Caipirinha na Estação Bresser

Adoro a ideia de ter nascido mulher. Mesmo! Gosto das curvas do meu corpo, do movimento do meu cabelo despenteado, de andar e chamar a atenção, de num dia inspirado sair vestida para matar, de comprar sapatos… ah, tudo superficial, não? Eu realmente gosto dos objetos femininos em mim. Mas, antes de tudo, gosto da força que nós mulheres levamos dentro, de nosso olhar abusado, da nossa facilidade em superar toda e qualquer situação… basta lembrar da piadinha gráfica: homem com gripe = cama / mulher com câncer = cuidando dos filhos, indo trabalhar, indo se arrumar.

Só que, em determinados momentos, eu odeio ser mulher. Odeio não poder sair sozinha na madrugada. Odeio usar um vestido e ser tratada como puta.  Aliás, puta merece respeito também. Odeio ser tratada como princesa que precisa ser sustentada, defendida. Odeio ser vista como carne fresca. Odeio ser xingada de vagabunda por pedir uma cerveja sem estar ‘devidamente’ acompanhada por um homem.

Aliás, falando em cerveja, bar e mulher… mesmo em grupos, o garçom sempre pergunta ao homem o que ele quer. A mulher, numa mesa de bar, é enfeite.

Só que no Bresser não!

Um dia fui até lá para comprar um avental, oh, sou professora. Era hora do almoço, era quarta-feira: FEIJOADA’S DAY!!! Entrei no boteco, botecasso, e pedi o PF de feijoada. Só havia homens naquele lugar, operários da prefeitura que estavam arrumando as calçadas. Todos eles me olharam. Sentei-me dignamente sozinha numa mesa e aguardei meu pratão. O garçom, educadíssimo, trouxe meu pedido e pediu desculpas porque tinha pouco arroz, disse que eu poderia pedir mais se quisesse. Esse ‘pouco’ era equivalente a um prato cheião, montanha. Eu ri por dentro, agradeci e comecei a comer. Me senti feliz, eu e os operários éramos iguais naquele boteco…. mas o melhor ainda estava por acontecer… o boteco tinha uma DONA… e essa senhora, numa naturalidade revolucionária, me perguntou:

‘-Vai uma capirinha pra acompanhar? Digestivo!’

Juro que eu quase chorei de emoção… mulher, sozinha, comendo PF e tomando uma caipirinha! Ah, o mundo tem solução! E nem te conto da decepção do garçom quando ele percebeu que eu não precisei de mais arroz ou de como aquela senhora me levou para conhecer o filho dela, dono de uma loja de panos de prato. #hohoho

Raquel Foresti

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3 comentários sobre “Caipirinha na Estação Bresser

  1. haha achei o máximo esse texto, Rachel! Com força e humor, além de falar do que a gente passa normalmente… bom que mais mulheres e homens nos tratem assim, com igualdade 🙂
    Parabéns pelo belissímo texto!
    Ah, depois só me conte sobre o dono da loja de panos de prato rsrs

  2. Muito bom o texto! Adorei o início quando descreve os motivos pelo qual gosta de ser mulher!
    Mulher, SER SAGRADO!
    Ah….também fiquei curiosa para saber o desfecho sobre o dono da loja de panos de prato…

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