faculdade, trabalho, mudança do Jaguaré, morar sozinho em São Paulo… Vida de gente grande.

Apesar de ter escolhido cursar História para, um dia, dedicar-me à carreira docente, esta não foi a minha primeira opção de trabalho – desde o segundo ano da faculdade até 2010, dediquei-me a área de memória empresarial. Só em 2009, após fazer um grande balanço decidi ir atrás daquela ideia inicial, ou seja, tornar-me um professor. Aproveitei o fato da prefeitura de São Paulo ter aberto um grande concurso para contratação de professores,  estudei e passei, vindo a assumir o cargo já em 2010.

No dia da atribuição (escolha da escola onde iria lecionar) fui até um prédio na Av. Angélica, onde recebi um manual do Sindicato dos Professores da Prefeitura de São Paulo com o nome, endereço e telefone de todas as escolas da cidade e, já na sala de atribuição, apesar da minha boa classificação, notei que não conhecia o nome de nenhuma das escolas com vagas disponíveis. Neste momento, uma pergunta não podia deixar de ecoar em minha cabeça: “e agora, o que fazer?”

Foi então que um nome diferente chamou a minha atenção no quadro de escolas (diferente porque não era o nome de um professor, de um personagem famoso da história etc.): EMEF City Jaraguá IV. Neste instante, lembrei-me que havia um ônibus com este nome (City Jaraguá) que saía justamente do Jaguaré, passava pela minha atual residência, na Vila Leopoldina, e que, muito provavelmente, me deixaria perto da escola.

Apesar de não ter a menor ideia de onde ficava, escolhi aquela escola sem nenhum sinal de dúvida.

Quando chegou o dia de começar a minha nova fase de vida, a do professor, peguei o ônibus City Jaraguá, desci no ponto final e informei-me com algumas pessoas que estavam pela rua onde ficava a EMEF City Jaraguá IV. Então, após longos anos, finalmente encontrava-me em frente a uma escola pública da periferia de São Paulo pronto para iniciar um trabalho.

Meu início na carreira docente não foi diferente do início dos demais professores, ou seja, cheio de dúvidas, incertezas, mais erros do que acertos etc. Com o passar do tempo, fui entendendo melhor a comunidade onde lecionava e, numa conversa com alguns funcionários que residem próximos à escola, descobri que parte dos moradores do City Jaraguá são aqueles que foram removidos da São Remo em 1996.

Muitos podem acreditar que este relato traz apenas coincidências da vida na cidade grande. Contudo, eu prefiro optar por uma palavra mais simples e muito mais bonita: destino.

João Goto

sobre nosso vizinho: Um professor cético, mas que ama a beleza improvável do destino.

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9 comentários sobre “Um ônibus chamado destino… Destino City Jaraguá

  1. Sim, esse texto me emocionou… Gostei muito, João, e admiro sua vontade de dar aulas. Você costumava dizer que queria “pagar” ou retribuir o ganhou com a universidade pública. Certeza que você retribuiu com muito mais, com tudo aquilo que você aprendeu desde a infância.

  2. Theimis Fernanda Rebelo Goto

    Não tenho palavras para descrever a minha emoção em ler esse relato, sei o quanto vc se dedica aos seus alunos, o prazer que tem naquilo que faz, e com certeza alcalçara um dia seu objetivo que é uma educação de qualidade, com respeito, e a todos sem distinçâo.
    Recebi um grande presente de deus, ser sua mãe,teamo,admiro e respeito.
    Mão corja,rsssssssss,bjs.

  3. Destino não é das minhas palavras prediletas mas quando, pela primeira vez, ouvi o relato do Goto e depois o vi escrito não deixei de sorrir e pensar numa que prefiro mais: PRIVILÉGIO. Reencontrar parte da comunidade da favela San Remo num lugar em que vc se dirigiu apenas por conhecer um busão que o levaria até lá é algo tão poético que poderia ser fictício. O privilégio é que isso foi e é real.

  4. Pingback: Falam por ai… City Jaraguá | cidadeando

  5. Silvia

    Gostaria de fazer uma observação, A favela que foi removida no Jaguaré no ano de 1996, para que a Avenida Politécnica fosse construída, não era a São Remo, e sim a favela Nossa Senhora da Paz.

    1. Olá, Silvia!
      Tudo bem?
      Obrigado! Eu era realmente pequeno (tinha 11 para 12 anos) quando a favela foi removida e não sabia o nome correto dela. Eu sempre a chamava de favela da Jaguaré, por causa da avenida, e coloquei São Remo no texto porque é a favela próxima dali que permaneceu (até não sei quando, pois a USP já cresceu o olho pra cima daquele terreno).
      Um abraço,
      João

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